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É POSSÍVEL MUDAR?

  • há 12 minutos
  • 11 min de leitura

É POSSÍVEL MUDAR?

 

Autonomia, tratamento, limites e esperança

 

Mudar não significa tornar-se alguém que não precisa de ninguém. Significa aprender a precisar sem perder a própria identidade.

Existe uma pergunta que costuma aparecer quando falamos sobre transtornos da personalidade: É possível mudar? Para algumas pessoas, essa pergunta nasce da esperança. Para outras, nasce do cansaço. Há quem esteja sofrendo porque percebe que sempre precisa da aprovação de alguém para decidir, dizer não, enfrentar conflitos ou permanecer sozinho. Há também familiares, parceiros e amigos que não sabem mais como ajudar sem assumir responsabilidades que não deveriam carregar.

 

No caso do Transtorno de Personalidade Dependente, essa pergunta é especialmente importante porque o objetivo do tratamento não deveria ser transformar uma pessoa que valoriza vínculos em alguém que não precisa de ninguém. O objetivo é diferente. É ajudá-la a construir uma relação mais livre com a própria capacidade de pensar, escolher, discordar, estabelecer limites e permanecer vinculada aos outros sem desaparecer dentro deles.

 

A literatura sobre tratamento especificamente direcionado ao Transtorno de Personalidade Dependente ainda é relativamente limitada quando comparada a outros transtornos da personalidade. Revisões recentes destacam que há menos estudos de resultados para transtornos do Cluster C, o que exige cautela ao fazer afirmações sobre qual abordagem psicoterapêutica seria superior. Isso não significa que não exista possibilidade de mudança. Significa que precisamos falar sobre essa possibilidade com esperança e responsabilidade científica.

 

MUDAR NÃO É APRENDER A NÃO PRECISAR DE NINGUÉM

 

Existe um erro comum quando falamos sobre autonomia. Algumas pessoas imaginam que ser autônomo significa não pedir ajuda, não depender de ninguém e resolver tudo sozinho. Isso não é maturidade. É isolamento. O ser humano é relacional. Precisamos de outras pessoas em diferentes momentos da vida. Precisamos aprender, receber cuidado, dividir responsabilidades, ouvir conselhos e construir vínculos. A questão não é eliminar a dependência humana.

 

A questão é desenvolver uma dependência mais saudável, consciente e flexível. Uma pessoa pode dizer: “Eu preciso de ajuda.” Sem precisar concluir: “Por isso, não sou capaz.” Pode dizer: “Quero ouvir sua opinião.” Sem concluir: “Então você precisa decidir por mim.” Pode dizer: “Tenho medo.” Sem concluir: “Por isso, preciso abandonar meus limites.” A mudança começa quando a pessoa consegue diferenciar precisar de entregar ao outro a responsabilidade pela própria existência.

 

O PRIMEIRO PASSO É RECONHECER O PADRÃO

 

Muitas vezes, a dependência permanece porque determinados comportamentos produzem alívio imediato. A pessoa está diante de uma decisão. Sente insegurança. Pede que alguém decida. Recebe uma resposta. Sente alívio. O problema é que esse alívio pode reduzir a oportunidade de experimentar que também seria capaz de pensar, escolher e lidar com as consequências.

 

Assim, pode surgir um ciclo: insegurança → busca de alguém → decisão pelo outro → alívio → pouca experiência de autonomia → menor confiança → nova insegurança. Isso não significa que pedir ajuda seja errado. Significa que precisamos observar o que acontece depois da ajuda. Ela fortaleceu a pessoa? Ou tornou a pessoa ainda mais convencida de que não consegue agir sem alguém?

 

A literatura sobre dependência mostra justamente que o funcionamento dependente é mais complexo do que a imagem de uma pessoa simplesmente passiva. A dependência pode envolver busca ativa de apoio, sensibilidade às relações e diferentes formas de adaptação. Por isso, o tratamento precisa olhar para a pessoa inteira, e não apenas para um comportamento isolado.

 

PSICOTERAPIA: APRENDER A CAMINHAR SEM SER ABANDONADO

 

A psicoterapia pode oferecer um espaço fundamental para que a pessoa compreenda seus padrões relacionais e desenvolva novas formas de lidar com insegurança, decisões, conflitos e vínculos. Mas existe uma questão particularmente importante no tratamento da dependência: o próprio relacionamento terapêutico pode se tornar um lugar onde a dependência aparece.

