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TRANSTORNO BIPOLAR

há 10 minutos
7 min de leitura

TRANSTORNO BIPOLAR: COMO RECONHECER OS EPISÓDIOS SEM TRANSFORMAR EM DIAGNÓSTICO CADA MUDANÇA DE HUMOR?

 

Mania, hipomania e depressão não são simplesmente versões mais intensas das emoções que todos experimentamos.

 

Depois de compreender que o transtorno bipolar não pode ser reduzido a “altos e baixos”, surge uma pergunta importante: o que diferencia uma oscilação emocional comum de um episódio relacionado ao transtorno bipolar? Essa pergunta exige cuidado. Uma pessoa pode passar alguns dias mais animada, dormir menos por causa de um projeto, ficar irritada diante de uma situação difícil ou atravessar um período de tristeza. Essas experiências fazem parte da vida humana.

 

No transtorno bipolar, entretanto, estamos falando de episódios caracterizados por alterações significativas de humor associadas a mudanças de energia, atividade, sono, pensamento e comportamento, capazes de produzir repercussões importantes na vida da pessoa. Por isso, reconhecer um possível episódio não significa procurar sintomas isolados. Significa observar um padrão, sua intensidade, sua duração, seu contexto e seus efeitos sobre o funcionamento da pessoa.

 

MANIA: QUANDO A ENERGIA DEIXA DE SER APENAS DISPOSIÇÃO

 

A mania pode envolver humor elevado, expansivo ou irritável acompanhado por aumento significativo de energia e atividade. A pessoa pode dormir muito menos sem sentir a mesma necessidade de descanso, falar mais rapidamente, apresentar pensamentos acelerados, sentir-se especialmente capaz ou importante, assumir vários projetos ao mesmo tempo e tomar decisões que normalmente não tomaria.

Também podem surgir comportamentos impulsivos ou de risco.

 

O problema é que, para a própria pessoa, determinadas experiências podem inicialmente parecer positivas. Ela pode sentir-se extremamente produtiva, criativa, confiante ou cheia de possibilidades. Mas sentir-se bem não significa necessariamente estar bem. Em episódios de mania, o julgamento pode ficar comprometido e as consequências podem atingir finanças, trabalho, relacionamentos, sexualidade, segurança e outras áreas da vida. Em quadros graves, podem ocorrer sintomas psicóticos.

 

É justamente por isso que não devemos romantizar a frase: “Eu queria ter aquela energia de novo.” A questão clínica não é simplesmente quanto a pessoa produz.  É o que acontece com ela enquanto produz daquela maneira.

 

HIPOMANIA: QUANDO A ALTERAÇÃO PODE PARECER “UMA FASE BOA”

 

A hipomania apresenta características semelhantes às da mania, mas com menor intensidade e, em geral, menor prejuízo funcional. Esse é um dos motivos pelos quais pode passar despercebida. A pessoa pode sentir-se mais comunicativa, produtiva, criativa ou confiante. Pode precisar de menos sono e apresentar aumento da atividade.

 

Familiares ou amigos, entretanto, podem perceber que aquela pessoa está diferente do seu funcionamento habitual. A hipomania não deve ser confundida com simplesmente estar animado. Uma pessoa pode estar feliz porque recebeu uma boa notícia, iniciou um projeto ou viveu uma experiência significativa. A diferença está no conjunto da alteração e no afastamento do padrão habitual da pessoa.

 

Por isso, uma postagem nas redes sociais jamais é suficiente para determinar se alguém está vivendo hipomania. É necessária avaliação clínica adequada.

 

E A DEPRESSÃO?

 

Existe um erro comum quando se fala em transtorno bipolar: imaginar que o problema está apenas nos períodos de energia excessiva. Não está. Os episódios depressivos podem envolver tristeza profunda, irritabilidade, perda de interesse ou prazer, fadiga, alterações do sono e do apetite, dificuldades de concentração, sentimentos de culpa ou inutilidade e, em alguns casos, pensamentos relacionados à morte ou ao suicídio.

 

Aqui também precisamos evitar simplificações. Todo ser humano pode ficar triste. A tristeza diante de uma perda, uma frustração ou uma mudança importante faz parte da experiência humana. Um episódio depressivo, porém, apresenta características, intensidade, duração e repercussões que ultrapassam uma tristeza passageira.

