Borderline, identidade e vazio
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Borderline, identidade e vazio: por que algumas pessoas sentem que não sabem quem realmente são?
Existe uma pergunta que parece simples, mas pode ser profundamente angustiante: "Quem sou eu?"
Para a maioria das pessoas, a resposta pode mudar ao longo da vida, mas existe alguma continuidade. A pessoa pode mudar de profissão, amadurecer, rever suas opiniões, terminar relacionamentos, mudar de cidade ou atravessar períodos de sofrimento, mas ainda consegue reconhecer uma espécie de fio que conecta diferentes momentos da própria história.
No Transtorno de Personalidade Borderline, essa continuidade pode ser muito mais difícil de experimentar. Não significa simplesmente não gostar de si mesmo. Também não significa apenas ter baixa autoestima.
Em alguns casos, a pessoa pode experimentar mudanças intensas na maneira como percebe a si mesma. Em determinado momento, pode sentir-se forte, especial e extremamente determinada. Pouco depois, diante de uma rejeição, conflito ou frustração, pode passar a enxergar-se como alguém completamente inadequado, sem valor ou impossível de amar.
A dificuldade está justamente nessa instabilidade. A pergunta "quem sou eu?" pode não encontrar uma resposta suficientemente estável.
E quando a própria identidade parece mudar de acordo com aquilo que está acontecendo emocionalmente, a vida pode assumir uma característica profundamente angustiante: a sensação de estar sempre tentando descobrir quem se é.
Quando a identidade não parece ter raízes
Todos nós somos diferentes em situações diferentes. Uma pessoa pode ser profissionalmente segura e emocionalmente insegura em um relacionamento. Pode ser extrovertida com amigos e reservada diante de desconhecidos. Pode mudar de opinião depois de adquirir novos conhecimentos. Isso faz parte da experiência humana.
Ter uma personalidade não significa permanecer absolutamente igual.
A questão é outra. Existe uma diferença entre mudar e não conseguir experimentar continuidade. No Borderline, essa dificuldade pode aparecer como uma percepção de identidade instável. A pessoa pode ter dificuldade para reconhecer seus próprios valores, desejos, objetivos e características como elementos relativamente constantes de sua personalidade.
Ela pode perguntar: "Eu realmente quero isso ou estou querendo porque alguém espera isso de mim?" "Eu gosto dessa pessoa ou estou apenas com medo de ficar sozinho?" "Essa é realmente a minha opinião?" "Por que ontem eu me sentia uma pessoa e hoje parece que sou outra?" "Quem eu sou quando ninguém está comigo?"
Essas perguntas não são necessariamente sinais de uma crise passageira de identidade. Quando fazem parte de um padrão persistente, podem estar relacionadas àquilo que a Psiquiatria descreve como perturbação da identidade, uma das características associadas ao Transtorno de Personalidade Borderline.
O vazio que não é simplesmente tristeza
Outro aspecto frequentemente associado ao Borderline é a sensação crônica de vazio. É importante não confundir vazio com tristeza. A tristeza normalmente está relacionada a alguma experiência de perda, frustração ou sofrimento. O vazio pode ser diferente. A pessoa pode dizer: "Não sinto nada." "Não sei o que quero." "Tenho tudo, mas parece que falta alguma coisa." "Sinto que existe um buraco dentro de mim." "Não sei quem sou."
Esse vazio pode ser especialmente angustiante porque não apresenta necessariamente uma causa evidente. A pessoa pode estar cercada de pessoas e ainda assim sentir-se profundamente sozinha. Pode alcançar objetivos e continuar sentindo que nada possui significado. Pode receber carinho e, mesmo assim, ter dificuldade para acreditar que é verdadeiramente amada.
Pode iniciar um novo relacionamento imaginando que finalmente encontrou aquilo que procurava e, algum tempo depois, experimentar novamente a mesma sensação de vazio. É justamente nesse ponto que precisamos ter cuidado. Não devemos interpretar essa experiência simplesmente como ingratidão, imaturidade ou falta de fé. Existe sofrimento real por trás dela.
A relação com o outro pode ajudar a construir quem somos
A identidade humana não se desenvolve isoladamente. Desde os primeiros anos de vida, aprendemos quem somos também por meio das relações. A criança descobre aspectos de si mesma através do olhar dos pais, dos cuidadores e das pessoas significativas.