 

A pessoa pode idealizar o terapeuta. Pode esperar respostas para todas as decisões. Pode buscar aprovação constante. Pode sentir medo de discordar. Pode interpretar qualquer limite terapêutico como rejeição. Por isso, o terapeuta precisa acolher sem infantilizar. Precisa oferecer suporte sem transformar o paciente em alguém incapaz de pensar. Precisa construir uma relação suficientemente segura para que a pessoa possa, progressivamente, desenvolver maior capacidade de autorregulação e autonomia.

 

Modelos integrativos de tratamento para pacientes com funcionamento dependente enfatizam justamente a compreensão da história da dependência, dos padrões relacionais e das crenças disfuncionais, combinando recursos psicodinâmicos, cognitivos, comportamentais e experienciais. Estudos específicos também sugerem que a interação entre paciente e terapeuta pode ter importância significativa no processo psicoterapêutico do Transtorno de Personalidade Dependente. Isso nos ensina algo fundamental: o tratamento não deve simplesmente substituir uma dependência por outra.

 

O objetivo não é trocar: “Eu não consigo sem meu parceiro” por: “Eu não consigo sem meu terapeuta.” O objetivo é ampliar a capacidade de a pessoa existir, pensar e escolher com maior liberdade.

 

AUTONOMIA NÃO NASCE DE UMA VEZ

 

Uma pessoa que passou anos evitando decisões pode sentir ansiedade quando começa a decidir. Isso não significa necessariamente que esteja fazendo algo errado. Pode significar que está entrando em um território pouco conhecido. Imagine alguém que sempre pergunta: “Você acha que devo fazer isso?”

 

O primeiro passo pode ser: “Eu quero ouvir sua opinião, mas primeiro vou pensar no que eu mesmo considero melhor.” Depois: “Eu vou decidir e depois conversamos.” Mais adiante: “Eu consigo tomar essa decisão sozinho.”

 

A mudança pode acontecer em pequenas experiências repetidas. Escolher uma roupa. Resolver uma questão prática. Expressar uma opinião diferente. Dizer “não”. Tolerar que alguém fique desapontado. Aceitar que uma decisão não produza o resultado esperado. Pedir ajuda sem entregar a responsabilidade. Aprender a permanecer sozinho durante algum tempo sem interpretar a solidão como abandono. São experiências aparentemente pequenas. Mas podem representar grandes movimentos psicológicos.

 

E SE EU ERRAR?

 

Talvez uma das maiores barreiras à autonomia seja a dificuldade de tolerar o erro. Quando a pessoa acredita que errar significa ser incapaz, ela buscará alguém que possa garantir que sua decisão está correta. Mas nenhuma pessoa consegue oferecer essa garantia. Nem mesmo um terapeuta. Nem um cônjuge. Nem um amigo. Nem um líder religioso. A vida envolve incerteza.

 

Por isso, parte do processo de amadurecimento consiste em aprender:

“Eu posso tomar uma decisão imperfeita e continuar sendo uma pessoa digna.” “Eu posso errar e aprender.” “Eu posso me arrepender sem concluir que sou incapaz.” “Eu posso ouvir conselhos sem entregar a outra pessoa a responsabilidade pela minha escolha.”

 

A autonomia não significa tomar sempre a decisão certa. Significa desenvolver maior capacidade de participar conscientemente das próprias decisões.

 

O PAPEL DA NEUROCIÊNCIA: O QUE FOI APRENDIDO PODE SER REAPRENDIDO

 

As Neurociências nos ajudam a compreender que comportamentos repetidos não são simplesmente escolhas isoladas. Experiências repetidas participam dos processos de aprendizagem, regulação emocional, tomada de decisão e formação de padrões de resposta. Isso não significa dizer que exista um “cérebro dependente” ou uma região cerebral responsável pelo Transtorno de Personalidade Dependente.

Seria uma simplificação indevida. Significa reconhecer que padrões comportamentais podem ser fortalecidos pela repetição e que novas experiências podem favorecer novas formas de responder.

 

A pessoa que sempre evitou decisões pode aprender gradualmente a decidir. A pessoa que sempre buscou confirmação pode aprender a tolerar alguma incerteza. A pessoa que sempre confundiu discordância com abandono pode experimentar relações nas quais seja possível discordar sem perder o vínculo. A pessoa que sempre interpretou limites como rejeição pode descobrir que limites também podem proteger relacionamentos.