 

A diferença não está em dizer: “Estou triste, portanto estou deprimido.” Está em compreender o conjunto da experiência e o quanto ela interfere na vida da pessoa.

 

O QUE MUDA ENTRE UM ESTADO EMOCIONAL E UM EPISÓDIO?

 

Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes desta série. Não existe um único sintoma que, isoladamente, permita concluir que alguém tem transtorno bipolar. É necessário considerar diferentes elementos:

 

1.     INTENSIDADE

A alteração é muito diferente do funcionamento habitual da pessoa?

 

2.     DURAÇÃO

Quanto tempo permanece?

 

3.     CONJUNTO DE SINTOMAS

Existem mudanças simultâneas em sono, energia, pensamento, comportamento e humor?

 

4.     FUNCIONAMENTO

O que acontece com trabalho, estudos, relacionamentos, decisões e autocuidado?

 

5.     CONTEXTO

Existe uma explicação situacional evidente ou a alteração parece desproporcional e persistente?

 

6.     HISTÓRIA

Já ocorreram episódios semelhantes anteriormente?

 

Esses elementos fazem parte de uma avaliação clínica muito mais ampla. Diretrizes como as do NICE recomendam considerar história detalhada dos episódios, sintomas entre episódios, possíveis desencadeadores, histórico familiar, fatores psicossociais, comorbidades, saúde física, medicamentos e tratamentos anteriores.

 

O PROBLEMA DE TRANSFORMAR SINTOMAS EM RÓTULOS

 

Vivemos em uma época em que listas de sintomas circulam rapidamente pelas redes sociais. “Você dorme pouco?” “Fala demais?” “Tem muitos projetos?” “Fica triste?”“É impulsivo?” A partir daí, alguém pode concluir: “Talvez eu seja bipolar.” Ou pior: “Meu marido é bipolar.”

 

Esse caminho é perigoso. Um sintoma pode aparecer em diferentes condições, situações de vida ou experiências humanas. Dormir pouco pode acontecer por ansiedade, trabalho, preocupação, hábitos, uso de substâncias, problemas físicos ou diversas outras razões. Impulsividade também não pertence exclusivamente ao transtorno bipolar.

 

Da mesma forma, tristeza não é sinônimo de episódio depressivo. Diagnóstico é construção clínica, não soma de sintomas encontrada na internet.

 

O QUE A PSICANÁLISE PODE ACRESCENTAR?

 

A Psicanálise não substitui a avaliação médica ou psiquiátrica do transtorno bipolar. Mas pode contribuir com perguntas que não se limitam à descrição dos sintomas. Como a pessoa vive a própria experiência? Como ela percebe as mudanças que acontecem consigo? O que ocorre em seus relacionamentos antes, durante e depois dos episódios? Como ela constrói sua imagem de si mesma depois de experiências que talvez tenham produzido perdas, conflitos ou vergonha?

 

Essas perguntas não servem para explicar o transtorno bipolar apenas pela história emocional. Servem para lembrar que um episódio acontece na vida de alguém. Existe um sujeito que experimenta, interpreta, sofre, se relaciona e precisa reconstruir sua vida depois das crises.

 

O QUE A NEUROCIÊNCIA NOS AJUDA A ENXERGAR?

 

A Neurociência amplia a compreensão dos processos envolvidos na regulação do humor, sono, energia, atenção, cognição e comportamento. Também nos ajuda a compreender por que alterações nos ritmos de sono e vigília podem ser relevantes e por que o transtorno bipolar não deve ser interpretado simplesmente como falta de disciplina ou controle emocional.

 

Mas existe um limite importante: explicar mecanismos cerebrais não significa explicar toda a pessoa. O cérebro participa da experiência humana. Ele não esgota a experiência humana.

 

E A TEOLOGIA?

 

A fé cristã precisa aprender a permanecer presente diante do sofrimento sem transformá-lo imediatamente em culpa. Uma pessoa com transtorno bipolar não precisa ouvir que lhe falta fé porque está deprimida. Também não precisa interpretar um episódio de mania como sinal automático de uma experiência espiritual extraordinária. A fé pode oferecer esperança, sentido, comunidade, oração, cuidado e pertencimento.

