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Narcisismo tem tratamento?

  • há 1 dia
  • 12 min de leitura

Narcisismo tem tratamento? O que realmente podemos esperar

 

Quando alguém ouve falar em Transtorno de Personalidade Narcisista, uma das primeiras perguntas costuma ser: "Essa pessoa pode mudar?" A pergunta é compreensível. Talvez venha de alguém que convive com um cônjuge difícil. Talvez de um filho que sofre com um pai ou uma mãe emocionalmente exigente. Talvez de alguém que cresceu tentando conquistar a aprovação de uma pessoa que nunca parecia satisfeita. Ou talvez seja uma pergunta feita pelo próprio paciente: "Será que existe alguma coisa que possa ser feita comigo?"

 

Durante muito tempo, o narcisismo foi cercado por uma visão bastante pessimista. A ideia de que uma pessoa narcisista não muda, não sente, não sofre e não pode ser ajudada tornou-se quase um senso comum. Mas a realidade clínica é mais complexa.

 

O Transtorno de Personalidade Narcisista pode ser tratado.

 

Isso não significa que exista uma cura rápida, um medicamento específico ou uma técnica capaz de eliminar o narcisismo. Também não significa que toda pessoa diagnosticada necessariamente mudará. O que significa é que há possibilidade de mudança clínica significativa. E essa possibilidade precisa ser apresentada com esperança, mas também com honestidade.

 

Primeiro, precisamos abandonar a ideia de "cura" como transformação instantânea

 

Quando falamos em tratamento de um transtorno de personalidade, precisamos ter cuidado com a palavra "cura". Não estamos falando de uma doença que desaparece depois de algumas semanas de medicação. Estamos falando de padrões profundos de funcionamento psicológico que envolvem a maneira como a pessoa percebe a si mesma, interpreta os outros, regula sua autoestima, enfrenta frustrações e constrói relacionamentos.

 

Por isso, o tratamento tende a ser um processo. A mudança pode acontecer. Mas geralmente acontece gradualmente. Pesquisas recentes sobre psicoterapia de longo prazo encontraram melhora significativa no funcionamento da personalidade e da vida de pacientes com Transtorno de Personalidade Narcisista, inclusive com casos nos quais o diagnóstico deixou de ser preenchido ao longo do tratamento. Entretanto, os pesquisadores destacam que a mudança foi gradual e esteve relacionada a fatores como motivação, compromisso com a psicoterapia, capacidade reflexiva, regulação emocional e senso de agência.

 

Isso muda bastante a maneira como devemos falar sobre o tratamento. Não é: "Narcisistas não mudam." Também não é: "A terapia vai transformar essa pessoa rapidamente." A resposta mais responsável é: Há possibilidade de mudança, mas ela exige tempo, trabalho clínico e participação ativa do paciente.

 

O primeiro desafio é reconhecer que existe um problema

 

Existe uma dificuldade particular no tratamento do narcisismo. Muitas vezes, a pessoa não procura ajuda porque pensa: "Eu tenho um problema." Ela procura porque algo em sua vida entrou em colapso. Um casamento terminou. Perdeu uma posição profissional. Foi rejeitada. Entrou em conflito com alguém importante. Está deprimida. Sente vergonha. Experimenta uma sensação intensa de fracasso. Ou percebe que as pessoas ao seu redor estão se afastando.

 

Em determinadas situações, a pessoa pode chegar à terapia buscando alívio para aquilo que sente, mas sem reconhecer inicialmente a própria participação nos problemas relacionais. Isso não significa que ela seja incapaz de tratamento. Significa que o terapeuta precisa construir um caminho no qual o paciente consiga olhar para si mesmo sem transformar o processo terapêutico em outra disputa de poder. Esse é um dos grandes desafios clínicos.

 

O narcisismo não é apenas arrogância

 

Outro erro é imaginar que o tratamento precisa simplesmente ensinar a pessoa a ser "menos arrogante". O problema é muito mais profundo. A literatura contemporânea descreve o narcisismo patológico envolvendo dificuldades relacionadas à autoestima, regulação emocional, funcionamento interpessoal, empatia e percepção de si e dos outros. Também reconhece apresentações mais grandiosas e outras mais vulneráveis, que podem coexistir na mesma pessoa. Por trás de uma postura de superioridade pode existir uma autoestima extremamente dependente da validação externa.

