Narcisismo e manipulação
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Narcisismo e manipulação
Quando o relacionamento passa a girar em torno do controle
Existe uma palavra que aparece constantemente quando falamos sobre relacionamentos difíceis: manipulação. "Ele está me manipulando." "Ela está fazendo isso para me controlar." "Isso é gaslighting." "Ele é narcisista." Às vezes, essas afirmações descrevem situações reais e graves. Mas existe um problema. Quanto mais essas palavras entram no vocabulário cotidiano, maior é o risco de começarmos a utilizá-las para explicar qualquer comportamento que nos desagrade.
Uma pessoa pode discordar de nós sem nos manipular. Pode estabelecer um limite sem nos controlar. Pode estar errada sem ser narcisista. Pode fazer uma crítica injusta sem estar praticando gaslighting. Por isso, precisamos ser cuidadosos. Manipulação não é simplesmente tentar influenciar alguém. Manipulação envolve uma dinâmica na qual a influência é utilizada de maneira desonesta, coercitiva ou instrumental, frequentemente reduzindo a liberdade do outro e favorecendo os interesses de quem manipula.
No funcionamento narcísico patológico, essa questão pode assumir uma forma particularmente complexa porque a relação com o outro pode estar profundamente ligada à necessidade de preservar a autoestima, a imagem de superioridade e o controle da relação. Estudos sobre Transtorno da Personalidade Narcisista encontram associações com estilos interpessoais dominantes, intrusivos e vingativos, embora isso não signifique que toda pessoa com traços narcísicos apresente essas características da mesma maneira ou em todas as relações.
A pergunta, portanto, não é simplesmente: "O narcisista manipula?" A pergunta mais importante é: "O que acontece quando a necessidade de preservar a própria imagem passa a exigir o controle do outro?"
Influenciar não é necessariamente manipular
Essa distinção é fundamental. Todos nós influenciamos pessoas. Quando digo: "Eu gostaria que você fosse comigo." Estou tentando influenciar uma decisão. Quando digo: "Fiquei triste quando você fez isso." Estou comunicando uma experiência emocional. Quando digo: "Não concordo com sua decisão." Estou expressando uma posição. Nada disso é necessariamente manipulação. Relacionamentos saudáveis são construídos por negociação, influência, diálogo, persuasão e até conflito. O problema aparece quando a liberdade do outro deixa de ser respeitada.
A pessoa já não está simplesmente tentando convencer. Ela precisa fazer o outro ceder. E, para isso, pode utilizar culpa, medo, confusão, ameaça, silêncio punitivo, desqualificação ou distorção dos acontecimentos. A relação deixa de ser: "Quero que você compreenda meu ponto de vista." e passa a ser: "Você precisa enxergar a realidade da maneira que eu determino." Essa diferença parece pequena. Mas psicologicamente é enorme.
Por que o controle pode se tornar tão importante?
Aqui entramos em uma questão central do funcionamento narcísico. A autoimagem de uma pessoa não existe isoladamente. Ela é continuamente afetada pelas relações. O outro pode admirar. Criticar. Rejeitar. Discordar. Ignorar. Reconhecer. Ou simplesmente não confirmar a imagem que queremos transmitir. Para alguém cujo funcionamento narcísico depende fortemente de reconhecimento e manutenção da autoestima, essas experiências podem ser vividas como ameaças importantes.
A literatura sobre narcisismo descreve justamente uma combinação de busca de admiração, rivalidade e retaliação, especialmente quando a pessoa percebe que sua posição ou superioridade está sendo ameaçada. Isso ajuda a compreender por que determinados conflitos aparentemente pequenos podem adquirir uma dimensão desproporcional.
Não é apenas: "Você discordou de mim." Pode ser experimentado internamente como: "Você está me diminuindo." Não é apenas: "Você estabeleceu um limite." Pode ser vivido como: "Você está retirando de mim o controle." Não é apenas: "Você não me admirou." Pode ser sentido como: "Você está questionando meu valor." E, quando uma ameaça à autoimagem é percebida, podem surgir respostas defensivas. Entre elas, o controle pode se tornar uma tentativa de recuperar estabilidade.
