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É POSSÍVEL MUDAR?

  • há 1 dia
  • 14 min de leitura

É POSSÍVEL MUDAR?

 

Tratamento, limites, responsabilidade e esperança diante do transtorno de personalidade histriônica

 

Nos últimos dias, percorremos um caminho importante. Primeiro, procuramos compreender o que é o funcionamento histriônico. Depois, observamos alguns dos comportamentos que podem aparecer nesse padrão. Perguntamos o que existe por trás da necessidade intensa de atenção. E, no dia anterior, vimos como essa dinâmica pode atingir os relacionamentos, produzindo insegurança, desgaste, dependência, conflitos e dificuldade para estabelecer limites.

 

Agora chegamos a uma pergunta inevitável: É possível mudar? A resposta precisa ser cuidadosa. Sim, existe possibilidade de mudança. Mas não existe uma fórmula rápida. Não existe uma frase capaz de transformar um padrão de personalidade. Não existe um versículo usado isoladamente que substitua o tratamento psicológico. E também não existe uma explicação psicológica que torne desnecessária a responsabilidade pessoal.

 

Mudança verdadeira exige tempo, consciência, tratamento e disposição para reconhecer aquilo que precisa ser transformado. E, para nós, cristãos, exige também compreender corretamente a diferença entre culpa, responsabilidade, graça e esperança.

 

UM DIAGNÓSTICO NÃO É UMA SENTENÇA

 

Uma das primeiras coisas que precisamos dizer é esta: uma pessoa não é o seu diagnóstico. Ela pode apresentar um transtorno de personalidade. Mas ela não se resume ao transtorno. Existe uma história. Existem vínculos. Existe sofrimento. Existem recursos internos. Existem limitações. Existem experiências que ajudaram a construir determinados padrões. E existem possibilidades de desenvolvimento.

 

Quando colocamos um rótulo sobre alguém e passamos a enxergar tudo através dele, deixamos de perceber a pessoa. É por isso que expressões como: "Ele é um histriônico." "Ela é assim mesmo." "Não tem jeito." precisam ser evitadas.

 

Não apenas porque são clinicamente inadequadas, mas porque também podem produzir desesperança. O diagnóstico deve ajudar a compreender. Não deve servir para aprisionar.

 

MAS MUDANÇA NÃO SIGNIFICA AUSÊNCIA DE RESPONSABILIDADE

 

Existe outro extremo igualmente perigoso. Às vezes, quando compreendemos que determinados comportamentos estão relacionados a dificuldades psicológicas, começamos a pensar: "Então a pessoa não tem responsabilidade." Isso também é um erro. Uma explicação não é uma absolvição. Compreender por que alguém reage de determinada maneira pode nos ajudar a lidar melhor com ela. Mas não significa que qualquer comportamento deva ser aceito.

 

Uma pessoa pode ter dificuldades profundas de autoestima e ainda precisar aprender a respeitar os limites dos outros. Pode ter medo de rejeição e ainda precisar aprender a não controlar o parceiro. Pode sofrer quando não recebe atenção e ainda precisar aprender formas mais saudáveis de comunicar suas necessidades.

 

Pode ter desenvolvido determinados padrões ao longo da vida e ainda assim precisar assumir responsabilidade pelo impacto que esses padrões produzem. Sofrimento explica muitas coisas. Mas sofrimento não transforma automaticamente todo comportamento em algo aceitável.

 

O PRIMEIRO PASSO PODE SER RECONHECER O PADRÃO

 

Mudança começa quando aquilo que antes parecia simplesmente "o meu jeito" começa a ser percebido como um padrão. Talvez a pessoa perceba: "Eu preciso constantemente que as pessoas confirmem que gostam de mim." "Quando alguém se afasta, fico desesperado." "Interpreto facilmente a falta de atenção como rejeição." "Tenho dificuldade quando não sou o centro das atenções." "Minha autoestima muda muito dependendo da reação das pessoas." "Meus relacionamentos começam intensamente e depois se tornam difíceis." "Quando sinto que estou perdendo alguém, faço coisas que depois me arrependo."

 

Essa percepção pode ser dolorosa. Mas também pode ser libertadora.

Porque aquilo que conseguimos observar pode começar a ser questionado. E aquilo que pode ser questionado pode, com ajuda adequada, começar a ser transformado.

 

O QUE A PSICOTERAPIA PODE FAZER?