Ela aprende, progressivamente: "Sou amado." "Sou importante." "Posso confiar." "Posso expressar o que sinto." "Posso discordar sem perder o vínculo." "Posso errar e continuar sendo amado."
Essas experiências contribuem para a construção de uma identidade mais integrada. Quando as relações são marcadas por instabilidade, rejeição, invalidação emocional, abandono ou experiências traumáticas, o desenvolvimento dessa segurança pode ser prejudicado.
Isso não significa que toda pessoa com Borderline tenha necessariamente passado por trauma.
Também não significa que exista uma única causa para o transtorno.
O desenvolvimento da personalidade é complexo e envolve fatores biológicos, psicológicos, relacionais e ambientais.
Mas compreender a importância das relações ajuda a explicar por que o medo de abandono pode exercer tanta influência sobre a identidade e o comportamento de algumas pessoas com Borderline. "Se você vai embora, quem eu sou?"
Essa pergunta ajuda a compreender uma dimensão importante do problema. Quando a identidade é pouco estável, o relacionamento pode assumir uma importância muito maior na definição de quem a pessoa acredita ser.
Por isso, uma ameaça de abandono pode ser experimentada não apenas como: "Vou perder alguém que amo." Mas também como: "Vou perder uma parte de mim."
Essa diferença é fundamental. O medo de perder o outro pode tornar-se tão intenso que a pessoa tenta evitar a separação de maneiras desesperadas. Pode surgir uma necessidade intensa de confirmação:
"Você ainda me ama?"
"Você vai ficar comigo?"
"Você está diferente comigo?"
"Você vai me abandonar?"
O problema é que a busca constante por segurança pode produzir exatamente aquilo que a pessoa mais teme. Quanto maior a ansiedade, maior pode ser a necessidade de confirmação. Quanto maior a necessidade de confirmação, maior pode ser a tensão no relacionamento.
E quanto maior a tensão, maior pode tornar-se o medo de abandono. Forma-se um ciclo emocional extremamente doloroso.
O papel da Psicanálise
A Psicanálise oferece uma contribuição importante para compreender essa instabilidade. Na tradição psicanalítica contemporânea, especialmente nos trabalhos de Otto Kernberg, a compreensão da personalidade envolve a maneira como o indivíduo organiza representações de si mesmo e dos outros.
Quando essas representações permanecem pouco integradas, a pessoa pode experimentar dificuldades para reunir aspectos positivos e negativos de si mesma e das outras pessoas em uma percepção mais realista e complexa.
Em vez de conseguir pensar: “Essa pessoa me decepcionou, mas continua sendo alguém que possui qualidades e limitações”, pode ocorrer uma mudança mais radical: “Ela é maravilhosa.” E depois: “Ela é horrível.” Algo semelhante pode acontecer na percepção de si mesmo: “Eu sou uma pessoa incrível.” Depois: “Eu não sou ninguém.”
Essa dificuldade de integrar aspectos diferentes da realidade pode ajudar a compreender por que sentimentos e avaliações podem mudar tão rapidamente. A pessoa não está necessariamente fingindo. Naquele momento, aquela experiência subjetiva pode ser absolutamente verdadeira para ela.
E o que as Neurociências acrescentam?
As Neurociências não explicam sozinhas a identidade humana, mas ajudam a compreender por que emoções intensas podem alterar profundamente a maneira como uma pessoa interpreta acontecimentos e toma decisões. O cérebro não funciona como uma máquina que primeiro pensa e depois sente.
Cognição e emoção estão profundamente relacionadas. Experiências emocionais intensas influenciam atenção, memória, interpretação dos acontecimentos, tomada de decisões e percepção das relações.
Em situações de grande ativação emocional, a capacidade de refletir sobre a própria experiência pode ficar comprometida. É por isso que uma pessoa pode interpretar uma mensagem curta como rejeição, uma mudança de tom de voz como abandono ou uma pequena frustração como prova de que não é amada.
Isso não significa que o cérebro esteja "quebrado". Significa que determinados padrões emocionais podem tornar algumas interpretações mais prováveis. E aqui existe uma notícia importante:
o cérebro aprende.
Através de experiências repetidas, relações mais seguras e processos terapêuticos adequados, novos padrões podem ser desenvolvidos. A transformação não acontece simplesmente porque alguém decidiu "pensar positivo".
