top of page

5 mitos sobre a ansiedade que impedem muitas pessoas de buscar ajuda

  • há 1 dia
  • 14 min de leitura

ARTIGO ESPECIAL


Série: Ansiedade e Confiança em Deus


5 mitos sobre a ansiedade que impedem muitas pessoas de buscar ajuda


"Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." (João 8:32)


Introdução


A ansiedade nunca foi um tema tão discutido como nos últimos anos. Basta abrir as redes sociais ou conversar com amigos para perceber que milhares de pessoas compartilham experiências relacionadas ao medo, à preocupação constante, à insônia e ao esgotamento emocional.


Ao mesmo tempo em que cresce o interesse pelo assunto, também aumentam as informações imprecisas. Conselhos simplistas, opiniões sem fundamento e interpretações equivocadas acabam sendo repetidos como se fossem verdades absolutas.


O resultado é preocupante.


Muitas pessoas deixam de procurar ajuda porque acreditam que seu sofrimento é sinal de fraqueza, de falta de fé ou de incapacidade pessoal. Outras convivem durante anos com sintomas importantes porque ouviram que "isso é normal" ou que "vai passar sozinho".


Como cristãos, somos chamados a amar a verdade. Isso significa rejeitar tanto o sensacionalismo quanto as respostas fáceis. A Bíblia nos convida a agir com discernimento, buscando compreender a realidade à luz da Palavra de Deus e utilizando com sabedoria o conhecimento que Ele permite ao ser humano desenvolver.


Quando falamos sobre ansiedade, esse compromisso é ainda mais importante. O sofrimento emocional não deve ser tratado com julgamentos precipitados nem com promessas irreais. Ele exige acolhimento, responsabilidade e uma compreensão que considere o ser humano em sua totalidade: corpo, mente, emoções, relacionamentos e vida espiritual.


Neste artigo, analisaremos cinco mitos muito comuns sobre a ansiedade. O objetivo não é alimentar debates, mas oferecer esclarecimento, reduzir estigmas e encorajar aqueles que sofrem a buscar ajuda quando necessário.


Conhecer a verdade não elimina todas as dificuldades, mas pode ser o primeiro passo para uma caminhada de cuidado, esperança e restauração.

 


Mito 1 – "Ansiedade é sempre falta de fé"


Este talvez seja o mito mais doloroso para muitos cristãos.


Quem enfrenta ansiedade frequentemente já carrega um peso emocional significativo.


Quando, além desse sofrimento, ouve que sua condição é consequência de uma fé insuficiente, o resultado costuma ser culpa, vergonha e isolamento.


Essa conclusão, porém, não encontra respaldo nas Escrituras.


A Bíblia apresenta homens e mulheres profundamente comprometidos com Deus que experimentaram momentos de intensa angústia. Davi expressou repetidas vezes seus medos nos Salmos. Elias, após um período de enorme desgaste físico e emocional, desejou a morte e precisou ser restaurado pelo cuidado de Deus. Jeremias registrou seu sofrimento de maneira comovente nas Lamentações.


O Novo Testamento também apresenta exemplos marcantes. O apóstolo Paulo relata momentos de aflição extrema, nos quais se sentiu além de suas próprias forças (2 Coríntios 1:8). No Getsêmani, o próprio Senhor Jesus declarou aos discípulos:

"A minha alma está profundamente triste até a morte." (Mateus 26:38).


Esses relatos não significam que a ansiedade seja sempre inevitável ou que a incredulidade nunca influencie nossas preocupações. Em alguns momentos, as Escrituras realmente nos chamam a confiar mais profundamente no Senhor.


Entretanto, reduzir toda ansiedade à falta de fé é ignorar a complexidade do ser humano e transformar um chamado à confiança em um instrumento de condenação.


A verdadeira fé não impede que enfrentemos momentos difíceis. Ela nos sustenta enquanto os atravessamos.


Mito 2


"Quem tem ansiedade precisa apenas orar mais"


Poucas frases são repetidas com tanta frequência quanto esta. Geralmente ela nasce de uma boa intenção. Quem a pronuncia acredita sinceramente no poder da oração e deseja incentivar alguém a aproximar-se de Deus.


O problema não está na oração.


O problema está na palavra "apenas".


Ela transforma uma prática indispensável da vida cristã em uma solução única para uma realidade extremamente complexa.


