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Ansiedade e Confiança em Deus

  • há 3 dias
  • 13 min de leitura


Ansiedade: quando a preocupação deixa de ser normal?


Compreender a ansiedade é o primeiro passo para enfrentá-la com sabedoria, fé e responsabilidade.



Ansiedade: quando a preocupação deixa de ser normal?


Introdução


Vivemos cercados por prazos, cobranças, notícias constantes e uma sensação permanente de que sempre existe algo que precisa ser resolvido. Em meio a essa realidade, a ansiedade tornou-se uma das experiências emocionais mais comuns do nosso tempo.


É difícil encontrar alguém que nunca tenha perdido uma noite de sono preocupado com a saúde de um familiar, com dificuldades financeiras, com o futuro dos filhos ou com desafios no trabalho. A preocupação faz parte da vida. Em certa medida, ela até nos ajuda a agir com responsabilidade e prudência.


O problema começa quando essa preocupação deixa de ser passageira e passa a dominar os pensamentos, consumir as energias e impedir que a pessoa viva com serenidade. O que antes funcionava como um mecanismo de proteção transforma-se em uma fonte constante de sofrimento.


Infelizmente, quando o assunto é ansiedade, encontramos dois extremos igualmente prejudiciais. De um lado, há quem considere qualquer preocupação um transtorno psicológico. De outro, há quem reduza todo sofrimento emocional à falta de fé ou de oração. Nenhuma dessas perspectivas faz justiça à complexidade do ser humano.


As Escrituras apresentam homens e mulheres que experimentaram medo, angústia e profunda aflição. Davi derramou suas inquietações diante de Deus. Elias chegou ao limite do esgotamento emocional. Jeremias expressou seu sofrimento em palavras marcadas por dor e esperança. No Getsêmani, o próprio Senhor Jesus declarou que sua alma estava profundamente angustiada (Mateus 26:38). Esses relatos mostram que experimentar sofrimento emocional não é, por si só, sinal de incredulidade.


Ao mesmo tempo, a psicologia, a psicanálise e a neurociência têm contribuído significativamente para compreendermos como a ansiedade funciona, quais fatores favorecem seu desenvolvimento e quais caminhos podem ajudar na recuperação.


Como cristãos, não precisamos escolher entre a fé e o conhecimento. Podemos reconhecer que Deus age por meio da sua Palavra, da comunhão da igreja, da oração e também por meio da sabedoria concedida para o desenvolvimento das ciências. Cuidar da saúde emocional não diminui a confiança em Deus; pode ser uma expressão de boa mordomia da vida que Ele nos confiou.


É com essa convicção que iniciamos esta nova série. Nosso objetivo não é oferecer respostas fáceis, mas promover compreensão, discernimento e esperança para todos aqueles que desejam viver uma fé madura e uma vida emocional mais saudável.


1. Deus nos criou capazes de sentir ansiedade?


Essa pergunta pode parecer estranha à primeira vista, mas é essencial para compreendermos o tema.


Quando ouvimos a palavra "ansiedade", geralmente pensamos apenas em sofrimento. No entanto, existe uma forma de ansiedade que faz parte do funcionamento normal do ser humano. Ela é uma resposta natural diante de situações que exigem atenção, preparo e cuidado.


Imagine um pai que procura o filho pequeno em um lugar movimentado depois de perdê-lo de vista por alguns instantes. Ou um motorista que reage rapidamente para evitar um acidente. Ou ainda um estudante que se prepara para uma prova importante. Nessas situações, um certo nível de preocupação é esperado e até necessário. Ele mobiliza recursos físicos e mentais para enfrentar desafios reais.


Sob essa perspectiva, podemos dizer que a capacidade de antecipar perigos faz parte da boa criação de Deus. Em um mundo sem pecado, essa capacidade estaria perfeitamente orientada pela sabedoria e pelo equilíbrio. Contudo, a queda afetou todas as dimensões da existência humana. Nossos relacionamentos foram marcados por conflitos, nosso corpo tornou-se vulnerável e também nossas emoções passaram a experimentar desordens.


Assim, aquilo que originalmente tinha uma função protetora pode tornar-se desproporcional. A ansiedade deixa de servir à vida e passa a escravizar a pessoa.