A manipulação pode começar de maneira quase invisível
Esse é um dos motivos pelos quais determinadas relações são tão difíceis de compreender. A manipulação nem sempre começa com uma grande agressão. Pode começar com pequenas alterações na dinâmica da relação. "Você está exagerando." "Eu só estou tentando ajudar." "Você entendeu errado." "Se você realmente me amasse, faria isso." "Depois de tudo que fiz por você?" "Você está sendo ingrato." "Eu só quero o seu bem."
À primeira vista, algumas dessas frases podem parecer banais. E uma frase isolada não permite concluir que existe manipulação. O problema está no padrão. Quando repetidamente a pessoa precisa abandonar sua percepção, seus limites ou suas necessidades para evitar a reação do outro, alguma coisa importante está acontecendo.
O relacionamento começa a ser organizado pela tentativa de evitar consequências. "Se eu discordar, ele ficará furioso." "Se eu disser não, ela vai me punir com silêncio." "Se eu questionar, ele vai dizer que estou louco." "Se eu falar sobre o que aconteceu, ela vai inverter tudo." Nesse momento, a pessoa já não está simplesmente se relacionando. Ela está tentando administrar o comportamento do outro para se proteger.
E o silêncio?
O silêncio merece uma distinção importante. Existe o silêncio saudável. Às vezes precisamos de tempo para pensar. Podemos dizer: "Estou muito irritado agora. Preciso de algumas horas para conseguir conversar sem piorar a situação." Isso é diferente de utilizar o silêncio deliberadamente para punir, provocar medo ou obrigar o outro a ceder. O problema não é simplesmente ficar em silêncio. É transformar o silêncio em instrumento de poder.
A mensagem implícita passa a ser: "Você só terá acesso a mim novamente quando fizer aquilo que eu quero." Isso pode produzir ansiedade intensa em quem está do outro lado. E, pouco a pouco, a pessoa aprende: ceder é mais seguro do que discordar.
E a culpa?
A culpa também pode ser utilizada de maneira manipulativa. Imagine que alguém estabeleça um limite legítimo: "Hoje não posso fazer isso." A resposta poderia ser: "Eu entendo. Tudo bem." Mas pode ser: "Depois de tudo que fiz por você, é assim que você me trata?" Ou: "Você mudou." Ou: "Eu faria isso por você sem pensar duas vezes." Ou: "Você está se tornando uma pessoa egoísta."
Perceba o movimento. A conversa deixou de ser sobre o limite. Agora a pessoa precisa provar que não é egoísta. Ela passa a defender sua identidade. E o limite original desaparece. Esse é um mecanismo importante da manipulação: deslocar o foco da questão para a culpa da outra pessoa.
A inversão de responsabilidade
Outro padrão que pode aparecer é a inversão da responsabilidade. A pessoa é confrontada: "Você me desrespeitou." E responde: "Eu só fiz isso porque você me provocou." A conversa deixa de ser sobre o comportamento de quem causou o dano. Agora o foco passa a ser o comportamento de quem foi ferido. Isso não significa que a outra pessoa seja sempre inocente. Relacionamentos são complexos e conflitos podem ser recíprocos.
Mas existe uma diferença entre discutir responsabilidades e recusar sistematicamente qualquer responsabilidade pessoal. Uma relação saudável permite: "Eu errei." "Entendi o que fiz." "Isso machucou você." "Preciso reparar." Quando isso é praticamente impossível, o relacionamento se torna muito difícil.
E o gaslighting?
Aqui precisamos ter ainda mais cuidado. Hoje, praticamente qualquer discordância é chamada de gaslighting. Isso está errado. Gaslighting é um fenômeno específico de manipulação psicológica no qual a pessoa é levada a questionar sua própria percepção, memória, julgamento ou compreensão da realidade. Uma revisão sistemática recente destaca que o conceito envolve manipulação cognitiva e perceptiva, abuso emocional e psicológico e relações de poder e controle.
Um estudo brasileiro publicado na Revista de Administração de Empresas também descreve o gaslighting como uma forma de manipulação que pode minar a confiança da pessoa em seus próprios sentidos, memória e julgamento. Portanto, existe uma diferença entre: "Eu me lembro de outra maneira." e: "Isso nunca aconteceu. Você está imaginando coisas. Você está ficando louco."
A primeira pode ser simplesmente uma divergência de memória. A segunda, quando utilizada repetidamente para desestabilizar a percepção do outro, pode fazer parte de uma dinâmica de gaslighting. Essa distinção é fundamental.