A Bíblia jamais diminui a importância da oração. Pelo contrário, ela apresenta a oração como um dos maiores privilégios concedidos ao povo de Deus. Em Filipenses 4:6-7, Paulo escreve:

"Não andem ansiosos por coisa alguma, mas, em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus."


Esse texto é frequentemente citado para afirmar que um cristão não deveria sofrer com ansiedade. Entretanto, uma leitura cuidadosa mostra que Paulo não faz uma promessa de eliminação instantânea das dificuldades. Ele convida os cristãos a levarem suas preocupações diante de Deus e afirma que a paz divina guardará seus corações durante esse processo.


A paz prometida não é, necessariamente, a retirada imediata das circunstâncias difíceis. É a presença sustentadora de Deus em meio às circunstâncias.


Além disso, o próprio contexto da carta aos Filipenses merece atenção. Paulo escreve da prisão, enfrentando limitações, incertezas e perseguições. Suas palavras não vêm de alguém que desconhece o sofrimento, mas de alguém que aprendeu a confiar em Deus mesmo quando as circunstâncias permaneciam adversas.

Isso nos ajuda a compreender que oração não é uma técnica para eliminar emoções desagradáveis. É um relacionamento vivo com Deus, que fortalece, consola, orienta e transforma o coração.


A providência de Deus também age através dos meios


Na tradição reformada existe um princípio extremamente importante: Deus governa todas as coisas por sua providência.


Essa providência não se manifesta apenas por milagres extraordinários. Na maior parte do tempo, Deus cuida de seus filhos através dos chamados meios ordinários da graça e também dos recursos que, em sua sabedoria, permitiu que a humanidade desenvolvesse.


Quando uma pessoa quebra uma perna, dificilmente alguém aconselha apenas: "Ore mais". Espera-se que ela ore, mas também procure atendimento médico, faça exames, utilize medicamentos quando necessário e siga um processo de reabilitação.


Com a saúde emocional deveria acontecer o mesmo.


Orar, ler as Escrituras, participar da comunhão da igreja e confiar em Deus são atitudes fundamentais. Porém, em determinadas situações, elas podem caminhar juntamente com acompanhamento psicológico, aconselhamento pastoral, psicanálise ou atendimento psiquiátrico.


Reconhecer isso não diminui a suficiência das Escrituras. Significa reconhecer que Deus também age por meio dos dons concedidos às pessoas que dedicam sua vida ao cuidado do próximo.


O que a neurociência nos ensina


Nas últimas décadas, os avanços da neurociência ampliaram nossa compreensão sobre a ansiedade.


Sabemos hoje que ela envolve diferentes regiões cerebrais, como a amígdala, responsável pela detecção de ameaças, o hipocampo, relacionado à memória, e o córtex pré-frontal, que participa da regulação das emoções e da tomada de decisões.


Em alguns quadros, esses sistemas permanecem excessivamente ativados, mantendo o organismo em constante estado de alerta.


Isso não significa que a pessoa tenha escolhido sentir ansiedade.


Também não significa ausência de fé.


Significa que existem processos biológicos reais influenciando pensamentos, emoções e comportamentos.


A oração pode fortalecer profundamente o enfrentamento dessas dificuldades, mas ela não elimina automaticamente todos os mecanismos neurobiológicos envolvidos.


A contribuição da psicanálise


A psicanálise acrescenta outra dimensão importante.


Ela nos lembra que a ansiedade nem sempre está ligada apenas ao presente. Muitas vezes, ela se relaciona a experiências antigas, perdas, traumas, vínculos afetivos, medos inconscientes e formas aprendidas de lidar com a insegurança.


Por isso, simplesmente dizer a alguém "ore mais" pode impedir que essa pessoa encontre espaço para compreender sua própria história.


A escuta cuidadosa não substitui a oração.


Assim como a oração não substitui a necessidade de compreender aquilo que produz sofrimento.


Ambas podem caminhar juntas.


Uma igreja que acolhe


Infelizmente, algumas pessoas deixam de procurar ajuda porque têm medo de serem julgadas dentro da própria comunidade cristã.


Isso produz um efeito devastador.


Em vez de encontrar acolhimento, encontram culpa.


Em vez de experimentar compaixão, encontram desconfiança.


A igreja foi chamada para refletir o caráter de Cristo.


Jesus nunca desprezou quem sofria.


Ele acolheu, ouviu, consolou, ensinou e restaurou pessoas profundamente marcadas pela dor.