 

A pessoa pode precisar sentir-se especial para não entrar em contato com sentimentos de inferioridade. Pode reagir intensamente à crítica porque a crítica não é experimentada simplesmente como uma informação. Ela pode ser vivenciada como uma ameaça à própria identidade. Por isso, o tratamento não consiste simplesmente em dizer: "Você precisa ser mais humilde." A questão é compreender: "O que acontece dentro de você quando você não se sente especial?" Essa pergunta é muito mais profunda.

 

O objetivo não é destruir a autoestima

 

Aqui existe outro equívoco. Tratar o narcisismo não significa humilhar a pessoa até que ela reconheça que não é especial. Isso seria apenas repetir a lógica do conflito. O objetivo não é trocar: "Eu sou superior a todos." por: "Eu sou inferior a todos." Nenhuma dessas posições representa uma relação saudável consigo mesmo. O objetivo é construir uma percepção de si mais realista, integrada e estável.

 

A pessoa precisa conseguir reconhecer: "Tenho qualidades, mas também tenho limitações." "Posso ser competente sem ser superior." "Posso receber críticas sem ser destruído por elas." "Posso fracassar sem deixar de ter valor." "Posso reconhecer o valor do outro sem perder o meu." Essa mudança é muito mais profunda do que simplesmente diminuir comportamentos arrogantes.

 

A psicoterapia é o principal tratamento

 

Atualmente, o tratamento do Transtorno de Personalidade Narcisista é centrado principalmente na psicoterapia. O Manual MSD, em sua atualização de 2026, destaca a psicoterapia psicodinâmica e também aponta abordagens como tratamento baseado em mentalização e psicoterapia focada na transferência; a terapia cognitivo-comportamental também pode ser utilizada em determinados casos. Isso é particularmente importante para nós, porque o tratamento precisa trabalhar não apenas sintomas isolados, mas padrões de funcionamento.

 

A psicoterapia pode ajudar o paciente a observar: como interpreta as atitudes dos outros; como reage à crítica; como lida com frustração; como busca reconhecimento; como transforma conflitos em disputas; como percebe a si mesmo; como percebe os outros; como regula sentimentos de vergonha, raiva e inferioridade; e como participa da construção de seus próprios relacionamentos. O tratamento não pretende apenas fazer a pessoa "se comportar melhor". Pretende ajudá-la a compreender melhor a si mesma e a construir formas mais maduras de se relacionar.

 

E a psicanálise?

 

A tradição psicanalítica tem uma contribuição histórica importante para a compreensão do narcisismo. Desde Freud, passando por diferentes desenvolvimentos posteriores, o narcisismo foi compreendido não simplesmente como vaidade, mas como uma questão relacionada à constituição do eu, autoestima, relações objetais e funcionamento psíquico. Na clínica contemporânea, diferentes abordagens psicodinâmicas continuam sendo utilizadas no tratamento do narcisismo patológico.

 

A psicoterapia focada na transferência, por exemplo, procura trabalhar os padrões relacionais que aparecem na própria relação entre paciente e terapeuta. A proposta é utilizar aquilo que emerge na relação terapêutica para compreender e modificar representações problemáticas de si e dos outros. Isso é particularmente interessante porque o relacionamento terapêutico pode se tornar um espaço onde os padrões habituais do paciente aparecem de maneira observável.

 

A pessoa pode idealizar o terapeuta. Depois desvalorizá-lo. Pode sentir-se incompreendida. Pode interpretar uma intervenção como crítica. Pode tentar controlar a relação. Pode buscar aprovação. Pode abandonar o tratamento quando se sente frustrada. Esses movimentos não são apenas obstáculos. Podem se tornar material clínico.

 

A terapia focada em esquemas também pode ajudar

 

Outra abordagem utilizada é a Terapia do Esquema. Ela trabalha padrões emocionais e cognitivos profundos que se desenvolveram ao longo da história da pessoa e que continuam influenciando suas relações. No narcisismo, podem aparecer estratégias de enfrentamento relacionadas à grandiosidade, à busca de reconhecimento e ao afastamento de sentimentos dolorosos. O objetivo não é simplesmente eliminar esses comportamentos. É compreender o que eles estão tentando proteger.