 

A mudança não acontece porque o cérebro simplesmente “se reorganiza” depois de uma decisão. Ela acontece por meio de processos complexos de aprendizagem, experiência, emoção, comportamento e contexto. Por isso, neuroplasticidade não deve ser usada como promessa fácil de transformação. Ela nos oferece uma possibilidade científica de compreender que o funcionamento humano não é uma fotografia imóvel.

 

A PSICANÁLISE PERGUNTA: O QUE A DEPENDÊNCIA ESTÁ TENTANDO PRESERVAR?

 

A Psicanálise acrescenta uma pergunta que não deveria ser ignorada: O que essa dependência está tentando proteger? Talvez exista medo de abandono. Talvez exista uma história na qual discordar significava perder amor. Talvez a pessoa tenha aprendido que ser aceita dependia de agradar. Talvez tenha desenvolvido uma imagem de si mesma como fraca, incapaz ou inadequada. Talvez a submissão tenha sido, durante algum período da vida, uma maneira possível de preservar um vínculo importante.

 

Compreender essas dimensões não significa justificar comportamentos prejudiciais. Compreender não é absolver. Mas sem compreender o significado subjetivo do comportamento, corremos o risco de tentar retirar a dependência sem oferecer outra maneira de lidar com aquilo que ela estava tentando resolver. A mudança profunda não consiste apenas em dizer: “Pare de depender.” Consiste em ajudar a pessoa a descobrir: “O que eu temo que aconteça se eu começar a depender menos?”

 

E A AUTOESTIMA?

 

É comum dizer que pessoas dependentes precisam simplesmente “aumentar a autoestima”. A questão é mais complexa. Não basta repetir: “Você é forte.” Se a pessoa não possui experiências concretas nas quais possa perceber sua própria capacidade, a frase pode produzir pouco efeito. A autoeficácia — a percepção de capacidade para realizar determinadas ações — também se constrói através da experiência. Por isso, o tratamento pode envolver situações nas quais a pessoa consiga experimentar: “Eu consegui.” Depois: “Eu consegui mesmo sentindo medo.” E finalmente: “Eu consigo pedir ajuda sem deixar de participar da decisão.”

 

Essa diferença é fundamental. A meta não é produzir uma pessoa que nunca precise de ninguém. É produzir uma pessoa que possa precisar de alguém sem concluir que, por isso, deixou de ser capaz.

 

A FAMÍLIA TAMBÉM PRECISA APRENDER A AJUDAR

 

A mudança não depende apenas da pessoa em tratamento. Às vezes, familiares e parceiros reforçam a dependência sem perceber. “Deixa que eu faço.” “Não precisa decidir.” “Eu sei o que é melhor para você.” “Você não consegue resolver isso sozinho.”

 

Essas frases podem nascer do amor. Mas, quando se tornam padrão, podem transmitir uma mensagem perigosa: “Você realmente não é capaz.” O cuidado mais saudável pode assumir outra forma: “Vamos pensar juntos.” “O que você acha?” “Quais são suas opções?” “Qual decisão parece mais coerente com aquilo que você deseja?” “Se der errado, podemos conversar sobre o que você aprendeu.” Isso é cuidado que não abandona. Mas também não aprisiona.

 

E A IGREJA?

 

A igreja possui uma oportunidade singular de oferecer comunidade, acolhimento, oração, cuidado e pertencimento. Mas também precisa reconhecer que espiritualidade não deve ser utilizada para produzir dependência humana. Um aconselhamento pastoral inadequado pode, sem intenção, criar uma relação na qual a pessoa espera que alguém sempre diga o que Deus quer que ela faça. “Pastor, o que devo decidir?” “Pastor, devo terminar esse relacionamento?” “Pastor, qual escolha Deus quer que eu faça?”

 

O aconselhamento pastoral pode acompanhar a pessoa na reflexão sobre a Palavra, sua consciência, suas responsabilidades e suas escolhas. Mas não deveria substituir a consciência da pessoa. No contexto cristão, depender de Deus não significa tornar outra pessoa a autoridade absoluta sobre cada decisão da própria vida. Graça não elimina responsabilidade. Cuidado não elimina autonomia. Comunidade não elimina individualidade.

 

E aconselhamento pastoral não deveria criar pessoas incapazes de caminhar sem o conselheiro. A igreja deve ser lugar de acolhimento, mas também de amadurecimento.