Ela acontece através de aprendizagem, elaboração emocional, novas experiências relacionais e desenvolvimento de habilidades.
E onde entra a fé?
É aqui que precisamos evitar dois erros. O primeiro é dizer: "Você sente esse vazio porque está longe de Deus." O segundo é afirmar: "Como isso é psicológico, a fé não tem nada a ver com o problema." Ambas as afirmações são simplistas. A fé cristã não elimina automaticamente as complexidades da personalidade. Também não transforma sofrimento psicológico em prova de falta de espiritualidade.
A Bíblia apresenta seres humanos profundamente complexos. Davi experimentou angústia. Elias experimentou exaustão e medo. Jó atravessou sofrimento intenso. Jeremias expressou sentimentos de profunda dor.
Os Salmos não escondem a experiência humana. Eles nos mostram pessoas levando sua confusão, medo, tristeza e esperança para diante de Deus. Isso é espiritualmente importante. A Bíblia não exige que o sofrimento seja negado para que a fé seja verdadeira.
Identidade cristã não é uma fórmula psicológica
Existe, porém, uma contribuição muito importante da Teologia Reformada. A identidade cristã não é construída exclusivamente a partir daquilo que sentimos sobre nós mesmos. Nossa percepção pode oscilar. Nossos sentimentos podem mudar. Nossa autoestima pode cair. Podemos atravessar períodos de confusão.
Mas a identidade cristã encontra seu fundamento em nossa relação com Deus e naquilo que Ele realiza em Cristo. Isso não significa usar versículos como uma espécie de anestesia emocional. Também não significa dizer a alguém: "Você é filho de Deus, então não deveria sentir esse vazio."
Isso seria transformar uma verdade teológica em uma resposta simplista para um sofrimento complexo. A doutrina cristã precisa alcançar a experiência concreta da pessoa.
O cristão pode saber teologicamente quem é e, ainda assim, experimentar emocionalmente uma profunda dificuldade de sentir segurança, pertencimento e valor. É justamente aí que o cuidado pastoral se torna necessário.
O Aconselhamento Pastoral não deve substituir o tratamento
O conselheiro pastoral pode ajudar a pessoa a perceber que sua identidade não precisa depender completamente da aprovação de outras pessoas. Pode ajudá-la a refletir sobre abandono, culpa, pertencimento, graça, responsabilidade e esperança. Pode oferecer uma comunidade segura.
Pode ensinar a pessoa a interpretar sua história à luz das Escrituras.
Mas o aconselhamento pastoral não deve assumir o lugar da psicoterapia ou da Psiquiatria quando existe um transtorno de personalidade.
O cuidado responsável reconhece limites. A pessoa não precisa escolher entre fé e tratamento. Pode receber acompanhamento psicológico ou psiquiátrico e, ao mesmo tempo, ser cuidada espiritualmente.
A identidade pode amadurecer
Talvez esta seja uma das mensagens mais importantes deste artigo. Uma identidade instável não precisa ser uma sentença para toda a vida.
O desenvolvimento da personalidade é um processo.
A pessoa pode aprender a reconhecer seus sentimentos sem ser completamente governada por eles. Pode aprender a diferenciar: “Estou sentindo que não sou amado”
de “Eu não sou amado.” Pode aprender a perceber: “Estou com medo de ser abandonado”
sem concluir imediatamente: “Essa pessoa vai me abandonar.”
Pode aprender a tolerar a ambivalência. Alguém pode nos decepcionar e continuar sendo importante. Podemos amar alguém e estabelecer limites. Podemos estar com raiva e ainda amar. Podemos cometer erros e continuar possuindo valor. Podemos sofrer e ainda ter esperança.
Esse amadurecimento é fundamental. A vida emocional deixa de ser organizada apenas em extremos e começa a admitir algo que parece simples, mas é profundamente transformador: as coisas podem ser complexas sem serem contraditórias.
Um caminho de integração
É exatamente aqui que o Método Muller encontra sua aplicação.
A Psiquiatria ajuda a identificar o transtorno e orientar o tratamento adequado.
A Psicanálise contribui para compreender conflitos, relações, representações de si e do outro e processos inconscientes envolvidos na organização da personalidade.
As Neurociências ajudam a compreender os mecanismos envolvidos na regulação emocional, aprendizagem e adaptação.
A Teologia Reformada oferece uma compreensão profunda da identidade humana diante de Deus, da graça, do pecado, da redenção e da santificação.