O problema não é apenas a mentira
Gaslighting não é simplesmente mentir. Uma pessoa pode mentir por diversos motivos sem necessariamente construir uma estratégia sistemática para destruir a confiança do outro em sua própria percepção. No gaslighting, existe algo mais profundo: a realidade da outra pessoa passa a ser constantemente desqualificada.
Ela começa a perguntar: "Será que estou exagerando?" "Será que entendi errado?" "Será que estou ficando confuso?" "Será que sou realmente o problema?" "Será que isso aconteceu mesmo?" E quanto mais a própria percepção é questionada, maior pode se tornar a dependência da versão apresentada pelo manipulador. É justamente aí que o controle se fortalece.
Quando o cuidado vira controle
Existe ainda uma forma particularmente difícil de reconhecer. A manipulação pode aparecer disfarçada de cuidado. "Eu só faço isso porque me preocupo com você." "Não quero que você saia com essas pessoas porque elas não fazem bem para você." "Estou tentando proteger você." "Se eu não controlar isso, você vai se prejudicar."
Cuidar não é controlar. Cuidado respeita a subjetividade do outro. Controle precisa reduzir a autonomia do outro. A diferença pode ser percebida por uma pergunta simples: "A pessoa continua livre para discordar?" Se a resposta for não, talvez não estejamos diante de cuidado, mas de controle.
A Psicanálise: por que alguém precisa controlar o outro?
A Psicanálise permite fazer uma pergunta que vai além do comportamento visível: "O que está sendo protegido por esse controle?" Porque o controle pode ter uma função defensiva. O outro pode representar uma ameaça à imagem que a pessoa precisa sustentar. A discordância pode despertar vergonha. A rejeição pode despertar angústia. A crítica pode ser vivida como humilhação.
A autonomia do outro pode ser experimentada como abandono. A dependência pode ser vivida como fraqueza.
O resultado pode ser uma tentativa intensa de controlar a relação para evitar estados internos difíceis. Uma perspectiva psicanalítica contemporânea sobre narcisismo destaca justamente como o outro pode ser simultaneamente necessário para sustentar a identidade e ameaçador para essa mesma identidade. Essa é uma contradição fundamental: "Eu preciso de você, mas não consigo tolerar que você seja verdadeiramente diferente de mim." Então o outro é desejado. Mas também controlado. É necessário. Mas também desvalorizado. É procurado. Mas também rejeitado quando ameaça a autoimagem.
O outro como objeto
Aqui aparece uma questão ainda mais profunda. Em uma relação madura, o outro é reconhecido como sujeito. Ele possui uma vida psíquica própria. Desejos próprios. Limites próprios. Uma perspectiva própria. Na dinâmica narcísica mais grave, porém, pode ocorrer uma redução do outro à função que ele desempenha: admirador. cuidador. provedor. parceiro sexual. fonte de status. fonte de validação. alvo da culpa. responsável pela regulação emocional.
O outro deixa de ser percebido em sua complexidade. Passa a ser utilizado para determinada função. Um artigo brasileiro de orientação psicanalítica sobre relações narcísicas descreve justamente processos de desumanização nos quais o outro pode ser reduzido a uma função de utilização e manipulação, dentro de uma relação de domínio. É nesse ponto que a manipulação deixa de ser apenas um comportamento desagradável. Ela passa a revelar algo sobre a estrutura da relação: o outro não está sendo reconhecido como outro.
Mas precisamos evitar outro erro
Tudo isso não significa que toda pessoa com Transtorno da Personalidade Narcisista seja um manipulador consciente. Essa distinção é muito importante. Alguns comportamentos podem ocorrer de maneira deliberada. Outros podem ser altamente automatizados. Outros podem surgir como respostas defensivas diante de vergonha, ameaça ou desregulação emocional.
A literatura sobre empatia no narcisismo mostra que o funcionamento empático pode variar conforme motivação e situação. Alguns indivíduos podem ter capacidade de compreender estados mentais, mas se desligar da experiência do outro quando isso ameaça sua posição ou desperta vulnerabilidade. Portanto: comportamento manipulativo não significa necessariamente um plano consciente e calculado. Mas isso não elimina seus efeitos. Uma pessoa pode ferir o outro sem ter planejado conscientemente feri-lo. E o sofrimento produzido continua sendo real.