Essa distinção é importante porque evita dois erros comuns. O primeiro é considerar toda ansiedade um pecado. O segundo é tratar qualquer preocupação como uma doença. Entre esses extremos existe uma compreensão mais fiel à realidade humana e à revelação bíblica.


2. A preocupação saudável


A preocupação saudável é proporcional à situação enfrentada e desaparece quando o problema é resolvido ou deixa de representar uma ameaça.


Ela pode motivar uma mãe a acompanhar o tratamento médico do filho, um profissional a preparar-se para uma entrevista ou um estudante a organizar melhor seus estudos. Nessas circunstâncias, a preocupação estimula atitudes responsáveis e favorece a adaptação.


O próprio apóstolo Paulo demonstrava preocupação com as igrejas que havia plantado (2 Coríntios 11:28). Essa preocupação não revelava incredulidade, mas responsabilidade pastoral. Da mesma forma, pais, líderes e cuidadores experimentam preocupações legítimas porque amam aqueles que lhes foram confiados.


Portanto, sentir preocupação não significa, necessariamente, estar adoecido. O desafio consiste em perceber quando essa emoção deixa de cumprir sua função protetora e passa a dominar a vida.


3. Quando a preocupação deixa de ser normal?


Essa talvez seja a pergunta mais importante de todo o artigo.

Se toda ansiedade fosse um problema, viver seria impossível. Por outro lado, se toda preocupação fosse considerada normal, muitas pessoas permaneceriam sofrendo sem receber a ajuda de que precisam.


O desafio está em reconhecer o momento em que uma emoção legítima deixa de cumprir sua função e passa a dominar a vida da pessoa.


A preocupação saudável costuma estar relacionada a um fato concreto. Ela aparece diante de uma situação específica, mobiliza a pessoa para agir e tende a diminuir quando o problema é resolvido ou perde importância.


A ansiedade persistente funciona de maneira diferente.


Ela permanece mesmo quando não existe um perigo imediato. A mente começa a antecipar cenários negativos continuamente. O futuro passa a ser visto como uma sucessão de ameaças. Pequenos desafios tornam-se enormes. O descanso desaparece porque o organismo permanece em estado constante de alerta.

Muitas pessoas descrevem essa experiência dizendo frases como:

"Minha mente não desliga."

"Parece que sempre vai acontecer alguma coisa ruim."

"Mesmo quando tudo está bem, continuo preocupado."


Esses relatos mostram que a ansiedade deixou de ser apenas uma reação e passou a influenciar a forma como a pessoa interpreta a realidade.


É importante destacar que nenhum desses sinais, isoladamente, confirma um transtorno de ansiedade. O diagnóstico depende de uma avaliação clínica cuidadosa, realizada por profissionais habilitados. Entretanto, reconhecer esses sinais pode ser o primeiro passo para buscar ajuda antes que o sofrimento se torne ainda maior.


Entre os sinais que merecem atenção estão:

  • preocupação excessiva e difícil de controlar;

  • dificuldade para relaxar, mesmo em momentos de descanso;

  • sensação constante de que algo ruim está prestes a acontecer;

  • irritabilidade frequente;

  • dificuldade de concentração;

  • alterações do sono;

  • tensão muscular persistente;

  • cansaço sem causa física evidente;

  • sintomas como taquicardia, sudorese, falta de ar ou desconforto gastrointestinal.


Esses sintomas podem estar presentes em diferentes condições clínicas e emocionais. Por isso, jamais devem ser interpretados de maneira isolada ou utilizados para autodiagnóstico.


O mais importante é compreender que o sofrimento merece ser levado a sério. Não porque toda ansiedade seja um transtorno, mas porque ninguém deveria aprender a viver permanentemente dominado pelo medo.


4. O que acontece no cérebro quando estamos ansiosos?


Durante muito tempo acreditou-se que a ansiedade era apenas uma questão de personalidade ou de força de vontade. Hoje sabemos que essa visão é simplista.


A neurociência demonstra que a ansiedade envolve uma complexa interação entre diferentes regiões do cérebro, hormônios e neurotransmissores.


