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Quando a preocupação ocupa o lugar da confiança

  • 8 de jun.
  • 3 min de leitura


Vivemos em uma época marcada pela preocupação.


Preocupamo-nos com o futuro, com a saúde, com a família, com o trabalho, com as finanças e com situações que sequer sabemos se acontecerão.


A mente humana possui uma capacidade extraordinária de imaginar possibilidades. Essa habilidade é importante para o planejamento e para a adaptação às exigências da vida.


Entretanto, quando utilizada de forma excessiva, pode transformar-se em uma fonte constante de sofrimento.


Muitas pessoas passam horas, dias ou até anos carregando medos relacionados a acontecimentos que nunca se concretizam.


A preocupação surge da tentativa de antecipar o futuro para evitar a dor. O problema é que, frequentemente, ela produz exatamente aquilo que procura impedir: desgaste emocional, ansiedade e perda da paz.


A ilusão do controle


Por trás de grande parte das preocupações existe um desejo profundamente humano: o desejo de controlar.


Gostaríamos de saber o que acontecerá amanhã.


Gostaríamos de garantir que nada dará errado.


Gostaríamos de eliminar as incertezas da vida.


Mas a realidade nos confronta diariamente com uma verdade difícil de aceitar: nem tudo está sob nosso controle.


A preocupação tenta ocupar esse espaço de incerteza criando cenários, hipóteses e possibilidades. A mente trabalha incessantemente buscando soluções para problemas que ainda não existem.


O resultado é um paradoxo curioso: sofremos hoje por dificuldades que talvez jamais enfrentemos.


O olhar da psicanálise


A psicanálise compreende a preocupação excessiva como uma tentativa do psiquismo de lidar com a insegurança e com a angústia diante do desconhecido.


O futuro é, por natureza, incerto.


Essa incerteza desperta ansiedade porque nos lembra de nossos limites. Não podemos controlar completamente a vida, as pessoas ou os acontecimentos.


Por isso, muitas vezes a mente produz pensamentos repetitivos na tentativa de encontrar segurança.


Entretanto, segurança absoluta não existe.


Quando transformamos a preocupação em hábito, deixamos de viver o presente para habitar continuamente um futuro imaginário.


A vida passa diante de nós enquanto permanecemos presos a cenários que existem apenas dentro de nossa mente.


O que as neurociências nos mostram


As neurociências têm demonstrado que a preocupação constante mantém o organismo em estado de alerta.


O cérebro interpreta ameaças imaginadas de forma semelhante às ameaças reais.


Como consequência, sistemas biológicos relacionados ao estresse permanecem ativados por longos períodos.


O corpo reage.


A mente reage.


As emoções reagem.


O que começou como uma tentativa de proteção pode transformar-se em exaustão emocional.


Isso não significa que devemos ignorar os problemas da vida. Significa apenas que existe uma diferença entre enfrentar uma situação real e sofrer antecipadamente por algo que ainda não aconteceu.


A perspectiva da fé


A fé cristã não elimina os desafios da existência.


Também não oferece a promessa de uma vida livre de dificuldades.


Mas ela propõe uma forma diferente de caminhar.


Enquanto a preocupação busca controlar o amanhã, a fé aprende a confiar.


Confiar não significa passividade.


Confiar não significa irresponsabilidade.


Confiar significa reconhecer que existem limites para aquilo que podemos controlar e que a vida não depende exclusivamente de nossas forças.


As palavras de Jesus continuam profundamente atuais:

"Portanto, não vos preocupeis com o amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal." (Mateus 6:34)


Essa não é uma negação da realidade.


É um convite para viver o presente.


Aprender a caminhar


Talvez o verdadeiro desafio não seja eliminar completamente a preocupação.


Talvez seja aprender a não permitir que ela governe nossa vida.


A confiança não surge quando todas as dúvidas desaparecem.


Ela nasce quando continuamos caminhando apesar delas.


Nem sempre teremos respostas.


Nem sempre teremos garantias.


Nem sempre enxergaremos todo o caminho.


Mas podemos continuar avançando um passo de cada vez.


A preocupação tenta controlar o amanhã.


A confiança aprende a caminhar.


E, muitas vezes, é exatamente nesse caminho que descobrimos que não estávamos sozinhos.


Por Carlos Henrique Müller Filho - Teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista e especialista em neurociências na pratica clinica.

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