 

O tratamento psicoterápico não consiste simplesmente em ensinar alguém a "parar de chamar atenção". Isso seria tratar apenas a superfície. O trabalho clínico precisa alcançar os padrões emocionais, cognitivos e relacionais que sustentam determinados comportamentos. Como a pessoa interpreta a rejeição? Como construiu sua autoestima? Como reage à frustração? Como estabelece vínculos? Como lida com limites? Como interpreta a atenção do outro? Como compreende a própria identidade? Como comunica suas necessidades? Como reage quando não recebe aquilo que deseja?

 

Essas perguntas são muito mais importantes do que simplesmente perguntar: "Como faço para essa pessoa parar de fazer drama?" A psicoterapia pode oferecer um espaço no qual esses padrões sejam observados sem que a pessoa precise ser reduzida a eles.

 

NÃO EXISTE MUDANÇA SEM AUTOCONHECIMENTO

 

Uma pessoa pode passar anos tentando mudar comportamentos sem compreender aquilo que os sustenta. Pode decidir: "Não vou mais fazer isso." "Não vou mais perguntar se ele me ama." "Não vou mais ficar com ciúmes." "Não vou mais precisar de atenção."

 

Mas, se a necessidade emocional permanece sem ser compreendida, o comportamento pode simplesmente reaparecer de outra forma. Por isso, mudança não é apenas controlar manifestações externas. É compreender o que acontece internamente.

 

O que eu sinto? O que interpretei? O que temi? O que precisei naquele momento? Como tentei conseguir isso? O que aconteceu depois?

 

Esse processo permite que a pessoa comece a criar uma distância entre emoção e comportamento. Eu posso sentir insegurança sem precisar imediatamente agir sobre ela. Posso sentir medo sem transformar esse medo em acusação. Posso desejar atenção sem exigir que o outro abandone sua própria vida. Posso sentir rejeição sem concluir automaticamente que não tenho valor. Essa diferença é fundamental.

 

SENTIR NÃO É O MESMO QUE AGIR

 

Uma das experiências mais importantes no amadurecimento emocional é descobrir que podemos sentir algo intensamente sem precisar transformar imediatamente esse sentimento em comportamento. Posso sentir ciúme. Isso não significa que preciso controlar. Posso sentir medo. Isso não significa que preciso acusar. Posso sentir insegurança. Isso não significa que preciso exigir confirmação. Posso sentir tristeza. Isso não significa que preciso provocar uma crise. Posso desejar atenção. Isso não significa que o outro seja obrigado a oferecê-la naquele momento.

 

A emoção merece ser compreendida. O comportamento precisa ser responsabilizado. Essa distinção pode parecer simples. Na prática, pode representar uma mudança profunda.

 

O PAPEL DOS LIMITES

 

Se a pessoa precisa aprender a regular melhor suas emoções, quem convive com ela também precisa aprender a estabelecer limites. E isso não é crueldade. É saúde relacional. Imagine um parceiro que passa a responder a toda crise com horas de explicações, garantias e pedidos de desculpas. Ele acredita estar ajudando. Mas pode acabar reforçando um padrão: crise → atenção intensa → alívio.

 

Quando isso acontece repetidamente, o relacionamento pode se tornar dependente da crise para produzir proximidade. Por isso, limites podem ser necessários. Não como punição. Não como vingança. Mas como uma maneira de interromper ciclos prejudiciais. Um limite saudável pode dizer: "Eu quero conversar, mas não enquanto estivermos nos atacando." "Eu entendo que você está inseguro, mas não posso provar meu amor o tempo inteiro." "Eu me importo com você, mas preciso respeitar também os meus limites." "Podemos continuar essa conversa quando estivermos mais tranquilos." Limite não é abandono. Limite é uma forma de organizar a relação.

 

NÃO CONFUNDA LIMITE COM FRIEZA

 

Existe uma diferença entre estabelecer limites e tornar-se emocionalmente indiferente. "Não vou mais me importar com você." "Faça o que quiser." "Se vire sozinho." Isso não é necessariamente limite. Pode ser apenas afastamento defensivo.

 

Um limite saudável mantém duas coisas simultaneamente: a dignidade do outro e a própria dignidade. É possível dizer: "Eu me importo com você." e, ao mesmo tempo: "Não vou aceitar esse comportamento." É possível dizer: "Quero ajudá-lo." e também: "Não posso assumir a responsabilidade pela sua estabilidade emocional." Essa combinação é difícil. Mas é muito mais madura do que a permissividade ou a rejeição.