Entre essas estruturas destaca-se a amígdala cerebral, responsável por identificar estímulos potencialmente perigosos. Quando ela percebe uma ameaça, desencadeia uma resposta rápida de proteção: aceleração dos batimentos cardíacos, aumento da frequência respiratória, tensão muscular e liberação de hormônios como a adrenalina e o cortisol.


Essa reação foi essencial para a sobrevivência da humanidade. Imagine um homem diante de um animal selvagem ou uma mãe protegendo o filho de um acidente. O organismo precisa responder rapidamente.


O problema surge quando esse sistema permanece ativado mesmo na ausência de um perigo real.


É como se o cérebro mantivesse o alarme ligado o tempo todo.


Ao mesmo tempo, o córtex pré-frontal, região relacionada ao planejamento, ao raciocínio e ao controle das emoções, encontra maior dificuldade para regular essa resposta intensa.


A pessoa sabe, racionalmente, que talvez esteja exagerando, mas sente enorme dificuldade para interromper o ciclo de preocupação.


Essa compreensão ajuda a desfazer um equívoco muito comum: ansiedade não é simplesmente falta de controle emocional ou ausência de fé. Ela envolve processos biológicos reais que influenciam pensamentos, emoções e comportamentos.


Entretanto, existe uma notícia extremamente importante.


O cérebro possui uma extraordinária capacidade chamada neuroplasticidade.

Isso significa que ele pode reorganizar conexões neurais ao longo da vida. Psicoterapia, novos hábitos, atividade física, sono adequado, relacionamentos saudáveis, apoio espiritual e, quando necessário, tratamento medicamentoso podem contribuir para mudanças significativas no funcionamento cerebral.


Essa capacidade nos lembra que sofrimento não significa condenação. Existe possibilidade de cuidado, recuperação e crescimento.


5. O olhar da psicanálise


Se a neurociência nos mostra como a ansiedade acontece no cérebro, a psicanálise procura compreender o significado desse sofrimento para cada pessoa.


Freud descreveu a ansiedade como um sinal de alerta do aparelho psíquico. Em vez de enxergá-la apenas como um sintoma que deve desaparecer, ele propôs uma pergunta fundamental:


O que essa ansiedade está tentando comunicar?


Ao longo do desenvolvimento da psicanálise, diferentes autores mostraram que a ansiedade pode estar relacionada a conflitos internos, experiências traumáticas, perdas afetivas, medo do abandono, sentimentos de culpa, exigências excessivas consigo mesmo e dificuldades na construção da identidade.


Isso significa que duas pessoas podem apresentar sintomas semelhantes por razões completamente diferentes.


É por isso que uma escuta cuidadosa é tão importante.


A psicanálise nos lembra que cada ser humano possui uma história única. Antes de interpretar comportamentos, precisamos compreender experiências, vínculos familiares, formas de enfrentar perdas e maneiras particulares de atribuir sentido à vida.


Essa perspectiva também oferece uma contribuição valiosa para o aconselhamento pastoral.


Quem sofre não precisa apenas de respostas rápidas. Muitas vezes, precisa de alguém disposto a ouvir com paciência, acolher sem julgamento e caminhar ao seu lado durante o processo de reconstrução.


Ouvir não significa concordar com tudo. Significa reconhecer que o sofrimento humano é complexo e que cuidar de pessoas exige tempo, humildade e compaixão.


6. O que Jesus realmente ensinou sobre a ansiedade?


Poucos textos bíblicos são tão citados quando o assunto é ansiedade quanto Mateus 6:25-34.


Ali encontramos palavras conhecidas de Jesus:

"Portanto, eu lhes digo: não se preocupem com a sua própria vida..."(Mateus 6:25)


À primeira vista, alguém poderia concluir que Jesus está proibindo qualquer forma de preocupação. Entretanto, uma leitura cuidadosa do contexto mostra que essa não é a intenção do texto.


O Sermão do Monte não é um conjunto de frases isoladas. Jesus está ensinando seus discípulos sobre o Reino de Deus e sobre a maneira como aqueles que pertencem a esse Reino devem viver.


Nos versículos anteriores, Ele fala sobre tesouros, riqueza e a impossibilidade de servir simultaneamente a Deus e às riquezas (Mateus 6:19-24). Em seguida, passa a tratar da ansiedade.


Essa ligação é importante.