 

LIMITES TAMBÉM FAZEM PARTE DO AMOR

 

Para algumas pessoas, estabelecer limites pode parecer uma forma de rejeição. Mas limite não é necessariamente abandono. Dizer: “Não posso fazer isso.” “Não concordo.” “Preciso pensar.” “Essa forma de tratamento não é aceitável para mim.” “Eu preciso de um tempo.”

pode ser uma expressão de maturidade relacional.

 

Relacionamentos saudáveis não são aqueles nos quais ninguém nunca se frustra. São aqueles nos quais existe espaço para diferenças, limites, reparação e responsabilidade. A pessoa dependente precisa aprender que pode sobreviver emocionalmente ao fato de alguém ficar desapontado com ela. Essa aprendizagem pode ser difícil. Mas é extremamente importante.

 

TRATAMENTO NÃO É FRAQUEZA

 

Buscar psicoterapia não significa admitir que a pessoa fracassou. Significa reconhecer que alguns padrões estão produzindo sofrimento suficiente para justificar ajuda profissional. E, quando houver outras condições associadas — como ansiedade, depressão ou outros problemas clínicos — pode haver necessidade de avaliação médica e/ou psiquiátrica.

 

Medicamentos não são tratamento específico para “curar” o Transtorno de Personalidade Dependente, embora possam ser utilizados por profissionais para sintomas ou condições associadas quando houver indicação clínica. A APA também ressalta que transtornos da personalidade podem exigir, em alguns casos, uma abordagem multiprofissional.

 

O DSM-5-TR é um manual diagnóstico, não um manual de tratamento; suas categorias e critérios devem ser utilizados por profissionais treinados, com julgamento clínico. Também é importante lembrar que a CID-11 adotou uma estrutura dimensional para os transtornos da personalidade, com classificação por gravidade e domínios de traços predominantes, não reproduzindo simplesmente a categoria independente de Transtorno de Personalidade Dependente do DSM-5-TR.

 

EXISTE ESPERANÇA, MAS NÃO EXISTE MÁGICA

 

Uma revisão de 2019, reunindo 31 estudos e 3.807 participantes, encontrou resultados diferentes conforme o tipo de tratamento e o contexto clínico, mostrando que a relação entre dependência interpessoal e resultado terapêutico é complexa e não pode ser reduzida a uma única conclusão.

 

Outro estudo de seguimento sobre psicoterapia em transtornos do Cluster C encontrou manutenção de ganhos após o tratamento em diferentes abordagens, embora os dados específicos para o Transtorno de Personalidade Dependente ainda apresentem incertezas. Isso nos conduz a uma esperança mais madura. Não a esperança de: “Você vai mudar rapidamente.” Mas a esperança de: “Mudanças são possíveis e podem ser construídas.”

 

Talvez devagar. Talvez com recaídas em padrões antigos. Talvez exigindo tratamento prolongado. Talvez necessitando de diferentes formas de apoio. Mas possível.

 

MUDAR NÃO SIGNIFICA DEIXAR DE PRECISAR

 

Talvez esta seja a ideia mais importante deste artigo. A pessoa não precisa escolher entre duas possibilidades: dependência absoluta ou independência absoluta. Existe um terceiro caminho: INTERDEPENDÊNCIA. Eu posso precisar de você. E ainda assim pensar. Posso pedir sua opinião. E ainda assim decidir. Posso receber cuidado. E ainda assim permanecer responsável. Posso amar profundamente. E ainda assim estabelecer limites.

 

Posso ter medo. E ainda assim agir. Posso estar sozinho. Sem concluir que fui abandonado. Posso discordar. Sem concluir que perdi o vínculo. Posso dizer “não”. Sem concluir que deixei de ser amado. Essa é uma forma mais madura de autonomia.

 

CINCO PERGUNTAS PARA REFLEXÃO

 

Antes de terminar, vale fazer algumas perguntas:

1. Tenho dificuldade de tomar decisões quando não recebo aprovação de alguém?

2. Quando alguém discorda de mim, sinto imediatamente que estou perdendo essa pessoa?

3. Estou aprendendo a fazer coisas por mim ou sempre existe alguém fazendo por mim?

4. As pessoas que me ajudam estão fortalecendo minha autonomia ou aumentando minha dependência?

5. Consigo precisar de alguém sem entregar a essa pessoa o controle sobre quem eu sou?

 

Essas perguntas não servem para produzir um diagnóstico. Servem para estimular reflexão.