 

Por exemplo: O que a grandiosidade protege? O que acontece quando a pessoa se sente comum? O que a crítica desperta? Por que o fracasso se torna tão intolerável?

 

A Terapia do Esquema tem sido estudada como uma abordagem potencial para o Transtorno de Personalidade Narcisista, embora ainda seja necessário ampliar a base de evidências específica para esse diagnóstico.

 

E a terapia baseada em mentalização?

 

Outra possibilidade é o tratamento baseado em mentalização. Mentalizar significa, de maneira simplificada, conseguir compreender o próprio estado mental e o estado mental do outro. O que estou sentindo? Por que estou reagindo dessa maneira? O que o outro pode estar sentindo? Será que minha interpretação é a única possível? Será que estou atribuindo ao outro uma intenção que não posso realmente conhecer?

 

Essa capacidade pode ser especialmente importante em pessoas que apresentam dificuldades na maneira como interpretam as relações. Em vez de reagir imediatamente: "Ele está tentando me humilhar." A pessoa aprende gradualmente a perguntar: "Por que interpretei dessa maneira?" Essa pequena mudança pode representar uma transformação enorme.

 

O tratamento não acontece sem dificuldades

 

Precisamos falar também sobre aquilo que pode tornar a terapia complicada. Uma pessoa com funcionamento narcísico pode ter dificuldade em tolerar frustração. Pode sentir-se criticada com facilidade. Pode tentar controlar a relação terapêutica. Pode idealizar o profissional e depois desvalorizá-lo. Pode esperar resultados rápidos. Pode abandonar o tratamento quando se sente confrontada. Pode tentar transformar a terapia em um espaço de confirmação pessoal.

 

Essas dificuldades não significam que o tratamento seja impossível. Significam que o vínculo terapêutico precisa ser construído com cuidado. Pesquisas e trabalhos clínicos destacam a importância da aliança terapêutica, de objetivos claros, do fortalecimento da capacidade de agência e da atenção às vulnerabilidades do paciente. Também alertam para riscos como entrar em disputas de poder, reforçar excessivamente a grandiosidade ou confrontá-la de maneira direta e improdutiva.


Em outras palavras: O terapeuta não precisa humilhar o narcisismo para tratá-lo. Mas também não deve simplesmente alimentá-lo. O desafio é oferecer uma relação suficientemente segura para que a pessoa possa entrar em contato com aquilo que normalmente precisa evitar.

 

Existe medicamento para narcisismo?

 

Essa é uma das perguntas mais comuns. A resposta precisa ser clara: Não existe atualmente um medicamento específico que trate o Transtorno de Personalidade Narcisista em si. O tratamento principal é psicoterápico. Medicamentos podem ser utilizados quando existem sintomas ou transtornos associados, como depressão, ansiedade ou outras condições psiquiátricas. Eles podem ajudar a tratar esses problemas, mas não constituem uma "medicação para o narcisismo". Essa distinção é fundamental.

 

Tomar um antidepressivo, por exemplo, pode ajudar uma pessoa narcisista que esteja deprimida. Mas isso não significa que o medicamento, sozinho, irá modificar profundamente seu padrão de funcionamento da personalidade. Por isso, a avaliação precisa ser individualizada e realizada por profissional habilitado.

 

Então podemos esperar uma mudança de personalidade?

 

Sim, mas precisamos definir o que significa mudança. Não devemos esperar que a pessoa se transforme em outra personalidade. A mudança clinicamente relevante pode aparecer de maneiras muito mais concretas. Talvez ela consiga tolerar melhor uma crítica. Talvez consiga reconhecer um erro sem entrar imediatamente em ataque ou desvalorização. Talvez consiga ouvir o sofrimento do cônjuge. Talvez consiga reconhecer que o outro também possui necessidades. Talvez consiga suportar melhor o fracasso. Talvez precise menos de admiração constante. Talvez consiga pedir desculpas. Talvez consiga permanecer em uma conversa difícil sem transformar tudo em disputa.

 

Talvez consiga reconhecer: "Eu estava errado." Essas mudanças podem parecer pequenas. Mas, na vida de alguém com funcionamento narcísico importante, podem representar transformações profundas.