Jesus não está discutindo um transtorno psicológico. Ele está falando da inquietação produzida quando o coração deposita sua segurança nas circunstâncias, nas posses ou na tentativa de controlar completamente o futuro.


O verbo traduzido por "andar ansioso" (do grego merimnáō) carrega a ideia de uma mente dividida, fragmentada entre diferentes preocupações. É o coração sendo puxado em várias direções ao mesmo tempo.


Jesus não ignora as necessidades humanas. Pelo contrário, Ele menciona alimento, bebida e vestuário, necessidades absolutamente legítimas. Também não afirma que essas preocupações sejam irreais.


O que Ele questiona é a tentativa de viver como se tudo dependesse exclusivamente da nossa capacidade de controlar a vida.


Por isso, Jesus aponta para as aves do céu e para os lírios do campo. Não porque eles vivam sem desafios, mas porque revelam a providência constante do Pai.


O argumento central não é:

"Vocês nunca terão problemas."


O argumento é:

"Vocês possuem um Pai que conhece as suas necessidades."


Essa diferença muda completamente a interpretação do texto.


Jesus não está culpando quem sofre.


Está convidando seus discípulos a substituir a ilusão do controle pela confiança na providência divina.


7. Ansiedade é falta de fé?


Essa talvez seja uma das perguntas mais delicadas para muitos cristãos.


Infelizmente, algumas pessoas que enfrentam ansiedade ouviram frases como:

"Você precisa confiar mais em Deus."

"Ore mais."

"Isso é falta de fé."


Embora essas palavras possam ter sido ditas com boa intenção, elas frequentemente aumentam o sofrimento de quem já se sente sobrecarregado.


A Bíblia não sustenta essa conclusão simplista.


Diversos homens e mulheres de fé experimentaram profunda angústia.


Davi escreveu salmos marcados por medo e inquietação.


Jeremias expressou sua dor diante de Deus.


Elias, após enfrentar intenso desgaste físico e emocional, desejou morrer.


Jonas mergulhou em profunda crise emocional.


No Novo Testamento, o apóstolo Paulo descreve momentos de extrema aflição, afirmando que chegou a perder a esperança da própria vida (2 Coríntios 1:8).


O próprio Senhor Jesus, no Getsêmani, declarou:

"A minha alma está profundamente triste até a morte."(Mateus 26:38)


Nenhum desses relatos autoriza concluir que essas pessoas estavam afastadas de Deus.


A fé cristã nunca prometeu ausência completa de sofrimento.


Ela promete a presença de Deus em meio ao sofrimento.


Isso não significa que a incredulidade jamais influencie nossas preocupações. Em alguns momentos, realmente somos chamados a confiar mais profundamente no Senhor.


Mas reduzir toda ansiedade à falta de fé significa ignorar a complexidade da condição humana, desconsiderar fatores biológicos, psicológicos e relacionais e, muitas vezes, aumentar a culpa de quem já sofre.


A verdadeira fé não elimina automaticamente todas as emoções difíceis.


Ela oferece um lugar seguro onde podemos levá-las.


8. O papel da igreja e do aconselhamento pastoral


A igreja sempre foi chamada a ser um lugar de acolhimento.

Infelizmente, em alguns contextos, pessoas que sofrem emocionalmente encontram julgamento em vez de cuidado.


Isso precisa mudar.


O aconselhamento pastoral possui uma missão preciosa.


Seu objetivo não é substituir psicólogos, psiquiatras ou psicanalistas.


Também não consiste em oferecer respostas rápidas para problemas complexos.


O aconselhamento cristão caminha ao lado da pessoa.


Escuta.


Ora.


Consola.


Ensina as Escrituras.


Aponta para Cristo.


Incentiva a esperança.


Quando necessário, reconhece humildemente a importância do encaminhamento para profissionais da saúde mental.


Essa postura não diminui a autoridade da Bíblia.


Ao contrário, demonstra respeito pela maneira como Deus também age através dos dons concedidos àqueles que dedicam sua vida ao cuidado das pessoas.


Uma igreja saudável não escolhe entre oração e tratamento.


Ela compreende que ambos podem caminhar juntos.


9. Quando procurar ajuda profissional?


Nem toda preocupação exige acompanhamento especializado.


Mas algumas situações indicam que buscar ajuda é uma atitude prudente.