Compreender não é justificar
Esse princípio precisa permanecer no centro da nossa série. Podemos compreender que alguém possui vergonha profunda. Podemos compreender sua necessidade de reconhecimento. Podemos compreender sua dificuldade diante da crítica. Podemos compreender sua história. Podemos compreender seus mecanismos defensivos. Mas nada disso transforma abuso em amor. Explicação não é absolvição.
Compreender por que alguém controla não significa aceitar ser controlado. Compreender por que alguém manipula não significa permitir manipulação. Compreender a fragilidade do outro não exige sacrificar a própria dignidade. Essa distinção é fundamental no aconselhamento.
As Neurociências podem ajudar a compreender o ciclo
Quando uma pessoa percebe uma situação como ameaça, sistemas envolvidos na detecção de ameaça, estresse e regulação emocional entram em ação. Isso pode afetar a capacidade de refletir antes de agir. No funcionamento narcísico, críticas, rejeição e ameaças à autoestima podem assumir grande importância emocional. Mas precisamos evitar um erro comum: o cérebro não é uma desculpa moral.
Uma resposta emocional intensa pode ajudar a explicar determinado comportamento. Não significa que o comportamento seja inevitável. Nem significa que a pessoa não tenha responsabilidade. A própria literatura clínica sobre narcisismo aponta para a importância da regulação emocional, da reflexão sobre os próprios estados mentais e da capacidade de considerar a perspectiva do outro no tratamento. Em outras palavras: compreender o cérebro pode explicar a reação. Mas não determina a escolha.
O ciclo da manipulação
Em muitos relacionamentos problemáticos, podemos encontrar um ciclo parecido:
1. Ameaça - Algo desafia a autoimagem ou o controle.
2. Reação - Surge raiva, vergonha, medo ou sensação de humilhação.
3. Controle - A pessoa tenta recuperar poder sobre a situação.
4. Manipulação - Pode utilizar culpa, silêncio, desqualificação, vitimização ou distorção.
5. Concessão - O outro cede para reduzir o conflito.
6. Alívio - A tensão diminui temporariamente.
7. Repetição - O padrão volta quando surge uma nova ameaça.
Esse ciclo ajuda a explicar por que algumas relações parecem viver em uma espécie de montanha-russa. Conflito. Explosão. Culpa. Pedido de desculpas. Promessas. Reaproximação. Nova tensão. Novo conflito. Nem todo relacionamento com conflitos segue esse ciclo. Mas, quando o padrão é repetitivo e unilateral, precisamos prestar atenção.
Por que é tão difícil sair desse ciclo?
Porque a manipulação frequentemente não produz apenas medo. Pode produzir também esperança. A pessoa pensa: "Agora vai ser diferente." "Ele pediu desculpas." "Ela reconheceu." "Ele está tentando." "Talvez eu tenha exagerado." E, depois de um período de tranquilidade, a relação parece voltar ao normal. Isso pode tornar a situação emocionalmente confusa.
Não é simplesmente: "Ele é sempre ruim." Existem momentos bons. Carinho. Intimidade. Promessas. Memórias. Projetos. E justamente essa alternância pode tornar mais difícil compreender o padrão. Por isso, uma pergunta importante não é apenas: "Ele já foi carinhoso comigo?" Mas: "Qual é o padrão predominante da relação ao longo do tempo?"
O aconselhamento pastoral precisa evitar dois extremos
Quando alguém procura aconselhamento pastoral por causa de uma relação assim, existem dois erros igualmente perigosos. O primeiro é dizer: "Tenha mais paciência. O amor cristão tudo suporta." Isso pode transformar a fé em instrumento de manutenção do abuso. O segundo é: "Seu marido é narcisista. Abandone imediatamente." Isso substitui o discernimento pastoral por um diagnóstico improvisado.
O caminho responsável é mais cuidadoso. É preciso escutar. Investigar. Diferenciar conflito de abuso. Avaliar riscos. Reconhecer padrões. Considerar limites. E, quando necessário, encaminhar para acompanhamento psicológico ou psiquiátrico e outros serviços de proteção. O aconselhamento pastoral não deve diagnosticar transtornos de personalidade com base em relatos superficiais.
Mas também não deve espiritualizar o sofrimento. Perdão não significa ausência de limites. Amor não significa tolerância ilimitada ao abuso. Submissão cristã não significa aceitar violência psicológica.
