TRANSTORNO BIPOLAR
TRANSTORNO BIPOLAR: QUANDO AS OSCILAÇÕES DO HUMOR DEIXAM DE SER APENAS MUDANÇAS DE HUMOR?
Compreender o transtorno bipolar exige olhar para muito mais do que momentos de tristeza, euforia ou alterações emocionais.
Todo ser humano muda de humor. Há dias em que acordamos animados e outros em que estamos mais cansados. Podemos sentir entusiasmo diante de uma boa notícia, irritação diante de uma frustração, tristeza diante de uma perda ou alívio depois de uma situação difícil. Essas oscilações fazem parte da experiência humana.
O transtorno bipolar, porém, não pode ser compreendido simplesmente como “mudança de humor”. Trata-se de uma condição de saúde mental caracterizada pela ocorrência de episódios de mania ou hipomania e episódios depressivos, acompanhados por alterações importantes no humor, na energia, na atividade e no funcionamento da pessoa. A Organização Mundial da Saúde estima que dezenas de milhões de pessoas vivam com transtorno bipolar no mundo e destaca que a condição pode produzir impactos significativos nos relacionamentos, no trabalho, nos estudos e na vida cotidiana.
Por isso, uma das primeiras tarefas quando falamos sobre bipolaridade é abandonar duas simplificações opostas. A primeira é pensar: “Todo mundo tem mudanças de humor, então isso é apenas uma forma mais intensa de ser.” A segunda é imaginar: “Qualquer pessoa que tenha períodos de muita energia e depois fique triste é bipolar.” Nenhuma das duas afirmações corresponde à complexidade do transtorno.
NÃO É APENAS UMA QUESTÃO DE HUMOR
A palavra “bipolar” muitas vezes é utilizada no cotidiano para descrever alguém que muda rapidamente de opinião, fica irritado ou apresenta comportamentos considerados contraditórios. Esse uso banalizado da palavra produz um problema. Ele transforma uma condição clínica complexa em um adjetivo.
No transtorno bipolar, as alterações acontecem dentro de episódios que envolvem mudanças significativas no funcionamento da pessoa. Podem aparecer modificações importantes no sono, na energia, na velocidade do pensamento, na fala, na atividade, na impulsividade, na autoestima e na capacidade de avaliar consequências.
Durante um episódio maníaco, por exemplo, podem ocorrer redução importante da necessidade de sono, aumento de energia e atividade, aceleração do pensamento, fala mais intensa, distraibilidade, aumento da autoestima e comportamentos impulsivos ou de risco. Na depressão bipolar, podem surgir tristeza ou vazio persistentes, perda de interesse ou prazer, alterações do sono e da energia, dificuldades cognitivas e prejuízo significativo no funcionamento.
A questão, portanto, não é simplesmente: “A pessoa mudou de humor?” É preciso perguntar: “O que mudou no funcionamento dessa pessoa, durante quanto tempo, com que intensidade e quais foram as consequências?” Essa diferença é fundamental.
MANIA E HIPOMANIA NÃO SÃO SINÔNIMOS DE FELICIDADE
Existe outro equívoco frequente. Algumas pessoas imaginam que a mania seja apenas um estado de felicidade exagerada. Não é tão simples. A mania pode envolver euforia, mas também irritabilidade, agitação, impulsividade, sensação de poder ou capacidade aumentada, redução da necessidade de dormir e dificuldade de avaliar adequadamente as consequências das próprias decisões.
A hipomania apresenta características semelhantes, porém com intensidade e repercussão diferentes da mania. Em determinados momentos, a pessoa pode inclusive experimentar o aumento de energia como algo positivo. Pode sentir que finalmente está produzindo mais, pensando mais rápido, falando melhor ou precisando de menos sono.
E aqui surge uma questão importante para o cuidado: nem sempre aquilo que a pessoa experimenta como melhora é, necessariamente, sinal de estabilidade. Por isso, a avaliação clínica precisa considerar a história completa e não apenas a percepção daquele momento. As diretrizes clínicas recomendam uma avaliação detalhada da história dos episódios, das alterações de comportamento, do funcionamento entre episódios, dos fatores desencadeantes, da história familiar, das condições associadas e do impacto psicossocial.
O QUE A NEUROCIÊNCIA NOS AJUDA A COMPREENDER?
A neurociência nos permite perceber que o transtorno bipolar não pode ser reduzido a uma questão de “força de vontade”. O funcionamento do humor envolve sistemas complexos relacionados à regulação emocional, sono, ritmos circadianos, energia, cognição, motivação e processamento de estímulos. Não existe, entretanto, um único “cérebro bipolar” que explique todos os casos. O transtorno é heterogêneo.
Fatores biológicos, genéticos, psicológicos e ambientais participam de sua origem, desenvolvimento e evolução. A própria Organização Mundial da Saúde ressalta que não existe uma causa única conhecida e que diferentes fatores podem contribuir para o aparecimento e o curso da condição.
Essa compreensão é importante porque evita dois erros. O primeiro é o biologicismo: “É apenas o cérebro.” O segundo é o psicologismo: “É apenas emocional.” A pessoa é mais complexa do que qualquer uma dessas reduções.
E O QUE A PSICANÁLISE PODE PERGUNTAR?