Vale a pena procurar um profissional quando:

  • a ansiedade persiste por semanas ou meses;

  • interfere no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos;

  • provoca sofrimento intenso;

  • compromete o sono de forma significativa;

  • gera crises frequentes de medo ou pânico;

  • leva ao isolamento social;

  • produz sintomas físicos recorrentes sem explicação médica adequada;

  • faz a pessoa perder o prazer de viver ou a esperança.


Buscar ajuda não representa fracasso espiritual.


Também não demonstra ausência de fé.


Pode representar exatamente o contrário:

o reconhecimento humilde de que Deus frequentemente utiliza pessoas, conhecimento e recursos para cuidar de seus filhos.


10. Conclusão


Vivemos em um mundo marcado pela incerteza.

Por isso, experimentar preocupação faz parte da condição humana.


Entretanto, quando a ansiedade passa a governar nossos pensamentos, roubar nossa paz e limitar nossa capacidade de viver, ela deixa de cumprir sua função protetora e torna-se um chamado ao cuidado.


Ao longo deste artigo vimos que ansiedade não pode ser reduzida a uma única explicação.


Ela envolve corpo, mente, emoções, história de vida, relacionamentos e espiritualidade.


A neurociência nos ajuda a compreender o funcionamento do cérebro.


A psicanálise convida-nos a escutar aquilo que o sofrimento comunica.


A Bíblia aponta para um Deus que conhece nossas fragilidades e permanece presente mesmo quando atravessamos os vales mais difíceis.


Como seguidores de Cristo, não precisamos escolher entre fé e conhecimento.

Podemos confiar na providência do Senhor enquanto buscamos ajuda responsável, cultivamos relacionamentos saudáveis, aprendemos a descansar e caminhamos em comunhão com o povo de Deus.


Nossa esperança não está na ausência completa de dificuldades.


Nossa esperança está naquele que prometeu:

"Eu estarei com vocês todos os dias, até o fim dos tempos."(Mateus 28:20)


Essa promessa não elimina todas as tempestades.


Mas garante que jamais as enfrentaremos sozinhos.


Considerações finais para o leitor


Se você percebe que a ansiedade tem ocupado um espaço cada vez maior em sua vida, não enfrente esse caminho sozinho. Procure pessoas maduras na fé, converse com líderes responsáveis e, quando necessário, busque acompanhamento de profissionais qualificados.


Cuidar da saúde emocional também é uma forma de honrar a vida que Deus lhe concedeu.


CONSIDERAÇÕES PRÁTICAS


Como lidar com a ansiedade no dia a dia?


Depois de compreender o que é a ansiedade e quando ela merece atenção, surge uma pergunta natural:


O que posso fazer quando percebo que a preocupação está dominando meus pensamentos?


Não existe uma solução única, porque cada pessoa possui uma história, uma personalidade e circunstâncias diferentes. Ainda assim, algumas atitudes costumam contribuir significativamente para uma vida emocional mais saudável.


1. Reconheça o que está acontecendo


O primeiro passo não é negar a ansiedade.


Também não é sentir culpa por experimentá-la.


Reconhecer o sofrimento é um ato de honestidade.


Nos Salmos encontramos diversos exemplos de pessoas que colocaram diante de Deus suas emoções sem máscaras.


Negar a realidade nunca foi um caminho bíblico para a cura.


2. Evite enfrentar tudo sozinho


O isolamento costuma fortalecer a ansiedade.


Quando guardamos todas as preocupações apenas para nós, nossa tendência é aumentar o tamanho dos problemas.


A comunhão cristã existe justamente para que possamos carregar os fardos uns dos outros (Gálatas 6:2).


Conversar com pessoas maduras, familiares, amigos confiáveis ou líderes responsáveis pode representar um importante passo no processo de cuidado.


3. Cuide também do corpo


Corpo e mente não funcionam separados.

Sono inadequado, alimentação desorganizada, sedentarismo e excesso de estímulos digitais influenciam diretamente o funcionamento cerebral.


A neurociência demonstra que hábitos saudáveis favorecem o equilíbrio emocional.


Cuidar do corpo não é falta de espiritualidade.


É exercer boa administração da vida que Deus nos concedeu.