O Aconselhamento Pastoral aproxima essas verdades da vida cotidiana e oferece acompanhamento, escuta, comunidade e esperança.
Nenhuma dessas áreas precisa ocupar o lugar da outra. O cuidado torna-se mais responsável quando reconhecemos aquilo que cada campo pode oferecer.
Uma palavra para quem sente esse vazio
Se você convive com essa sensação de não saber exatamente quem é, talvez precise ouvir algo importante: você não precisa resolver toda a sua identidade em um único dia.
O amadurecimento acontece progressivamente. Talvez hoje você ainda não consiga compreender completamente suas emoções. Talvez seus relacionamentos ainda sejam marcados por medo. Talvez você ainda oscile entre sentir-se muito importante e sentir-se completamente sem valor.
Isso não significa que não exista possibilidade de mudança. Procure ajuda. Construa relações mais seguras. Aprenda a observar seus sentimentos. Desenvolva capacidade de esperar antes de reagir. Conheça sua história. Permita-se ser acompanhado.
E, para o cristão, aprenda também a descansar na verdade de que sua identidade não depende exclusivamente daquilo que sente sobre si mesmo. Sentimentos são importantes. Mas sentimentos não são sempre bons intérpretes da realidade.
Conclusão
A pergunta "quem sou eu?" acompanha todo ser humano. No Borderline, entretanto, essa pergunta pode ser acompanhada por uma angústia muito mais profunda. A identidade pode parecer instável. O relacionamento pode parecer indispensável para definir o próprio valor.
O abandono pode ser experimentado como perda de uma parte de si. E o vazio pode parecer impossível de preencher. Mas compreender esse sofrimento é diferente de justificá-lo. E tratá-lo não significa negar a responsabilidade. Existe um caminho entre o moralismo e o determinismo.
Esse caminho passa pelo conhecimento, pelo tratamento, pelo relacionamento, pela maturidade e, para o cristão, pela esperança que encontra em Deus sua fonte última.
Talvez a pessoa ainda não consiga responder completamente à pergunta: "Quem sou eu?"
Mas pode começar com uma pergunta diferente: "Quem estou me tornando?"
Essa pergunta abre espaço para o processo. Porque identidade também é construção. E aquilo que hoje parece fragmentado pode, com tempo, cuidado e tratamento adequado, tornar-se uma história mais integrada.
Não uma história perfeita. Mas uma história que faça sentido.
Oração
Senhor Deus,
Tu conheces cada parte de nós, inclusive aquelas que nós mesmos ainda não conseguimos compreender.
Quando nossa identidade parece confusa, ajuda-nos a encontrar segurança em Ti. Ensina-nos a reconhecer nossas emoções sem sermos dominados por elas.
Dá-nos humildade para buscar ajuda, sabedoria para compreender nossa história e coragem para enfrentar aquilo que precisa ser transformado.
Coloca em nosso caminho pessoas capazes de cuidar de nós com verdade, compaixão e responsabilidade. E ensina-nos a compreender que nosso valor não depende da aprovação humana, nem das oscilações dos nossos sentimentos.
Que em Cristo encontremos uma identidade que não seja construída sobre medo, rejeição ou abandono, mas sobre graça, verdade e esperança.
Em nome de Jesus.
Amém.
Referências básicas
American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR.
Kernberg, Otto F. Transtornos Graves da Personalidade: Estratégias Psicoterapêuticas. Artmed.
Kernberg, Otto F.; Yeomans, Frank E.; Clarkin, John F.; Levy, Kenneth N. Trabalhos sobre psicoterapia focada na transferência e organização da personalidade borderline.
Fonagy, Peter; Bateman, Anthony. Trabalhos sobre mentalização e tratamento dos transtornos de personalidade.
Damásio, António. O Erro de Descartes. Companhia das Letras.
Kandel, Eric R. et al. Princípios de Neurociências. Artmed.
Bíblia Sagrada. Salmos; Romanos 8; Gálatas 5; Efésios 1; 2 Coríntios 5.
Calvino, João. As Institutas da Religião Cristã.
Bavinck, Herman. Dogmática Reformada.
Powlison, David. Obras sobre aconselhamento bíblico e cuidado pastoral.
Por Carlos Henrique Müller Filho – teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista, especialista em neurociências na pratica clínica e neuropsicanálise.


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