JUVENTUDE, CÉREBRO IMATURO E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA:
- 14 de fev.
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estímulo à cidadania ou instrumentalização da vulnerabilidade?
Nos últimos anos tornou-se comum ouvir campanhas incentivando jovens de 16 anos a tirarem seu título de eleitor. A narrativa é sedutora: “o jovem precisa participar da democracia”. O discurso apela à consciência social, ao ideal de transformação e ao engajamento político.
Contudo, a neurociência levanta uma questão que não pode ser ignorada.
Estudos sobre o desenvolvimento cerebral indicam que o córtex pré-frontal — região associada ao controle inibitório, planejamento, julgamento moral e avaliação de consequências — atinge sua maturidade estrutural plena por volta dos 24 a 25 anos.
Pesquisadores como Antônio Damásio demonstram que a tomada de decisão envolve integração entre emoção e razão, sendo que essa integração amadurece progressivamente na juventude.
Isso não significa que o adolescente seja incapaz de pensar. Significa, porém, que sua estrutura neurobiológica ainda está em processo de consolidação.
A pergunta, portanto, não é se o jovem pode votar.
A pergunta é: em que medida ele está preparado para resistir à influência coletiva?
A psicologia das massas e a juventude
Na obra Psicologia das Massas e Análise do Eu, Sigmund Freud demonstra como o indivíduo, quando inserido em um grupo, tende a reduzir sua autonomia crítica, identificando-se emocionalmente com líderes e ideais.
Ora, se o adulto já é suscetível à identificação grupal, o adolescente — cuja identidade ainda está em formação — encontra-se ainda mais vulnerável ao desejo de pertencimento.
A adolescência é, por natureza, fase de:
Busca de identidade;
Necessidade de aprovação;
Idealização de figuras simbólicas;
Sensibilidade intensa à pressão do grupo.
Nesse contexto, campanhas políticas que apelam à emoção, à rebeldia ou ao sentimento de justiça podem encontrar terreno fértil.
A questão aqui não é acusar, mas refletir:
estamos promovendo cidadania ou capturando subjetividades em formação?
O dado jurídico brasileiro
A Constituição da República Federativa do Brasil estabelece o voto facultativo aos 16 e 17 anos, conforme regulamentação do Tribunal Superior Eleitoral.
O legislador não fundamentou essa decisão em critérios neurocientíficos, mas políticos. Trata-se de um reconhecimento formal de participação cívica, não de maturidade cognitiva.
Aqui reside a tensão.
A biologia aponta para um processo ainda incompleto.
O direito concede autonomia política.
Entre um e outro, está o jovem — muitas vezes ainda dependente emocional e economicamente, frequentemente imerso em ambientes ideologicamente carregados.
Uma análise teológica da responsabilidade
A Bíblia Sagrada não estabelece idade cronológica para responsabilidade moral, mas apresenta um princípio claro: responsabilidade está ligada à consciência.
A tradição cristã sempre compreendeu que discernimento não é apenas função da idade, mas da formação.
Maturidade não é apenas biológica; é formativa.
Se o jovem é convocado à responsabilidade política, ele está sendo igualmente formado para discernimento moral?
Ou apenas mobilizado para números eleitorais?
A questão que precisa ser feita
Não se trata de retirar direitos.
Trata-se de perguntar:
O jovem está sendo preparado para pensar criticamente?
Ou está sendo convidado a aderir emocionalmente?
A democracia pressupõe maturidade — estamos investindo nessa maturidade?
O discurso público costuma exaltar o engajamento juvenil. Pouco se fala sobre a formação profunda da consciência.
Estimular participação sem formar caráter é irresponsabilidade social.
Conclusão
A neurociência nos lembra que o cérebro amadurece progressivamente.
A psicanálise nos lembra que a identidade é vulnerável à massa.
A teologia nos lembra que responsabilidade exige consciência.
Entre o entusiasmo democrático e a prudência antropológica, talvez devêssemos fazer uma pergunta mais honesta:
Estamos formando cidadãos ou recrutando eleitores?
No próximo artigo, aprofundaremos o outro extremo da questão:
Velhice, declínio cognitivo e autonomia política.
Por Carlos Henrique Muller Filho - teólogo especialista em aconselhamento pastoral e psicanalista

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