4. Cultive disciplinas espirituais


A oração não elimina automaticamente toda ansiedade.


Mas ela muda profundamente a forma como atravessamos nossas preocupações.


Quando oramos, lembramos que nossa segurança não depende exclusivamente da nossa capacidade de controlar todas as circunstâncias.


Também a leitura das Escrituras, a comunhão da igreja e a adoração fortalecem a esperança em meio às incertezas.


5. Procure ajuda quando necessário


Algumas pessoas demoram anos para buscar atendimento porque acreditam que deveriam conseguir resolver tudo sozinhas.


Essa ideia costuma aumentar o sofrimento.


Buscar auxílio profissional demonstra responsabilidade.


Da mesma forma que procuramos um cardiologista quando nosso coração adoece, também podemos procurar profissionais capacitados quando nossa saúde emocional precisa de cuidado.


PERGUNTAS FREQUENTES


A ansiedade sempre é pecado?

Não.


A ansiedade, enquanto resposta natural diante de desafios, faz parte da condição humana.

O problema está quando ela domina a vida e nos impede de viver de forma saudável.


Todo ansioso precisa tomar medicamentos?

Não.


Cada caso deve ser avaliado individualmente por profissionais habilitados.

Algumas pessoas beneficiam-se de psicoterapia.


Outras necessitam também de tratamento medicamentoso.

Em muitos casos, diferentes formas de cuidado podem ser combinadas.


A oração substitui tratamento?

Não.


A oração é indispensável para a vida cristã.

Entretanto, Deus também age através dos recursos que, em sua providência, permitiu que fossem desenvolvidos.


A fé cristã nunca precisou entrar em conflito com o conhecimento verdadeiro.

É possível superar a ansiedade?


Muitas pessoas experimentam melhora significativa.

Algumas conseguem superar completamente determinados quadros.


Outras aprendem a conviver de maneira saudável com suas vulnerabilidades.

O importante é lembrar que sofrimento não significa ausência de esperança.


LEITURAS BÍBLICAS SUGERIDAS

  • Salmo 23

  • Salmo 42

  • Salmo 46

  • Isaías 41:10

  • Mateus 6:25-34

  • Filipenses 4:4-9

  • 1 Pedro 5:6-11


PARA REFLETIR


Antes de encerrar esta leitura, reserve alguns minutos para pensar:

  • Quais são as preocupações que mais ocupam minha mente atualmente?

  • Tenho tentado controlar aquilo que pertence apenas a Deus?

  • Estou permitindo que a ansiedade determine minhas decisões?

  • Tenho buscado apoio quando preciso?

  • Como posso crescer em confiança sem negligenciar o cuidado com minha saúde emocional?


CONCLUSÃO PASTORAL


Vivemos em uma geração profundamente marcada pela ansiedade.


Talvez nunca tenhamos tido tantos recursos tecnológicos e, ao mesmo tempo, convivido com tanta inquietação interior.


Isso nos lembra que a paz verdadeira não nasce do controle absoluto das circunstâncias.


Ela nasce do relacionamento com Deus.


Ao longo deste artigo vimos que a ansiedade não deve ser banalizada nem espiritualizada.


Ela precisa ser compreendida.


A ciência nos ajuda a entender seu funcionamento.


A psicanálise nos ajuda a escutar aquilo que ela comunica.


A Bíblia nos conduz ao Deus que permanece presente mesmo quando nossa alma está inquieta.


Essa integração não diminui a autoridade das Escrituras.


Ao contrário, revela a beleza de uma visão cristã que reconhece o ser humano em toda a sua complexidade.


Como teólogo, acredito que uma igreja madura deve ser um lugar onde pessoas ansiosas encontrem acolhimento, verdade, esperança e responsabilidade.


Que jamais sejamos conhecidos por oferecer respostas simplistas a problemas profundos.


Que sejamos conhecidos por refletir o caráter de Cristo.


Um Salvador que nunca ignorou o sofrimento humano.


Um Senhor que continua dizendo:

"Venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso." (Mateus 11:28).


Próximo artigo da série

5 mitos sobre a ansiedade que impedem muitas pessoas de buscar ajuda.

 

Por Carlos Henrique Müller Filho – Teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista, especialista em neurociências na prática clínica e neuropsicanálise.

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