Como a igreja deve acolher pessoas com Borderline?
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Como a igreja deve acolher pessoas com Borderline?
Acolher não significa diagnosticar, controlar ou justificar. Significa caminhar com verdade, graça e responsabilidade.
Imagine uma pessoa chegando à igreja depois de uma semana difícil. Ela está emocionalmente exausta. Chorou. Sentiu-se rejeitada. Teve uma discussão com alguém que ama e, poucas horas depois, experimentou uma sensação intensa de abandono. Talvez tenha dito coisas das quais se arrependeu. Talvez tenha se afastado de todos.
Talvez tenha procurado desesperadamente alguém que pudesse dizer: "Eu estou aqui. Você não está sozinho." Mas, em vez disso, alguém respondeu: "Você precisa ter mais fé." Talvez outro tenha dito: "Isso é falta de oração." E alguém ainda pode ter concluído: "Essa pessoa é muito complicada."
Sem perceber, a igreja que deveria ser lugar de acolhimento tornou-se mais um lugar onde aquela pessoa precisa esconder o próprio sofrimento. Essa situação precisa ser repensada.
Quando falamos sobre Transtorno de Personalidade Borderline, estamos falando de uma condição complexa, marcada por dificuldades importantes na regulação emocional, na percepção de si mesmo e nos relacionamentos. A literatura brasileira descreve também a presença de impulsividade, medo intenso de abandono, sentimentos de vazio, instabilidade afetiva e, em alguns casos, comportamentos de autolesão e risco suicida.
Mas existe uma questão que ultrapassa o diagnóstico: Como a igreja deve responder quando uma pessoa sofre dessa maneira?
A resposta não pode ser nem abandono nem ingenuidade. Precisamos aprender a acolher.
A primeira coisa que a igreja precisa abandonar é o preconceito
Existe uma palavra que aparece frequentemente quando pessoas com Borderline são descritas: "Manipuladoras."
É verdade que determinados comportamentos podem ser percebidos pelos familiares ou profissionais como tentativas de controlar o ambiente, manter vínculos ou evitar o abandono. Mas transformar isso em uma definição da pessoa é um erro.
Uma pessoa não é o seu diagnóstico. Ela não é "o Borderline". Ela é uma pessoa que apresenta um transtorno de personalidade e que continua possuindo história, dignidade, desejos, capacidades, limitações e possibilidades de mudança.
Pesquisas brasileiras recentes têm chamado atenção justamente para a complexidade das relações interpessoais no Borderline e para a necessidade de compreender esses comportamentos sem reduzir o indivíduo a estereótipos. Um estudo publicado na Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, por exemplo, discute a complexidade da empatia e das interações interpessoais no transtorno e aponta a importância de reduzir o estigma. A igreja precisa aprender essa diferença.
Comportamento difícil não transforma uma pessoa em uma pessoa descartável.
Acolher não significa concordar com tudo
Aqui precisamos ter bastante cuidado. Quando falamos em acolhimento, algumas pessoas imaginam que isso significa permitir qualquer comportamento. Não significa.
Acolher uma pessoa com Borderline não significa aceitar agressões, ameaças, manipulações, violência ou desrespeito. Amor cristão não é ausência de limites. Jesus acolhia pessoas profundamente feridas, mas nunca transformou amor em permissividade. Por isso, uma igreja madura precisa ser capaz de dizer: "Nós queremos caminhar com você." E também: "Esse comportamento não pode continuar."
Essas duas afirmações podem coexistir. Na verdade, precisam coexistir. Porque limites também podem ser uma forma de cuidado.
Quando uma comunidade estabelece limites claros, previsíveis e coerentes, ela não está necessariamente rejeitando a pessoa. Está oferecendo uma estrutura relacional mais segura.
Não transforme a igreja em consultório
Esse é outro erro que precisamos evitar. A igreja possui uma missão espiritual. Ela pode oferecer comunhão. Oração. Escuta. Acompanhamento. Discipulado. Amizade. Pertencimento. Esperança. Mas isso não significa que a igreja deva substituir o psiquiatra, o psicólogo ou a psicoterapia.
O Transtorno de Personalidade Borderline é uma condição clínica que exige avaliação profissional e, quando indicado, tratamento especializado.
A psicoterapia estruturada possui papel central no tratamento. Abordagens como a Terapia Comportamental Dialética e a Terapia Baseada em Mentalização estão entre as intervenções estudadas para esse transtorno. O tratamento pode também envolver cuidados psiquiátricos e medicamentos quando existem sintomas ou condições associadas que justifiquem seu uso.