 

E QUANDO A PESSOA NÃO QUER MUDAR?

 

Essa é uma das perguntas mais difíceis para quem convive com alguém que apresenta padrões problemáticos. "Como faço para mudar essa pessoa?" A resposta pode ser frustrante: você não pode mudar outra pessoa. Você pode conversar. Pode estabelecer limites. Pode oferecer apoio. Pode incentivar tratamento. Pode mostrar as consequências dos comportamentos. Pode procurar ajuda para si mesmo. Mas não pode realizar o processo interno no lugar do outro.

 

Isso precisa ser dito especialmente às famílias. Você pode amar alguém profundamente e ainda assim não conseguir fazê-lo mudar. Porque mudança não acontece apenas quando alguém sofre as consequências. Ela exige algum grau de reconhecimento e participação da própria pessoa.

 

QUANDO A FAMÍLIA TAMBÉM PRECISA DE AJUDA

 

Às vezes, o transtorno não afeta apenas quem recebeu o diagnóstico.

A família inteira pode entrar em um padrão. Todos aprendem a evitar determinados assuntos. Todos tentam impedir crises. Todos passam a escolher cuidadosamente as palavras. Todos tentam manter aquela pessoa emocionalmente estável. E, sem perceber, a família inteira passa a funcionar em torno do transtorno.

 

Nesse momento, também pode ser necessário cuidado profissional para os familiares. Não para aprenderem a "controlar" a pessoa. Mas para compreenderem: o que é responsabilidade deles e o que não é. Essa distinção pode trazer enorme alívio.

 

NÃO É SUA FUNÇÃO SER O TERAPEUTA

 

Para quem convive com alguém que apresenta sofrimento psicológico, existe uma tentação: "Eu vou ajudá-lo a entender." "Vou explicar tudo." "Vou fazer com que ele perceba." "Vou mostrar todos os comportamentos." "Vou resolver isso." Mas relacionamento não é consultório. O parceiro não é terapeuta. O filho não é terapeuta. O amigo não é terapeuta. O líder religioso não é terapeuta.

 

Cada um pode exercer uma função de cuidado. Mas ninguém deve assumir sozinho uma responsabilidade clínica que não lhe pertence. Cuidar também significa saber quando encaminhar.

 

E O PAPEL DO ACONSELHAMENTO PASTORAL?

 

Aqui existe um espaço precioso, mas que precisa ser ocupado com responsabilidade. O aconselhamento pastoral pode ajudar a pessoa a refletir sobre sua história, seus relacionamentos, suas escolhas, seus valores, sua responsabilidade e sua relação com Deus.

 

Pode oferecer escuta. Pode oferecer acolhimento. Pode ajudar a pessoa a perceber padrões. Pode acompanhar processos de sofrimento. Pode caminhar junto com a pessoa durante períodos difíceis. Mas o aconselhamento pastoral não deve substituir o tratamento psicológico ou psiquiátrico quando estes são necessários. E existe outro erro que precisamos evitar: reduzir o transtorno a uma questão espiritual.

 

Dizer: "Você precisa simplesmente ter mais fé." "Ore mais." "Confie em Deus." pode até parecer espiritual. Mas, diante de um transtorno de personalidade, pode ser profundamente insuficiente. A fé não deve ser utilizada para negar a complexidade do sofrimento humano.

 

MAS TAMBÉM NÃO DEVEMOS EXPULSAR A FÉ DO CUIDADO

 

O erro oposto também precisa ser evitado. Ao reconhecermos a importância da psicoterapia, não precisamos eliminar a dimensão espiritual. A pessoa não deixa de ser espiritual porque possui dificuldades psicológicas. Para o cristão, a vida emocional também acontece diante de Deus. Isso significa que podemos trabalhar clinicamente questões de autoestima, vínculos, emoções e comportamentos sem abandonar a pergunta: Quem sou eu diante de Deus?

 

Essa pergunta é especialmente importante quando a identidade depende excessivamente da aprovação humana.

 

A IDENTIDADE NÃO PODE DEPENDER DO APLAUSO

 

Existe uma necessidade humana de pertencimento. Precisamos ser vistos. Precisamos ser reconhecidos. Precisamos experimentar vínculos. Mas existe uma diferença entre desejar ser amado e precisar constantemente ser confirmado para sentir que temos valor. O evangelho apresenta uma identidade que não depende do desempenho social.