 

Um estudo recente traz uma informação especialmente importante

 

Um estudo publicado em 2026 comparou Terapia Focada em Esquemas e Unified Protocol em 114 pessoas com Transtorno de Personalidade Narcisista. Os dois tratamentos produziram redução significativa da gravidade do transtorno ao longo de 12 meses. A Terapia Focada em Esquemas apresentou maior redução em medidas de grandiosidade, enquanto o Unified Protocol apresentou maiores reduções em vulnerabilidade narcísica, raiva, vergonha e desregulação emocional.

 

Isso não significa que exista uma terapia única que funcione para todos. Significa algo mais interessante: o narcisismo pode responder ao tratamento. E diferentes aspectos do funcionamento narcísico podem responder de maneiras diferentes a diferentes intervenções. Isso reforça a importância de uma avaliação clínica individualizada.

 

Mas e se a pessoa não quiser tratamento?

 

Aqui chegamos a um dos limites mais importantes. Ninguém pode fazer psicoterapia no lugar de outra pessoa. Você pode sugerir. Pode conversar. Pode estabelecer limites. Pode mostrar preocupação. Pode procurar orientação para si mesmo. Mas não pode obrigar alguém a desenvolver consciência sobre o próprio funcionamento. E isso vale especialmente para familiares. Às vezes, a família passa anos tentando convencer uma pessoa a procurar ajuda.

 

Enquanto isso, todos adoecem tentando fazer o outro mudar. Talvez seja necessário mudar a pergunta. Em vez de: "Como faço essa pessoa procurar tratamento?" talvez seja: "Como posso me posicionar de maneira saudável diante dessa realidade?" Essa é uma questão que trabalhamos no artigo anterior. E ela continuará sendo importante.

 

A mudança depende também da motivação

 

Não basta o terapeuta saber o que fazer. Não basta a família querer. Não basta o sofrimento existir. A participação do paciente é fundamental. Pesquisas sobre mudança em psicoterapia para o Transtorno de Personalidade Narcisista apontam justamente para a importância da motivação, do compromisso com o tratamento, da capacidade reflexiva, da regulação emocional e do senso de agência.

 

Isso significa que a pergunta: "Essa pessoa tem jeito?" não é a melhor pergunta. Uma pergunta mais adequada seria: "Essa pessoa está disposta a olhar para si mesma e trabalhar para mudar?" Porque possibilidade de mudança não significa garantia de mudança.

 

O que podemos realisticamente esperar?

 

Podemos esperar menos explosões diante de críticas. Podemos esperar maior capacidade de reflexão. Podemos esperar relações menos baseadas em controle e desvalorização. Podemos esperar maior capacidade de reconhecer o outro. Podemos esperar maior tolerância à frustração. Podemos esperar melhora na regulação emocional. Podemos esperar maior estabilidade na identidade. Podemos esperar uma vida relacional mais funcional.

 

Mas não devemos prometer: mudança rápida. mudança garantida. mudança sem esforço. mudança produzida por uma única técnica. mudança produzida pela família. E muito menos uma transformação completa simplesmente porque alguém "entendeu" que é narcisista. O insight é importante. Mas insight sem trabalho não produz necessariamente mudança.

 

E aqui entra uma questão pastoral

 

Para a igreja, essa discussão precisa ser tratada com muito cuidado. Não devemos transformar o diagnóstico em rótulo moral. Uma pessoa com Transtorno de Personalidade Narcisista não é simplesmente "uma pessoa má". Ela apresenta um padrão complexo de funcionamento psicológico. Isso não elimina responsabilidade moral. Mas responsabilidade não é a mesma coisa que condenação. A igreja pode oferecer verdade sem humilhação. Pode oferecer graça sem permissividade. Pode incentivar tratamento sem reduzir tudo a uma questão espiritual.

 

E pode reconhecer que algumas pessoas precisam tanto de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico quanto de cuidado pastoral. O cuidado pastoral não deve competir com o tratamento clínico. Ele pode caminhar ao lado dele. A pessoa pode precisar trabalhar clinicamente questões de autoestima, vergonha, raiva, identidade e relacionamentos. Ao mesmo tempo, pode precisar refletir sobre responsabilidade, pecado, reconciliação, perdão, graça e o significado de viver diante de Deus. Uma dimensão não precisa destruir a outra.