Seguir seus passos significa desenvolver comunidades onde aqueles que enfrentam ansiedade encontrem irmãos dispostos a caminhar ao seu lado, orar com eles, oferecer apoio prático e, quando necessário, incentivar a busca por ajuda especializada.


Aplicação pastoral


Se você convive com alguém que enfrenta ansiedade, talvez a melhor pergunta não seja:

"Você já orou sobre isso?"


Talvez seja:

"Como posso caminhar com você durante esse momento?"


A oração continua sendo indispensável.


Mas ela nunca deve ser usada para encerrar uma conversa quando Deus está nos chamando a demonstrar amor, escuta e cuidado.


Mito 3

"Ansiedade é coisa da cabeça"


Essa expressão é muito comum.


Quando alguém diz que a ansiedade é "coisa da cabeça", normalmente pretende afirmar que o problema é imaginário, exagerado ou que poderia ser resolvido simplesmente "pensando positivo" ou "parando de pensar nisso".


Embora essa frase pareça inofensiva, ela pode ser profundamente prejudicial.


Ela desconsidera a complexidade do funcionamento humano e faz com que muitas pessoas sintam vergonha de admitir seu sofrimento. Em alguns casos, leva familiares e amigos a interpretar a ansiedade como falta de força de vontade ou excesso de sensibilidade, quando, na realidade, ela envolve processos muito mais amplos.


O ser humano é uma unidade


A visão bíblica do ser humano não permite separações rígidas entre corpo, mente e vida espiritual.


Desde o relato da criação, percebemos que Deus formou o homem como uma unidade.


Nossas emoções influenciam o corpo; o corpo influencia os pensamentos; os pensamentos afetam nossos relacionamentos; e tudo isso repercute em nossa vida espiritual.


Quando uma pessoa enfrenta uma enfermidade física prolongada, isso pode afetar seu ânimo e sua disposição para orar. Da mesma forma, um período de intenso sofrimento emocional pode provocar alterações no sono, no apetite, na concentração e até na imunidade.


Essa interação mostra que não somos compartimentos isolados, mas pessoas integrais, criadas por Deus com múltiplas dimensões que se relacionam continuamente.


O que acontece no cérebro?


A neurociência tem contribuído de forma significativa para explicar por que a ansiedade produz efeitos tão concretos.


Quando o cérebro identifica uma ameaça — real ou percebida — ele ativa sistemas de proteção. A amígdala cerebral interpreta sinais de perigo e desencadeia uma série de respostas fisiológicas. O organismo libera adrenalina e cortisol, aumenta a frequência cardíaca, acelera a respiração e prepara o corpo para reagir.


Esse mecanismo foi essencial para a sobrevivência da espécie humana. Em situações de risco, ele permite respostas rápidas e eficientes.


O problema surge quando esse sistema permanece ativado de maneira constante.


Nessa condição, o corpo continua reagindo como se estivesse diante de um perigo iminente, mesmo quando não existe uma ameaça objetiva.


É por isso que pessoas ansiosas podem experimentar sintomas como:

  • palpitações;

  • tensão muscular;

  • falta de ar;

  • sudorese;

  • desconforto gastrointestinal;

  • dificuldade para dormir;

  • fadiga persistente;

  • dificuldade de concentração.


Esses sintomas não são "imaginação". Eles correspondem a respostas fisiológicas reais.

Isso não significa que toda manifestação física tenha origem exclusivamente emocional. Da mesma forma, não significa que toda ansiedade seja consequência apenas de alterações cerebrais. O ponto central é reconhecer que mente e corpo interagem de maneira profunda.


A experiência subjetiva importa

Se a neurociência explica parte do funcionamento biológico da ansiedade, a psicanálise chama nossa atenção para outra dimensão igualmente importante: a história de vida da pessoa.


Duas pessoas podem enfrentar a mesma situação — por exemplo, uma mudança de emprego — e reagir de formas completamente diferentes.


Por quê?


Porque cada indivíduo interpreta a realidade a partir de suas experiências, vínculos, perdas, expectativas e modos de enfrentar a insegurança.


Para alguém que viveu repetidas experiências de abandono, uma pequena mudança pode despertar medos intensos. Para outra pessoa, a mesma situação pode representar apenas um desafio temporário.


Isso nos lembra que o sofrimento não pode ser compreendido apenas observando sintomas. É preciso ouvir a história por trás deles.