 

Não precisamos ser os mais admirados. Não precisamos ser o centro. Não precisamos conquistar permanentemente a aprovação de todos. Não precisamos transformar cada relacionamento em uma prova do nosso valor. Em Cristo, nossa identidade não começa no aplauso das pessoas. Ela começa na graça. Isso não elimina nossas necessidades emocionais. Mas pode mudar a maneira como lidamos com elas.

 

GRAÇA NÃO É AUSÊNCIA DE RESPONSABILIDADE

 

Aqui está uma distinção fundamental para uma abordagem cristã madura. A graça não significa: "Eu sou assim e ninguém pode esperar nada diferente de mim." A graça também não significa: "Como Deus me perdoa, minhas atitudes não importam." Pelo contrário. A graça permite reconhecer a verdade sem precisar esconder-se dela.

 

Posso dizer: "Esse comportamento está machucando pessoas." sem concluir: "Portanto, eu sou uma pessoa sem valor." Posso assumir: "Preciso mudar." sem concluir: "Não existe esperança para mim." Essa diferença é fundamental. Condenação paralisa. Responsabilidade movimenta.

 

ESPERANÇA NÃO É PROMESSA DE CURA INSTANTÂNEA

 

Precisamos ser responsáveis também com a palavra "esperança". Esperança não significa prometer: "Depois da terapia você nunca mais terá insegurança." "Depois de conhecer Jesus você nunca mais precisará de aprovação." "Depois de entender seu transtorno, tudo ficará bem." Isso seria irresponsável.

 

Mudanças em padrões de personalidade podem ser graduais. Podem existir avanços e retrocessos. Podem existir períodos de maior estabilidade e momentos de dificuldade. O processo pode exigir paciência. Por isso, esperança não é negar a dificuldade. Esperança é acreditar que a dificuldade não precisa determinar todo o futuro.

 

MUDANÇA PODE COMEÇAR PEQUENA

 

Às vezes esperamos uma transformação gigantesca. Mas o amadurecimento pode começar em pequenas experiências. Hoje, em vez de exigir: "Você ainda me ama?" a pessoa consegue dizer: "Estou me sentindo inseguro e preciso conversar." Hoje, em vez de provocar uma crise, consegue esperar alguns minutos. Hoje, em vez de interpretar o silêncio como rejeição, consegue perguntar: "Aconteceu alguma coisa?"

 

Hoje, em vez de controlar o parceiro, consegue respeitar o espaço dele. Hoje, em vez de responder impulsivamente, consegue observar a própria emoção. Essas mudanças podem parecer pequenas. Mas não são. Elas representam o desenvolvimento de novas maneiras de lidar com aquilo que antes produzia sofrimento.

 

A MUDANÇA TAMBÉM ENVOLVE O RELACIONAMENTO

 

Não basta perguntar: "Como faço para essa pessoa mudar?" Também precisamos perguntar: "Como estamos funcionando juntos?" Porque relacionamentos criam padrões. Uma pessoa exige. A outra cede. A primeira se acalma. Depois exige novamente. Ou: Uma pessoa se afasta. A outra aumenta a intensidade. A primeira se afasta ainda mais. E o ciclo continua.

 

Por isso, algumas vezes, mudar significa alterar a dinâmica relacional. Uma pessoa aprende a pedir de maneira mais direta. A outra aprende a estabelecer limites. Uma aprende a tolerar frustração. A outra aprende a não reforçar comportamentos destrutivos. Ambas aprendem a conversar de maneira diferente.

 

QUANDO É NECESSÁRIO SE AFASTAR

 

Precisamos dizer algo que nem sempre é confortável. Nem todo relacionamento precisa ser preservado a qualquer custo. Se existe abuso persistente, violência, humilhação, coerção ou risco, a prioridade deve ser a segurança. Ter um transtorno de personalidade não dá a ninguém licença para abusar.

 

E amar alguém não significa permanecer em uma situação destrutiva.

Às vezes, o limite necessário pode ser o afastamento. Isso não significa necessariamente falta de compaixão. Pode significar reconhecimento da realidade. Perdão cristão não significa ausência de limites. Graça não significa permanecer disponível para ser destruído. Amor não significa aceitar violência.

 

NÃO USE O DIAGNÓSTICO COMO ARMA

 

Existe um fenômeno perigoso nas redes sociais. Depois de aprender sobre um transtorno, algumas pessoas começam a enxergar todos os comportamentos difíceis de alguém como evidência daquele diagnóstico. "Ele faz isso, então é histriônico." "Ela precisa de atenção, então tem TPH." "Meu ex era exatamente assim." Isso pode gerar injustiça.