 

Mas cuidado espiritual não substitui tratamento clínico. A igreja pode caminhar ao lado da pessoa sem assumir o lugar do psiquiatra, do psicólogo ou de outros profissionais envolvidos em seu cuidado. E isso não diminui a fé. Pelo contrário: pode ser uma forma de exercer responsabilidade diante da vida.

 

COMPREENDER SEM ROMANTIZAR

 

Existe uma tendência de transformar alguns aspectos do transtorno bipolar em características desejáveis. “Ele é muito criativo.” “Ela tem uma energia incrível.” “Ele trabalha melhor quando está acelerado.” “Ela fica muito mais interessante assim.”

 

Precisamos ter cuidado. Uma pessoa pode possuir criatividade, inteligência, energia e capacidade de realização independentemente de um episódio de mania ou hipomania. O transtorno não é a fonte de seus dons. Da mesma maneira, seus períodos de sofrimento não anulam suas capacidades. Separar a pessoa do transtorno é fundamental para evitar tanto o estigma quanto a romantização.

 

TRÊS OLHARES SOBRE OS EPISÓDIOS

 

TEOLOGIA

Pergunta sobre dignidade, sofrimento, responsabilidade, graça, esperança e pertencimento.

 

PSICANÁLISE

Investiga subjetividade, história, conflitos, relações e os significados que a experiência assume para aquele sujeito.

 

NEUROCIÊNCIAS

Contribuem para compreender processos relacionados ao cérebro, sono, energia, cognição, comportamento e regulação.

 

Nenhum desses campos precisa ocupar o lugar do outro. O desafio é saber até onde cada olhar pode ir.

 

QUANDO É HORA DE BUSCAR AJUDA?

 

Quando alterações de humor, energia, sono ou comportamento começam a produzir sofrimento significativo, prejuízo no funcionamento, comportamentos de risco ou mudanças que preocupam familiares e pessoas próximas, é importante buscar avaliação profissional.

 

E diante de sintomas graves, especialmente risco de suicídio, psicose ou perda importante de controle, a busca por atendimento deve ser imediata. Não é preciso esperar uma crise destruir relacionamentos, trabalho ou projetos para reconhecer que algo precisa de cuidado. Buscar ajuda não é admitir fracasso. É reconhecer que algumas experiências exigem mais do que força de vontade.

 

PARA REFLETIR

 

Antes de perguntar: “Será que eu sou bipolar?” talvez seja melhor perguntar:


  • O que exatamente está acontecendo?

  • Há quanto tempo isso acontece?

  • Isso representa uma mudança significativa em relação ao meu funcionamento habitual?

  • O que está acontecendo com meu sono, energia e comportamento?

  • Quanto isso está interferindo na minha vida?

  • Já aconteceu anteriormente?

  • O que pessoas próximas têm percebido?

 

Essas perguntas não produzem um diagnóstico. Mas podem ajudar a reconhecer que alguma coisa merece ser compreendida com mais cuidado.

 

CONCLUSÃO

 

Reconhecer os episódios do transtorno bipolar exige mais do que decorar uma lista de sintomas. É necessário compreender padrões. É necessário observar contexto. É necessário considerar história. É necessário avaliar funcionamento. E, principalmente, é necessário lembrar que existe uma pessoa por trás de tudo isso.

 

Mania, hipomania e depressão são conceitos clínicos importantes. Mas eles não devem transformar a pessoa em um conjunto de sintomas. A Neurociência ajuda a compreender mecanismos. A Psicanálise ajuda a escutar a subjetividade. A Teologia ajuda a pensar sobre dignidade, sofrimento, graça, responsabilidade e esperança. E o cuidado clínico precisa respeitar os limites de cada campo.  Compreender não é diagnosticar. E diagnosticar não é definir uma pessoa. A pessoa continua sendo muito maior do que aquilo que está acontecendo com ela.

 

A pessoa não é o transtorno bipolar.

 

⚠️ IMPORTANTE

Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por profissionais qualificados. Alterações de humor, energia, sono ou comportamento podem ter diferentes causas e não permitem, isoladamente, concluir que uma pessoa apresenta transtorno bipolar.

 

Seguindo Seus Passos

Conhecer • Compreender • Acolher

 

Por: Carlos Henrique Müller Filho – Teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista, especialista em neurociências na pratica clínica e neuropsicanálise.

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