A igreja não perde sua importância porque existe tratamento psicológico ou psiquiátrico. Pelo contrário. Ela pode tornar-se uma importante rede de apoio enquanto o tratamento acontece.
O problema começa quando alguém diz: "Você não precisa de psicólogo. Basta confiar em Deus." Isso não é uma demonstração de fé. É uma compreensão equivocada tanto da saúde mental quanto da própria providência de Deus.
Fé não elimina automaticamente sofrimento psíquico
Esse talvez seja um dos pontos mais delicados para a igreja. Ainda existe uma tendência de interpretar sofrimento psicológico exclusivamente em categorias espirituais.
A pessoa está ansiosa? "Falta fé."
Está deprimida? "Precisa orar mais."
Está emocionalmente desregulada? "Precisa se entregar completamente a Deus."
Mas a Bíblia não nos autoriza a reduzir todo sofrimento humano a uma única causa. A Escritura apresenta seres humanos que choram, sofrem, entram em crise, experimentam medo, sentem-se abandonados e questionam suas próprias forças.
Os Salmos estão cheios de pessoas que falam com Deus a partir de lugares emocionalmente muito difíceis. Portanto, a existência de sofrimento psíquico não significa automaticamente ausência de fé.
Uma pessoa pode amar profundamente a Cristo e, ao mesmo tempo, precisar de tratamento psicológico.
Pode orar e precisar de medicação. Pode confiar em Deus e continuar enfrentando dificuldades emocionais. Pode participar da igreja e precisar de acompanhamento especializado. Essas coisas não são necessariamente contraditórias.
O que fazer quando a pessoa entra em crise?
Aqui a igreja precisa abandonar improvisações. Uma pessoa em intenso sofrimento emocional pode apresentar comportamento impulsivo, desesperança, autolesão ou pensamentos relacionados à morte.
Nesse momento, não é adequado responder simplesmente com uma frase bíblica e encerrar a conversa. A Bíblia deve estar presente, mas o cuidado precisa ser responsável. Quando existe risco significativo, a prioridade é a segurança da pessoa e o encaminhamento adequado para serviços de saúde e profissionais capacitados.
A igreja pode permanecer próxima. Pode ajudar a pessoa a não ficar sozinha. Pode entrar em contato com familiares ou pessoas responsáveis quando isso for necessário e apropriado. Pode acompanhar o acesso ao atendimento. Pode continuar orando. Mas não deve tentar resolver sozinha uma situação que ultrapassa sua competência. Isso não é falta de fé. É responsabilidade.
A escuta pastoral precisa ser diferente do interrogatório
Imagine alguém dizendo: "Eu estou com medo de ser abandonado." Uma resposta inadequada seria: "Mas ninguém está abandonando você. Você está exagerando." Talvez a pessoa esteja interpretando a situação de maneira distorcida. Mas, naquele momento, a experiência emocional é real. Uma resposta pastoral mais madura poderia ser:
“Eu percebo que isso está sendo muito doloroso para você. Vamos tentar entender o que aconteceu.”
Existe uma diferença enorme entre validar a experiência emocional e confirmar automaticamente a interpretação da pessoa. Podemos dizer:
"Eu reconheço que você está sofrendo." Sem necessariamente dizer:
"Sua interpretação da situação está correta." Essa distinção é extremamente importante. Acolher a emoção não significa validar toda interpretação.
Não use a Bíblia como arma
Existe uma maneira equivocada de usar a Escritura no aconselhamento. A pessoa fala sobre medo de rejeição. O conselheiro responde: "Você precisa confiar mais em Deus."
A pessoa fala sobre raiva. "Você precisa controlar seu temperamento."
A pessoa fala sobre vazio. "Você precisa se aproximar mais de Cristo."
A pessoa fala sobre autolesão. "Isso é pecado."
Talvez algumas dessas afirmações contenham elementos teológicos verdadeiros. Mas podem ser pastoralmente inadequadas quando utilizadas sem escuta, contexto e discernimento.
A Bíblia não foi dada para silenciar pessoas feridas. Ela foi dada para conduzi-las à verdade. Isso significa que a Palavra precisa ser utilizada não como instrumento de acusação, mas como caminho de compreensão, esperança, arrependimento, graça e restauração.