 

Diagnósticos exigem avaliação profissional. Além disso, pessoas diferentes podem apresentar comportamentos semelhantes por razões completamente diferentes. Por isso, o conhecimento precisa produzir mais prudência, não mais arrogância. Aprender psicologia não nos transforma em diagnosticadores. Transforma-nos, quando bem utilizada, em pessoas mais capazes de compreender.

 

O QUE PODEMOS FAZER, ENTÃO?

 

Se você reconhece esses padrões em alguém próximo: Observe sem rotular. Escute sem assumir a função de terapeuta. Estabeleça limites claros. Não reforce sistematicamente comportamentos destrutivos. Incentive a busca de ajuda profissional. Cuide também da sua própria saúde emocional. Não aceite abuso.

 

E, se você reconhece esses padrões em si mesmo: Não se condene.

Não se esconda atrás do diagnóstico. Procure compreender sua história. Assuma responsabilidade pelos seus comportamentos. Busque tratamento. Aprenda novas formas de se relacionar. Tenha paciência com o processo.

 

TALVEZ A PERGUNTA PRECISE MUDAR

 

Em vez de perguntar: "Eu consigo deixar de ser assim?" talvez seja melhor perguntar: "Que maneira mais saudável de viver eu posso aprender?" Essa pergunta é diferente. Porque não exige que a pessoa se transforme em outra pessoa. Exige que ela desenvolva novas possibilidades. Aprenda a tolerar frustrações. Aprenda a respeitar limites. Aprenda a comunicar necessidades.

 

Aprenda a suportar diferenças. Aprenda a lidar com a rejeição. Aprenda a construir autoestima menos dependente da aprovação externa. Aprenda a estabelecer relações mais recíprocas. Isso é amadurecimento.

 

MUDAR NÃO É DEIXAR DE PRECISAR DOS OUTROS

 

Existe um erro que precisamos evitar. Maturidade emocional não significa: "Eu não preciso de ninguém." Isso não é maturidade. É isolamento. Somos seres relacionais. Precisamos de pessoas. Precisamos de amizade. Precisamos de amor. Precisamos de comunidade. Precisamos de cuidado.

 

A questão não é eliminar a necessidade do outro. É aprender a não transformar o outro em única fonte de identidade, segurança e valor. Precisamos uns dos outros. Mas não precisamos possuir uns aos outros.

 

E TALVEZ A ESPERANÇA ESTEJA JUSTAMENTE AÍ

 

A pessoa não precisa deixar de sentir para amadurecer. Precisa aprender a compreender o que sente. Não precisa deixar de desejar atenção. Precisa aprender a pedir atenção de maneira saudável. Não precisa deixar de desejar amor. Precisa aprender que amor não é controle.

 

Não precisa deixar de sofrer com rejeição. Precisa aprender que rejeição não define seu valor. Não precisa deixar de precisar das pessoas. Precisa aprender a relacionar-se sem transformar necessidade em dependência. Esse é um caminho. E caminhos exigem tempo.

 

PARA NÓS, CRISTÃOS

 

Existe uma verdade que não podemos perder no meio de todas essas discussões: Cristo não veio apenas para melhorar nosso comportamento exterior. Ele nos chama para uma vida transformada. Mas essa transformação não deve ser utilizada como argumento para negar a realidade psicológica. A santificação não transforma o cristão em alguém emocionalmente imune. O cristão continua tendo uma história. Continua tendo vulnerabilidades. Continua precisando aprender. Continua podendo necessitar de psicoterapia. Continua precisando amadurecer emocionalmente.

 

A fé não elimina o processo. A fé nos dá um horizonte dentro do processo. Podemos reconhecer nossas limitações sem perder a esperança. Podemos buscar tratamento sem sentir que estamos abandonando a fé. Podemos estabelecer limites sem deixar de amar. Podemos assumir responsabilidade sem viver sob condenação. Podemos cair e continuar caminhando.

 

É POSSÍVEL MUDAR?

 

Sim. Mas precisamos definir o que estamos chamando de mudança.

Não significa transformar uma pessoa em alguém que nunca mais sentirá insegurança. Não significa eliminar todas as necessidades de atenção. Não significa construir uma personalidade completamente diferente. Significa desenvolver maneiras mais saudáveis de lidar com emoções, relacionamentos, frustrações, limites e necessidades.