O que fazer quando você percebe manipulação?
A primeira mudança talvez seja abandonar a necessidade de vencer todas as discussões. Você não precisa provar sua realidade em cada conversa. Pode aprender a dizer: "Eu vejo essa situação de maneira diferente." "Não concordo." "Esse limite permanece." "Não vou continuar essa conversa enquanto houver agressão." "Precisamos conversar quando estivermos mais calmos." Isso não garante que o outro respeitará seus limites. Mas estabelece uma diferença fundamental: você deixa de negociar sua dignidade para comprar paz momentânea.
O limite não é uma ameaça
Existe uma diferença importante entre ameaça e limite. Ameaça: "Se você fizer isso novamente, vai ver o que acontece." Limite: "Se essa conversa continuar com insultos, eu vou encerrá-la e retomaremos quando houver condições de conversar." A ameaça busca controlar o outro. O limite estabelece o que eu farei para cuidar de mim. Essa diferença é fundamental. Porque estabelecer limites não significa tentar controlar a pessoa. Significa reconhecer que você também possui autonomia.
E se a pessoa negar tudo?
Pode acontecer. A pessoa pode dizer: "Você está exagerando." "Isso nunca aconteceu." "Você é muito sensível." "Você também faz isso." "Todo mundo acha você difícil." Nesse momento, talvez seja importante parar de buscar a aprovação de quem está desqualificando sua experiência. Isso não significa assumir automaticamente que sua percepção está correta. Significa procurar referências externas confiáveis.
Converse com um profissional qualificado. Registre acontecimentos importantes quando isso for seguro e pertinente. Procure pessoas maduras e confiáveis. Observe padrões. Não tome decisões importantes exclusivamente no calor de uma discussão. E, sobretudo, não permita que a dúvida produzida pela relação impeça você de buscar ajuda.
A fé cristã não precisa escolher entre verdade e amor
Essa é uma questão pastoral fundamental. Existe uma falsa oposição: ou perdoo, ou estabeleço limites. ou amo, ou me afasto. ou sou compassivo, ou reconheço o abuso. Não precisamos escolher. A verdade também é uma expressão de amor. Jesus não ensinou um amor baseado na negação da realidade. O amor cristão não transforma mentira em verdade para preservar uma aparência de paz.
Paulo escreve: "O amor [...] não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade." 1 Coríntios 13:6 Isso é extremamente importante. O amor não precisa proteger a mentira. Não precisa proteger a manipulação. Não precisa proteger a violência. O amor se alegra com a verdade.
A maturidade começa quando deixamos de tentar controlar o controlador
Talvez essa seja uma das descobertas mais difíceis para quem vive uma relação manipulativa. A pessoa passa anos tentando encontrar a frase perfeita. A explicação perfeita. O momento perfeito. A reação perfeita. A estratégia perfeita. Tudo para finalmente fazer o outro compreender. Mas algumas relações não serão transformadas pela frase certa. Porque reciprocidade não pode ser produzida unilateralmente.
Você pode comunicar. Pode estabelecer limites. Pode buscar ajuda. Pode mudar sua maneira de responder. Mas não pode obrigar alguém a desenvolver responsabilidade, empatia ou desejo genuíno de mudança. Essa é uma verdade dolorosa. Mas também pode ser libertadora.
Então, toda manipulação é narcisismo?
Não. Essa conclusão seria outro erro. Manipulação pode aparecer em diferentes contextos psicológicos e relacionais. Pode ocorrer em relações abusivas sem que exista Transtorno da Personalidade Narcisista. Pode aparecer em pessoas com diferentes padrões de personalidade. Pode ocorrer em conflitos conjugais. Pode acontecer no trabalho. Pode existir em famílias. E pode ser utilizada por pessoas que não apresentam nenhum transtorno mental.
Da mesma maneira: nem toda pessoa com Transtorno da Personalidade Narcisista manipula conscientemente. Precisamos abandonar os rótulos fáceis. O objetivo não é encontrar "o vilão". É compreender o padrão relacional.