O perigo do reducionismo


Ao longo da história, diferentes correntes tentaram explicar o comportamento humano por um único fator.


Algumas reduziram tudo ao cérebro.


Outras atribuíram tudo ao ambiente.


Há também quem explique todas as dificuldades apenas pelo pecado ou pela falta de fé.


Essas perspectivas, quando isoladas, acabam simplificando excessivamente a realidade.


A tradição cristã sempre reconheceu que o ser humano é complexo. Somos criaturas afetadas pela queda, inseridas em relações, marcadas por limitações físicas e emocionais, mas também alcançadas pela graça de Deus.


Por isso, compreender a ansiedade exige humildade. Nem toda resposta estará em um exame médico, assim como nem toda resposta estará em uma única conversa pastoral. Em muitos casos, o cuidado mais responsável será aquele que integra diferentes formas de acompanhamento, respeitando a singularidade de cada pessoa.


Aplicação pastoral


Quando alguém diz que sua ansiedade é "coisa da cabeça", talvez esteja tentando explicar um sofrimento que ainda não consegue nomear.


Antes de oferecer respostas, vale a pena oferecer escuta.


Antes de julgar, é importante procurar compreender.


Cristo jamais tratou o sofrimento humano com superficialidade. Ele via pessoas, conhecia suas histórias e respondia com verdade e compaixão.


A igreja é chamada a seguir esse mesmo caminho.


Mito 4


"Tomar remédio para ansiedade significa falta de confiança em Deus"


Poucos temas geram tanta insegurança entre cristãos quanto o uso de medicamentos para tratar questões relacionadas à saúde mental.


Algumas pessoas sentem culpa ao receber a indicação de um tratamento medicamentoso.


Outras deixam de procurar ajuda por medo de serem julgadas pela família, pela igreja ou por amigos. Há ainda quem acredite que recorrer à medicação seja um sinal de fracasso espiritual ou de falta de confiança em Deus.


Esses sentimentos precisam ser tratados com seriedade e sensibilidade.


Antes de qualquer conclusão, é importante reconhecer que a Bíblia não apresenta uma oposição entre confiar em Deus e utilizar recursos disponíveis para o cuidado da saúde.


Pelo contrário, as Escrituras mostram que Deus frequentemente age por meio de pessoas, instrumentos e meios ordinários para cumprir seus propósitos.


A providência de Deus e os meios que Ele utiliza


Na tradição reformada, a doutrina da providência ensina que Deus sustenta e governa toda a criação. Essa atuação não se limita ao extraordinário. Em sua sabedoria, o Senhor também utiliza processos naturais, relacionamentos, conhecimento e trabalho humano para cuidar de seu povo.


Quando uma pessoa desenvolve uma infecção, ninguém considera falta de fé procurar atendimento médico e utilizar um antibiótico prescrito de forma adequada. Da mesma forma, quem sofre uma fratura procura um ortopedista, segue um tratamento e participa da reabilitação.


Esses cuidados não competem com a confiança em Deus. Eles podem ser entendidos como parte da maneira pela qual Deus preserva e restaura a vida.


O mesmo princípio pode ser aplicado, com as devidas diferenças, às questões relacionadas à saúde mental.


O papel dos medicamentos


Os medicamentos utilizados no tratamento da ansiedade não resolvem todos os problemas da pessoa. Eles não modificam automaticamente experiências traumáticas, conflitos familiares, padrões de pensamento ou questões espirituais.


Em muitos casos, sua função é reduzir a intensidade dos sintomas para que a pessoa consiga participar de outras formas de cuidado com maior estabilidade.


Isso significa que a medicação, quando indicada por um profissional habilitado, pode ser um recurso dentro de um plano terapêutico mais amplo.


Entretanto, ela não deve ser encarada como resposta única nem utilizada sem acompanhamento médico. Cada pessoa apresenta uma história clínica, condições de saúde e necessidades específicas. Por isso, decisões sobre tratamento medicamentoso exigem avaliação individualizada.


O cuidado integral


Uma compreensão equilibrada da ansiedade reconhece que diferentes formas de cuidado podem caminhar juntas.


A oração fortalece a esperança.


A leitura das Escrituras alimenta a fé.


A comunhão da igreja oferece acolhimento.


O aconselhamento pastoral ajuda a aplicar os princípios bíblicos às situações concretas da vida.