Cristo não tratava pessoas como diagnósticos
Quando olhamos para os Evangelhos, percebemos algo profundamente importante. Jesus encontrava pessoas. Não apenas problemas. Ele conversava com pessoas. Perguntava. Escutava. Confrontava. Perdoava. Chamava ao arrependimento. Restaurava.
E também estabelecia verdades. Cristo não confundia compaixão com aprovação de tudo. Mas também não confundia pecado, sofrimento ou fragilidade com desumanização. Esse é um princípio precioso para o aconselhamento pastoral.
A pessoa precisa ser vista antes de ser orientada.
Antes de perguntar: "Como podemos corrigir esse comportamento?"
precisamos perguntar: "O que essa pessoa está vivendo?"
Antes de oferecer uma resposta: "O que ela está tentando comunicar?" Antes de concluir: "Por que ela está agindo assim?"
E, principalmente: "Como posso permanecer presente sem perder a verdade?"
A igreja pode oferecer algo que nenhum consultório oferece
É importante reconhecer também o outro lado. A psicoterapia possui um lugar insubstituível. A psiquiatria possui um lugar insubstituível. Mas a igreja possui uma dimensão comunitária que não deve ser desprezada. Uma pessoa com Borderline pode viver experiências intensas de rejeição, abandono, instabilidade e solidão.
Nesse contexto, uma comunidade cristã saudável pode oferecer algo profundamente significativo: pertencimento. Não um pertencimento baseado em desempenho. Não um pertencimento condicionado à estabilidade emocional perfeita. Não um pertencimento que desaparece quando a pessoa entra em crise. Mas uma comunidade capaz de dizer: "Você é uma pessoa, não o seu diagnóstico. Estamos aqui para caminhar com você."
Isso não significa transformar a igreja em um espaço sem limites. Significa criar uma comunidade suficientemente madura para combinar acolhimento com responsabilidade.
Cuidado também significa ensinar limites
Existe outro perigo. Às vezes, por medo de parecer sem amor, a igreja pode ensinar pessoas a suportarem situações que deveriam ser confrontadas. Isso também é prejudicial. Uma pessoa que convive com alguém com Borderline precisa compreender que pode estabelecer limites. Pais podem estabelecer limites. Cônjuges podem estabelecer limites. Líderes podem estabelecer limites. Amigos podem estabelecer limites.
O amor cristão não exige que uma pessoa se coloque continuamente em situações de violência emocional. Perdoar não significa abandonar limites. Compreender não significa aceitar abuso. Acolher não significa permitir destruição.
Essas distinções são fundamentais para que o aconselhamento pastoral não produza novas vítimas enquanto tenta ajudar alguém em sofrimento.
A igreja também precisa cuidar dos cuidadores
Familiares e pessoas próximas podem experimentar enorme desgaste. Podem viver períodos de preocupação constante. Podem sentir culpa.
Podem não saber como reagir às crises. Podem alternar entre compaixão, raiva, medo, cansaço e impotência.
Por isso, não devemos cuidar somente da pessoa diagnosticada. Precisamos cuidar também daqueles que caminham ao lado dela. Um estudo brasileiro sobre o programa Family Connections, realizado com familiares de pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline, encontrou redução da sobrecarga objetiva e melhora na resiliência familiar após a intervenção. Isso reforça uma ideia pastoral importante: a família também precisa ser cuidada e orientada.
Uma igreja saudável não pergunta apenas: "Como podemos ajudar essa pessoa?" Pergunta também: "Como podemos ajudar aqueles que estão tentando sustentá-la?"
O papel do aconselhamento pastoral
O aconselhamento pastoral pode ocupar uma posição importante nesse processo, desde que compreenda seus limites. Seu papel não é diagnosticar. Não é prescrever medicamentos. Não é substituir psicoterapia. Não é disputar espaço com a psiquiatria.
Seu papel pode ser oferecer presença, escuta, discernimento espiritual, acompanhamento, comunidade e integração da experiência de sofrimento com a fé cristã. E existe uma contribuição particularmente importante: ajudar a pessoa a não interpretar seu diagnóstico como sua identidade.
Ela pode ter Borderline. Mas ela não é "o Borderline". Ela pode ter comportamentos impulsivos. Mas não está condenada a permanecer assim. Pode ter relacionamentos difíceis. Mas isso não significa que seja incapaz de amar. Pode experimentar intenso sofrimento. Mas isso não significa que Deus a tenha abandonado.
O diagnóstico descreve uma condição clínica. Não determina o valor de uma pessoa diante de Deus.