 

Cristo não é um substituto para a psicoterapia

 

Essa afirmação precisa ser feita com clareza. Orar é importante. A Palavra de Deus é fundamental para a vida cristã. A graça de Cristo é central para nossa identidade. Mas isso não significa que todo transtorno psicológico será resolvido simplesmente por meio de uma experiência espiritual. A espiritualidade cristã não precisa negar a realidade psicológica. Pelo contrário. A fé cristã pode nos conduzir à verdade.

 

E a verdade inclui reconhecer nossas limitações, assumir responsabilidades e buscar ajuda quando necessário. Não existe humildade cristã em dizer: "Não preciso de ajuda porque tenho fé." Às vezes, reconhecer que precisamos de ajuda é justamente uma expressão de humildade.

 

O que acontece quando o paciente realmente muda?

 

Talvez essa seja a parte mais esperançosa. A pessoa não precisa deixar de ter personalidade. Ela precisa tornar-se mais capaz de habitar a própria personalidade de maneira integrada. Pode continuar sendo ambiciosa. Pode continuar sendo competente. Pode continuar gostando de reconhecimento. Pode continuar tendo sonhos. Pode continuar desejando sucesso.

 

O que muda é a relação com essas coisas. Sucesso deixa de ser prova de superioridade. Crítica deixa de ser uma ameaça à existência. Fracasso deixa de significar humilhação absoluta. Reconhecimento deixa de ser uma necessidade permanente. Relacionamentos deixam de ser apenas fontes de validação. E talvez a pessoa finalmente consiga descobrir algo que a grandiosidade sempre tentou esconder: não é preciso ser superior para ter valor.

 

Existe esperança, mas ela precisa ser madura

 

Talvez essa seja a melhor maneira de concluir. Existe esperança. Mas não uma esperança ingênua. Existe possibilidade de mudança. Mas não uma promessa. Existe tratamento. Mas não uma solução instantânea. Existe psicoterapia. Mas ela exige participação. Existe conhecimento científico. Mas ainda temos muito a aprender. E existe graça. Mas graça não significa negar a responsabilidade.

 

A literatura contemporânea sobre o Transtorno de Personalidade Narcisista mostra justamente essa mudança de perspectiva: embora o tratamento possa ser difícil e a mudança geralmente seja gradual, há evidências de melhora significativa em funcionamento, relacionamentos e sintomas quando o paciente se envolve adequadamente no processo terapêutico.

 

Por isso, talvez devêssemos abandonar duas frases igualmente simplistas: "Narcisista nunca muda." e "Basta amar que ele muda." Nenhuma das duas faz justiça à realidade. A primeira elimina a esperança. A segunda elimina a responsabilidade. A posição mais madura está entre as duas: A mudança é possível, mas precisa ser construída.

 

Talvez a verdadeira pergunta seja outra

 

Quando alguém pergunta: "Narcisismo tem tratamento?" talvez esteja perguntando: "Existe esperança?" A resposta é: sim. Mas esperança não significa esperar passivamente. Esperança significa reconhecer uma possibilidade real e, ao mesmo tempo, respeitar o processo necessário para que ela aconteça. Para quem apresenta o transtorno, isso significa assumir responsabilidade por si mesmo. Para a família, significa não tentar fazer pelo outro aquilo que somente o outro pode fazer. Para o terapeuta, significa sustentar uma relação clínica capaz de confrontar sem humilhar e acolher sem reforçar padrões destrutivos.

 

Para a igreja, significa oferecer graça e verdade sem transformar sofrimento psicológico em condenação espiritual. E para todos nós existe uma lição maior: mudar não é deixar de ser quem somos. É tornar-se capaz de viver de maneira mais verdadeira, integrada e responsável. Talvez o objetivo final do tratamento não seja fazer alguém dizer: "Eu sou especial." Nem: "Eu não sou ninguém." Mas chegar a um lugar muito mais saudável: "Eu sou quem sou, tenho limites, tenho falhas, tenho valor e não preciso diminuir o outro para existir." Esse talvez seja um dos sinais mais importantes de maturidade. E também uma das formas mais concretas de esperança.

 

Seguindo Seus Passos

Teologia • Psicanálise • Neurociências • Aconselhamento Pastoral

 

Por Carlos Henrique Müller Filho – Teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista, especialista em neurociências na pratica clínica e neuropsicanálise.

 

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