A psicoterapia ou a psicanálise favorecem a compreensão da história pessoal e dos padrões emocionais.


Quando necessário, a avaliação psiquiátrica pode indicar recursos adicionais para aliviar o sofrimento.


Essas dimensões não precisam competir entre si. Em muitos casos, elas se complementam.


O perigo dos extremos


Ao tratar desse assunto, é importante evitar duas posições igualmente problemáticas.


A primeira afirma que qualquer uso de medicamento demonstra falta de espiritualidade.


Essa perspectiva costuma aumentar a culpa de quem já sofre e pode levar pessoas a interromper tratamentos importantes sem orientação médica.


A segunda considera que toda ansiedade deve ser resolvida apenas com medicamentos.


Essa visão ignora que a experiência humana envolve relações, significado, espiritualidade, hábitos de vida e processos emocionais que não podem ser reduzidos à química cerebral.


Entre esses extremos existe um caminho de prudência.


A prudência reconhece o valor da ciência sem transformá-la em esperança absoluta.


Reconhece a importância da fé sem utilizá-la para negar a realidade do sofrimento.


O exemplo da igreja


A comunidade cristã pode desempenhar um papel decisivo nesse processo.


Quando acolhe pessoas com respeito, evita julgamentos precipitados e incentiva decisões responsáveis, a igreja torna-se um ambiente de restauração.

Infelizmente, ainda existem comunidades onde questões relacionadas à saúde mental são tratadas com desconfiança ou estigma. Isso faz com que muitos sofram em silêncio.


A igreja é chamada a refletir o caráter de Cristo, que acolhia os cansados, consolava os aflitos e jamais transformava a dor das pessoas em motivo de humilhação.


Aplicação pastoral


Se você conhece alguém que iniciou um tratamento para ansiedade, talvez o apoio mais importante não seja questionar sua fé, mas caminhar ao seu lado.


Ore por essa pessoa.


Escute com atenção.


Incentive-a a permanecer em comunhão com Deus e com a igreja.


Respeite o acompanhamento dos profissionais envolvidos.


E lembre-se de que toda forma legítima de cuidado pode ser recebida com gratidão ao Senhor, que continua sustentando seu povo em meio às fragilidades da vida.


Mito 5


"Quem sofre com ansiedade nunca vai melhorar"


Talvez este seja o mito mais cruel de todos.


Depois de enfrentar meses ou até anos de preocupação constante, noites mal dormidas, crises inesperadas e a sensação de viver permanentemente em estado de alerta, muitas pessoas começam a acreditar que nunca mais voltarão a experimentar tranquilidade.


Essa sensação costuma ser reforçada por comentários como:

"Você sempre foi assim."

"Vai ter que aprender a viver desse jeito."

"Isso não tem cura."


Quando essas frases são repetidas continuamente, elas deixam de ser apenas opiniões e passam a moldar a forma como a própria pessoa enxerga seu futuro.


A esperança começa a desaparecer.


Entretanto, essa não é a perspectiva apresentada pela Bíblia, nem pela ciência, nem pela experiência clínica séria.


A mudança faz parte da vida humana


Desde o início das Escrituras encontramos um Deus que transforma pessoas.


Abraão precisou aprender a confiar.


Moisés venceu o medo de falar.


Pedro amadureceu após negar Jesus.


Paulo passou por profundas mudanças ao longo de seu ministério.


Nenhuma dessas transformações aconteceu de um dia para o outro.


Foram processos.


Isso nos ensina algo importante: Deus normalmente trabalha na vida de seus filhos por meio de um caminho de crescimento contínuo.


A maturidade espiritual não acontece instantaneamente.


O mesmo princípio pode ser observado em muitos processos de restauração emocional.


O cérebro continua aprendendo


Durante muito tempo acreditou-se que o cérebro adulto permanecia praticamente imutável.


Hoje sabemos que isso não é verdade.


A neurociência utiliza o termo neuroplasticidade para descrever a capacidade do cérebro de reorganizar conexões neurais ao longo da vida.


Essa adaptação ocorre através das experiências, da aprendizagem, da repetição de novos comportamentos e da formação de novos hábitos.


Isso não significa que toda ansiedade desaparecerá completamente.


Também não significa que todas as pessoas responderão da mesma forma aos tratamentos.


Mas demonstra que mudanças reais são possíveis.


O cérebro continua aprendendo.


Novos caminhos podem ser construídos.