A pergunta mais importante
Talvez a melhor pergunta para avaliar uma relação não seja: "Essa pessoa é narcisista?" Mas: "O que acontece comigo quando estou nessa relação?" Posso discordar? Posso dizer não? Posso expressar sofrimento? Posso ter amigos? Posso ter opinião própria? Posso crescer sem ser diminuído? Posso cometer erros sem ser humilhado? Posso estabelecer limites? Posso falar sobre um problema sem a conversa ser sempre invertida contra mim? Posso existir sem precisar administrar constantemente o humor do outro? Essas perguntas dizem muito mais sobre a saúde de uma relação do que um diagnóstico feito pela internet.
O outro não precisa ser controlado para que eu me sinta seguro
Essa talvez seja uma das grandes questões do narcisismo. Quando minha segurança depende de controlar o outro, a liberdade do outro se torna ameaçadora. Se você precisa concordar comigo para que eu me sinta importante... Se você precisa me admirar para que eu me sinta seguro... Se você não pode me criticar para que eu preserve minha autoestima...
Se você precisa fazer aquilo que quero para que eu consiga permanecer emocionalmente estável... então existe um problema profundo. Porque uma relação madura precisa permitir: diferença sem destruição. discordância sem humilhação. limite sem vingança. autonomia sem abandono. verdade sem manipulação.
Conclusão
Manipulação não é simplesmente convencer alguém. É transformar a influência em instrumento de controle, especialmente quando a liberdade, a percepção ou os limites do outro passam a ser sistematicamente enfraquecidos. No funcionamento narcísico patológico, a necessidade de preservar a autoestima e a imagem de si pode contribuir para relações marcadas por domínio, intrusão, rivalidade e retaliação.
Mas precisamos manter a precisão: nem toda pessoa manipuladora é narcisista. nem toda pessoa narcisista manipula conscientemente. nem todo conflito é abuso. nem toda divergência é gaslighting. Precisão é importante porque rótulos podem obscurecer justamente aquilo que precisamos enxergar. No final, talvez a pergunta mais importante seja muito simples: Nesta relação, eu posso continuar sendo eu mesmo?
Posso discordar? Posso dizer não? Posso estabelecer limites? Posso crescer? Posso falar a verdade? Posso existir sem precisar controlar ou ser controlado? Porque relacionamento saudável não significa ausência de conflito. Significa que o conflito não precisa destruir a liberdade do outro.
E, para a fé cristã, isso também significa compreender que amor e verdade não são inimigos. O amor não se alegra com a injustiça. Alegra-se com a verdade. "O amor [...] não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade." 1 Coríntios 13:6 Talvez maturidade emocional seja justamente aprender que: amar alguém não significa controlar alguém. E ser cristão também não significa entregar a própria dignidade para manter uma relação aparentemente pacífica. Perdoar não elimina limites. Compreender não significa aceitar abuso. Amar não significa permitir que o outro destrua sua liberdade.
A verdade pode ser difícil. Mas uma relação que precisa da mentira, da culpa e da manipulação para permanecer de pé já não está funcionando como encontro entre duas pessoas. Está funcionando como uma disputa pelo controle. E, quando isso acontece, talvez o primeiro passo para a mudança seja parar de perguntar: "Como faço essa pessoa mudar?" e começar a perguntar: "O que preciso fazer para recuperar minha liberdade, minha lucidez e minha responsabilidade diante dessa relação?"
Referências principais
Wilson, S., Stroud, C. B., & Durbin, C. E. Interpersonal Dysfunction in Personality Disorders: A Meta-Analytic Review. Psychological Bulletin.
Baskin-Sommers, A., Krusemark, E., & Ronningstam, E. Empathy in Narcissistic Personality Disorder: From Clinical and Empirical Perspectives.
Di Giacomo, E. et al. The dark side of empathy in narcissistic personality disorder.
Irigaray, H. A. R., Stocker, F., & Mancebo, R. C. Gaslighting: a arte de enlouquecer grupos minoritários no ambiente de trabalho. Revista de Administração de Empresas.
Defining Gaslighting in Gender-Based Violence: A Mixed-Methods Systematic Review.
Narcisismo e desamparo: algumas considerações sobre as relações interpessoais na atualidade. Psicologia USP.
Palis Junior, F. Narcisismo perverso na clínica contemporânea: Violência, frustrações e desafios. Revista Brasileira de Psicanálise, 2025.
Por Carlos Henrique Müller Filho – Teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista, especialista em neurociências na pratica clínica e neuropsicanálise.


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