Quando a preocupação ocupa o lugar da confiança
- 8 de jun.
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Vivemos em uma época marcada pela preocupação.
Preocupamo-nos com o futuro, com a saúde, com a família, com o trabalho, com as finanças e com situações que sequer sabemos se acontecerão.
A mente humana possui uma capacidade extraordinária de imaginar possibilidades. Essa habilidade é importante para o planejamento e para a adaptação às exigências da vida.
Entretanto, quando utilizada de forma excessiva, pode transformar-se em uma fonte constante de sofrimento.
Muitas pessoas passam horas, dias ou até anos carregando medos relacionados a acontecimentos que nunca se concretizam.
A preocupação surge da tentativa de antecipar o futuro para evitar a dor. O problema é que, frequentemente, ela produz exatamente aquilo que procura impedir: desgaste emocional, ansiedade e perda da paz.
A ilusão do controle
Por trás de grande parte das preocupações existe um desejo profundamente humano: o desejo de controlar.
Gostaríamos de saber o que acontecerá amanhã.
Gostaríamos de garantir que nada dará errado.
Gostaríamos de eliminar as incertezas da vida.
Mas a realidade nos confronta diariamente com uma verdade difícil de aceitar: nem tudo está sob nosso controle.
A preocupação tenta ocupar esse espaço de incerteza criando cenários, hipóteses e possibilidades. A mente trabalha incessantemente buscando soluções para problemas que ainda não existem.
O resultado é um paradoxo curioso: sofremos hoje por dificuldades que talvez jamais enfrentemos.
O olhar da psicanálise
A psicanálise compreende a preocupação excessiva como uma tentativa do psiquismo de lidar com a insegurança e com a angústia diante do desconhecido.
O futuro é, por natureza, incerto.
Essa incerteza desperta ansiedade porque nos lembra de nossos limites. Não podemos controlar completamente a vida, as pessoas ou os acontecimentos.
Por isso, muitas vezes a mente produz pensamentos repetitivos na tentativa de encontrar segurança.
Entretanto, segurança absoluta não existe.
Quando transformamos a preocupação em hábito, deixamos de viver o presente para habitar continuamente um futuro imaginário.
A vida passa diante de nós enquanto permanecemos presos a cenários que existem apenas dentro de nossa mente.
O que as neurociências nos mostram
As neurociências têm demonstrado que a preocupação constante mantém o organismo em estado de alerta.
O cérebro interpreta ameaças imaginadas de forma semelhante às ameaças reais.
Como consequência, sistemas biológicos relacionados ao estresse permanecem ativados por longos períodos.
O corpo reage.
A mente reage.
As emoções reagem.
O que começou como uma tentativa de proteção pode transformar-se em exaustão emocional.
Isso não significa que devemos ignorar os problemas da vida. Significa apenas que existe uma diferença entre enfrentar uma situação real e sofrer antecipadamente por algo que ainda não aconteceu.
A perspectiva da fé
A fé cristã não elimina os desafios da existência.
Também não oferece a promessa de uma vida livre de dificuldades.
Mas ela propõe uma forma diferente de caminhar.
Enquanto a preocupação busca controlar o amanhã, a fé aprende a confiar.
Confiar não significa passividade.
Confiar não significa irresponsabilidade.
Confiar significa reconhecer que existem limites para aquilo que podemos controlar e que a vida não depende exclusivamente de nossas forças.
As palavras de Jesus continuam profundamente atuais:
"Portanto, não vos preocupeis com o amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal." (Mateus 6:34)
Essa não é uma negação da realidade.
É um convite para viver o presente.
Aprender a caminhar
Talvez o verdadeiro desafio não seja eliminar completamente a preocupação.
Talvez seja aprender a não permitir que ela governe nossa vida.
A confiança não surge quando todas as dúvidas desaparecem.
Ela nasce quando continuamos caminhando apesar delas.
Nem sempre teremos respostas.
Nem sempre teremos garantias.
Nem sempre enxergaremos todo o caminho.
Mas podemos continuar avançando um passo de cada vez.
A preocupação tenta controlar o amanhã.
A confiança aprende a caminhar.
E, muitas vezes, é exatamente nesse caminho que descobrimos que não estávamos sozinhos.
Por Carlos Henrique Müller Filho - Teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista e especialista em neurociências na pratica clinica.


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