A importância do cuidado contínuo


Melhorar não significa voltar a uma vida sem qualquer preocupação.


A ansiedade faz parte da experiência humana.


O objetivo do cuidado não é eliminar toda forma de ansiedade, mas impedir que ela controle a vida da pessoa.


Esse processo pode envolver diferentes recursos:

  • reorganização da rotina;

  • melhora do sono;

  • atividade física;

  • alimentação equilibrada;

  • fortalecimento dos relacionamentos;

  • aconselhamento pastoral;

  • psicoterapia ou psicanálise;

  • acompanhamento médico quando necessário;

  • crescimento na vida devocional.


Esses elementos não produzem resultados imediatos.


Entretanto, ao longo do tempo, podem contribuir significativamente para uma vida emocional mais equilibrada.


A esperança cristã


A maior diferença entre a esperança bíblica e o simples pensamento positivo é que a esperança cristã não depende das circunstâncias.


Ela está fundamentada no caráter de Deus.


Mesmo quando ainda enfrentamos dificuldades, sabemos que não caminhamos sozinhos.


Cristo prometeu estar presente com seu povo todos os dias.


Essa presença não elimina automaticamente toda dor.


Mas transforma a maneira como atravessamos o sofrimento.


A esperança cristã não ignora a realidade.


Ela a enfrenta sustentada pela fidelidade de Deus.


Uma palavra para quem está cansado


Se você chegou até aqui e convive diariamente com a ansiedade, talvez esteja cansado de ouvir respostas rápidas.


Talvez tenha tentado resolver tudo sozinho.


Talvez tenha sentido vergonha de pedir ajuda.


Talvez até tenha pensado que Deus se esqueceu de você.


A Palavra de Deus apresenta outra realidade.


O Senhor conhece nossas limitações.


Conhece nossa estrutura.


Conhece nossas lágrimas antes mesmo que elas sejam derramadas.


Você não precisa carregar esse peso sozinho.


Buscar ajuda não significa abandonar a fé.


Pedir apoio não demonstra fraqueza.


Reconhecer limites não diminui sua dignidade.


Ao contrário, pode ser o primeiro passo para experimentar o cuidado de Deus através das pessoas que Ele coloca ao nosso lado.


Conclusão


Os cinco mitos apresentados neste artigo revelam como informações equivocadas podem aumentar o sofrimento de quem enfrenta a ansiedade.


Vimos que:

  • ansiedade não é necessariamente falta de fé;

  • oração é indispensável, mas não exclui outras formas legítimas de cuidado;

  • a ansiedade não é "apenas coisa da cabeça", pois envolve corpo, mente, emoções e história de vida;

  • utilizar medicamentos, quando indicados de forma responsável, não representa ausência de confiança em Deus;

  • e, por fim, há razões concretas para cultivar esperança, porque pessoas podem aprender novas formas de enfrentar a ansiedade e viver com mais equilíbrio.


Como cristãos, somos chamados a rejeitar tanto o preconceito quanto as respostas simplistas.


O sofrimento emocional deve ser tratado com verdade, compaixão e responsabilidade.

Isso significa acolher sem julgar, orientar sem condenar e reconhecer que Deus continua cuidando de seu povo por diferentes meios, conduzindo cada pessoa em um caminho singular de crescimento e amadurecimento.


Que nossas igrejas sejam lugares onde a verdade liberta, a graça acolhe e a esperança em Cristo fortalece aqueles que enfrentam as lutas da mente e do coração.


Por Carlos Henrique Müller Filho – Teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista, especialista em neurociências para a pratica clinica e neuropsicanálise.

 

Posts recentes

Ver tudo
O que acontece no cérebro quando estamos ansiosos?

SÉRIE: Ansiedade e Confiança em Deus Artigo 3 O que acontece no cérebro quando estamos ansiosos? "Porque Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de equilíbrio." (2 Timóteo 1:7)

 
 
 
Ansiedade e Confiança em Deus

Ansiedade: quando a preocupação deixa de ser normal? Compreender a ansiedade é o primeiro passo para enfrentá-la com sabedoria, fé e responsabilidade. Ansiedade: quando a preocupação deixa de ser norm

 
 
 
Traços de personalidade ou transtorno?

Como reconhecer a diferença sem cair no erro dos rótulos Introdução Vivemos em uma época em que termos da psicologia passaram a fazer parte das conversas do dia a dia. É comum ouvir alguém afirmar que

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page