VELHICE, DECLÍNIO COGNITIVO E AUTONOMIA POLÍTICA
- 21 de fev.
- 3 min de leitura
Idade cronológica garante discernimento?
Se no artigo anterior refletimos sobre a imaturidade neurobiológica da juventude, agora nos voltamos ao extremo oposto da existência: a velhice.
Vivemos um tempo paradoxal. De um lado, celebra-se o aumento da expectativa de vida.
De outro, silencia-se sobre o declínio funcional que frequentemente acompanha o envelhecimento. O discurso público exalta longevidade; raramente discute lucidez.
Segundo dados amplamente divulgados por órgãos como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população idosa cresce de maneira acelerada no Brasil.
Entretanto, viver mais não é necessariamente viver com autonomia cognitiva preservada.
Aqui surge a pergunta inevitável:
A idade avançada garante discernimento político?
O envelhecimento do cérebro: o que diz a ciência?
A neurociência demonstra que o envelhecimento pode implicar redução de volume cortical, alterações nas conexões sinápticas e maior vulnerabilidade a doenças neurodegenerativas.
Pesquisas associadas a autores como Antônio Damásio indicam que a tomada de decisão depende da integração entre memória, emoção e julgamento — funções que podem sofrer declínio progressivo.
Importante afirmar com rigor:
Envelhecer não é sinônimo de demência.
Há idosos plenamente lúcidos aos 80 ou 90 anos, assim como há adultos de 40 com prejuízos cognitivos importantes. O envelhecimento é heterogêneo.
Contudo, também é verdade que o risco de comprometimento cognitivo aumenta com a idade. Ignorar esse dado é romantizar a velhice.
O dado jurídico brasileiro
A Constituição da República Federativa do Brasil estabelece o voto facultativo para maiores de 70 anos. Diferentemente do jovem de 16, que recebe estímulo ativo para votar, o idoso acima de 70 não é compelido.
A legislação, porém, não exige qualquer avaliação cognitiva para o exercício do voto. Parte-se do pressuposto de que a capacidade está preservada.
Aqui encontramos nova tensão:
O jovem pode não ter maturidade consolidada.
O idoso pode apresentar declínio progressivo.
O sistema presume capacidade em ambos os casos.
A democracia opera sob a presunção de autonomia universal.
Mas a biologia não é universal; é variável.
Dependência e vulnerabilidade
Há idosos ativos em academias, produtivos e intelectualmente vigorosos. Mas também há aqueles completamente dependentes — física e cognitivamente — vivendo em instituições de longa permanência, alimentados e higienizados por cuidadores.
Pergunta inevitável:
Quando a dependência física é acompanhada de dependência cognitiva, quem está exercendo de fato a escolha política?
A psicanálise nos ajuda a compreender que o sujeito dependente tende a buscar figuras de autoridade substitutivas. A transferência — conceito central em Sigmund Freud — não desaparece na velhice; muitas vezes se intensifica diante da fragilidade.
A vulnerabilidade aumenta a suscetibilidade à influência.
Não se trata de acusar. Trata-se de reconhecer uma condição humana.
A dignidade não é anulada pela fragilidade
A Bíblia Sagrada afirma a dignidade da pessoa independentemente de sua condição funcional. A tradição cristã jamais vinculou valor humano à produtividade ou à capacidade intelectual plena.
A velhice, na perspectiva bíblica, é associada à honra, à experiência e à memória coletiva.
Mas honra não elimina realidade biológica.
A questão não é retirar dignidade.
A questão é discernir capacidade.
Democracia e pressuposto antropológico
A democracia moderna pressupõe:
Autonomia individual.
Capacidade de julgamento.
Liberdade de escolha.
Entretanto, raramente discute os limites dessa autonomia diante das fases extremas da vida.
Se exigimos maturidade moral para responsabilização penal, por que não discutimos maturidade e declínio quando tratamos de responsabilidade política?
Essa é uma pergunta estrutural, não partidária.
Entre o romantismo e o realismo
Há dois perigos:
Romantizar a juventude como pureza transformadora.
Romantizar a velhice como sabedoria garantida.
Ambos são mitos.
A maturidade não é garantida pela idade.
Nem para cima, nem para baixo.
Conclusão
A juventude pode ser impulsiva.
A velhice pode ser vulnerável.
O sistema político presume capacidade em ambas.
Talvez a questão mais profunda não seja quem pode votar, mas:
Como estamos formando e protegendo a consciência nas fases mais frágeis da vida?
No próximo artigo, avançaremos para a base antropológica dessa discussão:
Capacidade moral é biológica ou formativa? Uma análise teológico psicanalítica.
Por Carlos Henrique Muller Filho – teólogo especialista em aconselhamento pastoral e psicanalista

Comentários