 

Significa que aquilo que antes acontecia automaticamente pode começar a ser percebido. Aquilo que era impulsivo pode começar a ser pensado. Aquilo que era exigência pode tornar-se pedido. Aquilo que era controle pode tornar-se diálogo. Aquilo que era dependência pode tornar-se vínculo. Aquilo que era medo pode tornar-se vulnerabilidade. Aquilo que era repetição pode começar a tornar-se escolha. Isso é mudança.

 

UMA PALAVRA PARA QUEM ESTÁ LUTANDO

 

Se você se reconheceu nesta série, quero deixar uma palavra especialmente para você: Não transforme o diagnóstico em identidade. Você não é apenas aquilo que precisa mudar. Existe sofrimento, mas também existe possibilidade. Existe responsabilidade, mas também existe graça. Existe dificuldade, mas também existe caminho.

 

Talvez você tenha repetido os mesmos padrões durante muitos anos.

Isso não significa que precise repeti-los para sempre. Procure ajuda.

Converse com um profissional qualificado. Reconheça aquilo que precisa ser trabalhado. Aprenda a suportar o desconforto de mudar. E não tenha pressa para parecer diferente. Aprenda a ser diferente.

 

UMA PALAVRA PARA QUEM CONVIVE

 

E se você está do outro lado, lembre-se: Você não precisa salvar alguém. Você não precisa ser terapeuta. Você não precisa aceitar tudo. Você não precisa viver andando sobre ovos. Você pode amar e colocar limites. Pode compreender e dizer não. Pode oferecer apoio e reconhecer seus próprios limites. Pode incentivar tratamento sem carregar o tratamento nas costas. E pode procurar ajuda para você também. Cuidar do outro não significa abandonar a si mesmo.

 

A ESPERANÇA NÃO ESTÁ NA PERFEIÇÃO

 

Talvez nunca exista um relacionamento completamente livre de insegurança. Talvez todos nós, em algum nível, ainda desejemos aprovação. Talvez todos nós tenhamos momentos de medo, ciúme, necessidade e vulnerabilidade. A maturidade não é chegar ao ponto em que nunca mais sentimos nada disso. É aprender a responder de maneira diferente. É conseguir parar. Pensar. Sentir. Conversar. Escolher. Pedir perdão. Recomeçar. E continuar crescendo.

 

PARA GUARDAR

 

Você não é o seu diagnóstico. Seu sofrimento merece cuidado. Seus comportamentos continuam sendo sua responsabilidade. Seus limites merecem respeito. Os outros não são responsáveis pela sua autoestima. Você não precisa enfrentar tudo sozinho. Buscar ajuda não é sinal de fraqueza. E mudança não precisa acontecer de uma vez para começar a acontecer.

 

UMA ÚLTIMA REFLEXÃO

 

Talvez a pergunta mais importante não seja: "É possível mudar?" Talvez seja: "Estou disposto a reconhecer aquilo que precisa mudar?" Porque esperança sem responsabilidade vira fantasia. Responsabilidade sem graça vira condenação. Graça sem transformação vira acomodação. Mas quando verdade, responsabilidade, graça e esperança caminham juntas, existe espaço para amadurecimento.

 

É isso que queremos defender nesta série. Não uma psicologia que reduz a pessoa ao diagnóstico. Não uma espiritualidade que reduz o sofrimento a falta de fé. Não uma permissividade que chama tudo de doença. E não uma condenação que transforma pessoas feridas em pessoas sem esperança. Queremos um caminho mais responsável. Compreender. Cuidar. Tratar. Estabelecer limites. Assumir responsabilidade. E continuar acreditando que mudanças são possíveis.

 

AMANHÃ: O ÚLTIMO DIA

 

Chegamos ao penúltimo dia. No próximo conteúdo, vamos fechar esta série olhando para uma questão que atravessa tudo o que discutimos:

COMO CONVIVER COM O TRANSTORNO DE PERSONALIDADE HISTRIÔNICA?

 

Vamos reunir os principais aprendizados da série e falar sobre o que fazer na prática, como estabelecer limites, quando procurar ajuda e como cuidar de si sem abandonar a compaixão pelo outro. Porque compreender é importante. Mas aprender a viver e cuidar diante da realidade também é.


Seguindo Seus Passos

Teologia • Psicanálise • Neurociências • Aconselhamento Pastoral

 

Por: Carlos Henrique Müller Filho – Teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista, especialista em neurociências na pratica clínica e neuropsicanálise.

 

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