A Psicanálise não substitui a avaliação psiquiátrica nem pretende explicar sozinha a origem do transtorno bipolar. Sua contribuição pode estar em outro lugar. Ela nos convida a perguntar: Como essa pessoa experimenta aquilo que está acontecendo com ela? O que significa, para alguém, perceber que em determinados períodos pensa, fala, deseja e age de maneira diferente? Como ela compreende a própria identidade depois de episódios que podem ter provocado perdas, conflitos, vergonha ou arrependimento? Como ficam os relacionamentos quando familiares passam a temer novas crises?
O sofrimento não está apenas nos sintomas. Pode existir também sofrimento na maneira como a pessoa passa a se enxergar depois deles. Por isso, compreender a subjetividade não significa negar a dimensão biológica. Significa reconhecer que uma condição clínica acontece na vida de alguém, e não apenas dentro de um cérebro.
E A FÉ?
É justamente aqui que o aconselhamento pastoral precisa ser exercido com responsabilidade. Uma pessoa com transtorno bipolar não precisa ouvir que sua doença é simplesmente resultado de falta de oração, pecado ou pouca fé. Mas também não precisamos retirar a fé da conversa. A perspectiva cristã começa reconhecendo que a dignidade da pessoa não depende de sua estabilidade emocional, produtividade ou capacidade de controlar todos os seus pensamentos e comportamentos.
A pessoa continua sendo pessoa. Continua possuindo dignidade. Continua necessitando de responsabilidade. Continua necessitando de cuidado. Continua podendo experimentar graça. Isso também significa que espiritualidade não deve ser utilizada para negar tratamento. A fé cristã não precisa competir com a medicina, a psiquiatria ou a psicoterapia.
O aconselhamento pastoral pode acompanhar a pessoa em perguntas que pertencem à dimensão espiritual e existencial: culpa, esperança, sofrimento, identidade, relações, sentido, comunidade e perseverança. Cuidar espiritualmente não significa substituir o cuidado clínico.
QUANDO O DIAGNÓSTICO SE TORNA UM RÓTULO
Existe ainda outro perigo. Depois de receber um diagnóstico, algumas pessoas passam a ser vistas apenas através dele. “Ele é bipolar.” “Ela é bipolar.” Como se essas palavras explicassem toda a pessoa. Não explicam. O diagnóstico descreve uma condição clínica. Não resume uma história, uma personalidade, uma vocação, uma fé, uma família ou um futuro.
A própria abordagem contemporânea do cuidado enfatiza a participação da pessoa nas decisões terapêuticas, o respeito à dignidade e a construção compartilhada do cuidado. Por isso, talvez uma das primeiras frases desta série precise ser também uma das mais importantes: A pessoa não é o transtorno bipolar.
TRÊS OLHARES SOBRE UMA MESMA PESSOA
TEOLOGIA
Pergunta pela dignidade, responsabilidade, graça, sofrimento, esperança e pertencimento.
PSICANÁLISE
Pergunta pela subjetividade, pelos conflitos, pela experiência do sofrimento, pelas relações e pelos significados que a pessoa atribui à própria história.
NEUROCIÊNCIAS
Investiga os processos relacionados ao humor, sono, energia, cognição, emoção e aprendizagem, reconhecendo a complexidade biológica do transtorno.
Nenhum desses olhares precisa eliminar os outros. Três perspectivas diferentes podem contribuir para compreender uma pessoa inteira.
UM DIAGNÓSTICO NÃO DEVE SER FEITO PELAS REDES SOCIAIS
Ter dias de muita energia não significa ter transtorno bipolar. Dormir pouco durante alguns dias não significa, por si só, mania. Sentir tristeza não significa depressão bipolar. Ser impulsivo também não significa automaticamente bipolaridade. O diagnóstico exige avaliação clínica qualificada, considerando história, duração, intensidade, padrão dos episódios, prejuízo funcional, contexto e possíveis diagnósticos diferenciais.
Diretrizes como as do NICE recomendam uma avaliação abrangente justamente porque diferentes condições podem apresentar sintomas semelhantes. Por isso: não transforme sintomas isolados em diagnósticos.
PARA COMEÇAR A REFLETIR
Antes de avançarmos para os próximos textos, vale guardar algumas perguntas:
Tenho confundido mudanças normais de humor com transtorno bipolar?
Entendo a diferença entre mania, hipomania e simplesmente estar muito animado?
Tenho utilizado a palavra “bipolar” de maneira banal para descrever pessoas?
Consigo compreender que uma condição neuropsiquiátrica não elimina a subjetividade da pessoa?
Na igreja, tenho espaço para falar sobre sofrimento psicológico sem transformar tudo em falta de fé?
Talvez compreender o transtorno bipolar comece justamente quando deixamos de procurar uma explicação simples para uma realidade complexa. Não se trata apenas de perguntar por que o humor muda. É preciso compreender o que acontece com a pessoa quando essas mudanças passam a alterar seu funcionamento, seus relacionamentos, suas escolhas e sua maneira de experimentar a própria vida. É nesse espaço entre cérebro, subjetividade, relações, fé e cuidado que precisamos aprender a caminhar.
A pessoa não é o transtorno.
Seguindo Seus Passos
Conhecer • Compreender • Acolher
Nota educativa: este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por profissionais qualificados. Em situações de mania, depressão grave, risco de autoagressão, suicídio ou risco para outras pessoas, é necessário buscar atendimento profissional urgente.
Por: Carlos Henrique Müller Filho – Teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista, especialista em neurociências na pratica clínica e neuropsicanálise.


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