Precisamos trocar o julgamento pela responsabilidade
Talvez uma das maiores mudanças que a igreja precise fazer seja esta.
Em vez de perguntar: "Por que essa pessoa é tão difícil?" perguntar:
"Como podemos ajudá-la de maneira responsável?" Em vez de:
"Ela precisa ter mais fé." perguntar: "Como podemos ajudá-la a permanecer vinculada a Deus e, ao mesmo tempo, acessar o cuidado de que necessita?"
Em vez de: "Ela está manipulando." perguntar: "O que esse comportamento está tentando comunicar e quais limites precisamos estabelecer?" Isso não elimina a responsabilidade pessoal. Pelo contrário. A verdadeira compaixão não infantiliza. Ela ajuda a pessoa a crescer.
Acolher é caminhar, não carregar
Existe uma diferença importante entre acompanhar alguém e assumir a responsabilidade pela vida dessa pessoa. A igreja não pode carregar tudo. O pastor, o líder, o conselheiro ou o amigo não podem estar disponíveis vinte e quatro horas por dia para resolver todas as crises. Isso não é amor. É uma expectativa impossível.
A pessoa precisa aprender gradualmente a utilizar diferentes recursos de cuidado. Família. Amigos. Igreja. Psicoterapia. Psiquiatria. Comunidade. Espiritualidade. Cada um possui seu lugar. Uma rede saudável é melhor do que um único cuidador tentando resolver tudo. E talvez seja aqui que encontramos o verdadeiro sentido do acolhimento
Acolher alguém com Borderline não significa dizer: "Tudo o que você faz está certo." Também não significa: "Você precisa mudar antes de ser aceito." Significa dizer: "Eu reconheço sua dor, mas não vou mentir sobre ela." "Eu reconheço sua dignidade, mas não vou ignorar seus comportamentos destrutivos." "Eu quero caminhar com você, mas não vou ocupar o lugar do profissional que você precisa." "Eu ofereço graça, mas também acredito que você pode crescer."
Esse talvez seja um dos maiores desafios da igreja contemporânea. Aprender a acolher sem romantizar. Confrontar sem humilhar. Estabelecer limites sem abandonar. Orar sem negligenciar a ciência. Buscar tratamento sem abandonar a fé. E, acima de tudo, enxergar a pessoa antes do diagnóstico.
Cristo continua sendo o centro
Para uma perspectiva cristã, o objetivo final não é simplesmente produzir uma pessoa emocionalmente ajustada. Também não é usar a psicologia para substituir a fé.
O objetivo é cuidar integralmente de pessoas que pertencem a Deus.
A fé cristã não precisa competir com a ciência. A ciência pode ajudar a compreender os mecanismos do sofrimento. A psicoterapia pode ajudar a desenvolver novas formas de responder a esse sofrimento.
A psiquiatria pode contribuir quando há necessidade de intervenção médica. O aconselhamento pastoral pode oferecer acompanhamento espiritual. E a igreja pode oferecer aquilo que nenhum tratamento isolado consegue produzir da mesma maneira: comunidade. Tudo isso pode caminhar junto.
Porque Deus não nos chama a escolher entre verdade e compaixão.
Em Cristo, verdade e graça não são inimigas. "Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo." Gálatas 6:2
Levar a carga de alguém não significa viver a vida por ela. Significa caminhar ao lado. Significa ajudar quando ela não consegue caminhar sozinha. Significa também ensinar que existem outros caminhos de cuidado. Significa reconhecer limites. Significa permanecer presente.
E talvez seja exatamente isso que uma pessoa em profundo sofrimento emocional precise encontrar quando entra pela porta de uma igreja:
Não alguém que diga: "Você precisa parar de ser assim." Mas alguém capaz de dizer: "Eu vejo que você está sofrendo. Vamos caminhar juntos, buscar a verdade e encontrar o cuidado de que você precisa."
Essa é uma igreja que acolhe. Essa é uma igreja que cuida. Essa é uma igreja que não precisa escolher entre fé e ciência, graça e responsabilidade, compaixão e verdade.
Porque quando Cristo está no centro, cuidar do sofrimento humano também significa aprender a amar o ser humano em sua complexidade.
Seguindo Seus Passos
Teologia • Psicanálise • Neurociências • Aconselhamento Pastoral
Por Carlos Henrique Müller Filho – teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista, especialista em neurociências na pratica clínica e neuropsicanálise.


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