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O peso das palavras que nunca esquecemos

  • 11 de jun.
  • 4 min de leitura

Algumas palavras terminam quando são ditas. Outras permanecem conosco por muitos anos.


As palavras possuem um poder que muitas vezes subestimamos.


Elas são sons que desaparecem rapidamente no ar, mas seus efeitos podem permanecer por décadas dentro de uma pessoa.


Todos nós carregamos lembranças de palavras que nos marcaram.


Algumas nos encorajaram em momentos difíceis.


Outras nos ajudaram a acreditar em nós mesmos.


Mas também existem aquelas que feriram, humilharam, rejeitaram ou despertaram inseguranças que atravessaram os anos.


Muitas vezes, quando pensamos em grandes acontecimentos que moldaram nossa vida, lembramos de fatos importantes. Entretanto, não são apenas os acontecimentos que nos transformam. As palavras que ouvimos ao longo da existência também participam da construção da nossa identidade.


Talvez por isso existam frases que jamais esquecemos.


Quando uma palavra se torna uma marca


Nem toda palavra produz o mesmo efeito.


Todos os dias ouvimos inúmeras mensagens, opiniões e comentários que desaparecem rapidamente da memória.


Mas algumas palavras encontram um lugar especial dentro de nós.

Isso geralmente acontece quando são pronunciadas por pessoas significativas.


Pais.


Mães.


Avós.


Professores.


Pastores.


Amigos.


Cônjuges.


A voz daqueles que possuem importância emocional costuma alcançar regiões profundas da experiência humana.


Por essa razão, uma frase de incentivo pode fortalecer uma pessoa durante anos.


Da mesma forma, uma palavra de rejeição pode produzir marcas que permanecem por muito tempo.


Não porque a palavra possua um poder mágico, mas porque ela se conecta aos vínculos e significados que construímos ao longo da vida.


O olhar da psicanálise


A psicanálise compreende que a identidade humana não surge pronta.


Ela é construída gradualmente através das relações que estabelecemos com os outros.


Desde a infância, aprendemos quem somos por meio dos olhares, gestos e palavras que recebemos.


A forma como fomos reconhecidos influencia a forma como passamos a nos reconhecer.


Quando uma criança escuta repetidamente que não é capaz, que não é importante ou que nunca será suficiente, essas mensagens podem ser incorporadas à sua maneira de perceber a si mesma.


Da mesma forma, quando recebe encorajamento, acolhimento e reconhecimento, desenvolve recursos emocionais que fortalecem sua autoestima.


Isso não significa que somos condenados para sempre pelas palavras que ouvimos.


Significa apenas que elas participam da construção da nossa história emocional.


O que as neurociências nos mostram


As neurociências têm demonstrado que experiências carregadas de significado emocional tendem a ser registradas de forma mais intensa pelo cérebro.


Quando uma palavra é associada a sentimentos fortes, ela possui maior probabilidade de permanecer viva na memória.


O cérebro não registra apenas informações.


Ele registra experiências emocionalmente relevantes.


Por isso, algumas frases continuam sendo lembradas mesmo depois de muitos anos.


Elas permanecem associadas às emoções vividas naquele momento.


Não recordamos apenas as palavras.


Recordamos o que sentimos quando as ouvimos.


O perigo de transformar palavras em identidade


Um dos maiores riscos da vida emocional é permitir que determinadas palavras definam quem somos.


Muitas pessoas continuam vivendo sob a influência de mensagens recebidas há décadas.


Algumas ainda carregam dentro de si frases como:


"Você nunca será capaz."

"Você não é bom o suficiente."

"Você sempre decepciona as pessoas."

"Você não tem valor."


Com o tempo, aquilo que foi apenas uma opinião pode transformar-se em uma crença.


E a crença passa a influenciar comportamentos, relacionamentos e escolhas.


O problema é que nem tudo o que ouvimos corresponde à verdade.


Pessoas falam a partir de suas próprias limitações, dores, expectativas e histórias.


Nem toda palavra recebida merece ser transformada em identidade.


O olhar da fé


A fé cristã oferece uma perspectiva profundamente libertadora sobre esse tema.


Ao longo das Escrituras encontramos homens e mulheres que foram definidos por outras pessoas de forma negativa, mas que encontraram uma identidade diferente diante de Deus.


A Palavra de Deus frequentemente confronta os rótulos humanos.


Enquanto o mundo define as pessoas por seus fracassos, Deus as chama pelo potencial que ainda não conseguem enxergar.


A identidade cristã não é construída apenas pelas palavras que recebemos dos outros.


Ela encontra seu fundamento naquilo que Deus declara sobre seus filhos.


Isso não apaga as feridas do passado.


Mas oferece uma nova referência para compreender quem somos.


Ressignificar é possível


Maturidade emocional não significa esquecer as palavras que nos marcaram.


Também não significa fingir que elas nunca existiram.


Significa aprender a olhar para elas de maneira diferente.


Algumas palavras precisarão ser guardadas.


Outras precisarão ser questionadas.


E algumas precisarão ser deixadas para trás.


Nem toda voz merece permanecer governando nossa vida.


Nem toda palavra recebida merece ocupar espaço permanente em nossa identidade.


Existe liberdade quando aprendemos a distinguir aquilo que nos constrói daquilo que apenas nos aprisiona.


Conclusão


Todos nós carregamos palavras que nunca esquecemos.


Algumas foram fonte de força.


Outras se tornaram feridas silenciosas.


Mas a maturidade emocional e espiritual nos convida a algo maior.


Ela nos convida a reconhecer que nossa identidade não precisa permanecer presa a tudo o que ouvimos ao longo da vida.


As palavras possuem poder.


Mas elas não precisam ter a última palavra.


Quando aprendemos isso, descobrimos que algumas marcas podem ser transformadas em aprendizado, e algumas feridas podem se tornar caminhos para o crescimento.


Nem toda palavra recebida define quem somos.


E essa talvez seja uma das verdades mais libertadoras que podemos aprender.


Por Carlos Henrique Müller Filho - Teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista, especialista em neurociências na pratica clinica.

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