 

O MÉTODO MULLER: COMPREENDER PARA TRANSFORMAR

 

O Método Muller procura olhar para o Transtorno de Personalidade Dependente sem reduzir a pessoa a uma única dimensão.

 

TEOLOGIA

A pessoa possui dignidade e identidade diante de Deus. A dependência humana não deve transformar outra pessoa em fundamento absoluto.

 

PSICANÁLISE

Precisamos compreender a história, os conflitos, os medos, as defesas e os significados presentes na maneira como alguém se relaciona.

 

NEUROCIÊNCIAS

Precisamos compreender aprendizagem, regulação emocional, tomada de decisão e a possibilidade de desenvolver novas respostas através de experiências repetidas e significativas.

 

As três perspectivas não dizem a mesma coisa. E justamente por isso podem dialogar. A Teologia pergunta pelo sentido, pela identidade, pela responsabilidade e pela relação com Deus. A Psicanálise pergunta pela história, pelo inconsciente, pelos conflitos e pelos vínculos.

 

As Neurociências investigam processos de aprendizagem, funcionamento emocional e cognitivo e mecanismos envolvidos na mudança. Nenhuma dessas perspectivas precisa eliminar a outra para contribuir.

 

CONCLUSÃO: HÁ UM CAMINHO ENTRE PRECISAR E DESAPARECER

 

Talvez a pessoa dependente tenha passado muitos anos acreditando que precisava escolher: ou eu fico sozinho, ou eu me submeto. ou eu perco a pessoa, ou eu perco a mim mesmo. Mas existe outro caminho. Um caminho no qual relacionamento não significa submissão. No qual cuidado não significa controle. No qual ajuda não significa incapacidade.

 

No qual limite não significa abandono. No qual autonomia não significa isolamento. No qual fé não significa terceirizar a própria consciência. E no qual precisar de alguém não significa pertencer a alguém. Mudar não significa tornar-se alguém que não precisa de ninguém. Significa aprender a precisar sem perder a própria identidade.

 

A pessoa não é o diagnóstico. Ela possui uma história. Possui vínculos.

Possui conflitos. Possui responsabilidades. Possui capacidades que talvez ainda não tenha aprendido a reconhecer. E pode construir novas possibilidades. Talvez a pergunta mais importante não seja: “Como faço para não precisar mais de ninguém?” Mas: “Como posso aprender a precisar dos outros sem deixar de ser eu mesmo?” E talvez seja justamente aí que começa uma forma mais madura de liberdade. Precisar de alguém não significa pertencer a alguém.

 

NOTA DE RESPONSABILIDADE

 

Este artigo possui finalidade educativa e não substitui avaliação psicológica, psiquiátrica ou médica. Características isoladas não estabelecem diagnóstico. O Transtorno de Personalidade Dependente deve ser avaliado por profissional qualificado considerando história, funcionamento global, duração dos padrões, sofrimento e prejuízo funcional. O DSM-5-TR destina seus critérios ao uso de profissionais treinados, e a CID-11 utiliza atualmente uma abordagem dimensional para os transtornos da personalidade.

 

REFERÊNCIAS ESSENCIAIS

 

  • American Psychiatric Association. DSM-5-TR — Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision.

  • World Health Organization. Clinical Descriptions and Diagnostic Requirements for ICD-11 Mental, Behavioural and Neurodevelopmental Disorders (CDDR).

  • Bornstein, R. F. From dysfunction to adaptation: an interactionist model of dependency. Annual Review of Clinical Psychology, 2012.

  • Disney, K. L. Dependent personality disorder: a critical review. Clinical Psychology Review, 2013.

  • Kane, F. A.; Bornstein, R. F. Does interpersonal dependency affect therapeutic outcome? A meta-analytic review. Personality and Mental Health, 2019.

  • Maccaferri, G. E. et al. Psychotherapy of Dependent Personality Disorder: The Relationship of Patient-Therapist Interactions to Outcome. Psychiatry, 2020.

  • Emmelkamp, P. M. G.; Meyerbröker, K. Psychotherapies for the treatment of personality disorders: the state of the art. Current Opinion in Psychiatry, 2025.

 

Por: Carlos Henrique Müller Filho – Teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista, especialista em neurociências na pratica clínica e neuropsicanálise.

 

 

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