Transtorno de Personalidade Histriônica
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Transtorno de Personalidade Histriônica: quando a necessidade de ser visto passa a organizar a vida
Nem toda pessoa extrovertida precisa de atenção. Nem toda pessoa emocional é histriônica. O problema começa quando a necessidade de ser percebido, reconhecido e validado deixa de ser apenas uma característica e passa a organizar a maneira como a pessoa se relaciona consigo mesma e com os outros.
Imagine uma pessoa que entra em qualquer ambiente e rapidamente percebe quem está olhando para ela. Ela gosta de conversar, de contar histórias, de expressar suas emoções e de ser notada. Quando recebe atenção, sente-se viva, importante, valorizada. Mas quando deixa de ser o centro das atenções, alguma coisa muda. Pode surgir irritação, desconforto, ansiedade ou uma necessidade urgente de recuperar o olhar das pessoas.
Talvez aumente a intensidade da fala. Talvez surja uma nova história. Talvez apareça uma demonstração emocional exagerada. Talvez a pessoa procure uma maneira de voltar a ocupar o centro da cena. À primeira vista, alguém poderia simplesmente dizer: "Ela gosta de aparecer." Mas a clínica exige perguntas mais profundas.
O que acontece quando essa pessoa não é vista? Quem ela sente que é quando ninguém está olhando? Quanto do seu valor pessoal depende da resposta dos outros? É nesse território que começamos a compreender o Transtorno de Personalidade Histriônica (TPH).
O QUE É O TRANSTORNO DE PERSONALIDADE HISTRIÔNICA?
O TPH é um transtorno da personalidade caracterizado por um padrão persistente de emocionalidade excessiva e busca de atenção. Ele faz parte do grupo B dos transtornos da personalidade, ao lado dos transtornos antissocial, borderline e narcisista.
O DSM-5-TR descreve um conjunto de características que podem compor esse padrão, entre elas desconforto quando a pessoa não está no centro das atenções, interação inadequadamente sedutora ou provocativa, expressão emocional que pode ser rapidamente mutável e superficial, uso da aparência para chamar atenção, discurso excessivamente impressionista, teatralidade, sugestionabilidade e tendência a perceber relacionamentos como mais íntimos do que realmente são. O diagnóstico exige a presença de pelo menos cinco dessas características dentro de um padrão persistente.
Mas existe algo fundamental que precisa ser compreendido: ter uma dessas características não significa ter o transtorno. Uma pessoa pode ser comunicativa. Pode gostar de se vestir bem. Pode ser emocionalmente expressiva. Pode gostar de receber elogios. Pode ser extrovertida. Pode gostar de estar no centro de uma conversa. Nada disso, isoladamente, constitui um transtorno da personalidade.
O diagnóstico depende da existência de um padrão persistente e inflexível, presente em diferentes contextos, associado a sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida. Essa distinção é essencial porque, quando transformamos características humanas comuns em diagnósticos, deixamos de fazer psicologia e começamos a produzir rótulos.
NÃO É SOBRE "GOSTAR DE APARECER"
Essa talvez seja a primeira ideia que precisamos abandonar. Uma pessoa pode gostar de atenção sem que exista qualquer transtorno. O problema não está simplesmente em desejar reconhecimento. Todos nós precisamos, em alguma medida, ser vistos, reconhecidos e valorizados. O ser humano é relacional. Nossa percepção de nós mesmos também é construída, em parte, dentro das relações.
A questão clínica aparece quando a necessidade de atenção se torna excessiva, persistente e central para o funcionamento da personalidade. Nesse caso, ser visto deixa de ser apenas agradável. Passa a ser quase necessário. E quando a atenção desaparece, pode surgir uma sensação de vazio, desconforto ou desorganização emocional. É possível então que a pessoa faça esforços cada vez maiores para recuperar a atenção perdida.
Não necessariamente porque esteja conscientemente planejando manipular alguém. Muitas vezes, o funcionamento é mais complexo do que isso. É justamente por essa razão que precisamos abandonar explicações simplistas.
A PESSOA HISTRIÔNICA NÃO É UMA CARICATURA
Existe uma tendência perigosa nas redes sociais de transformar transtornos da personalidade em personagens. O narcisista vira o "vilão". O borderline vira a pessoa "instável". O antissocial vira o "psicopata". E o histriônico vira simplesmente "a pessoa que quer aparecer". Isso pode gerar conteúdo fácil de consumir, mas produz uma compreensão pobre da psicopatologia. O TPH não deve ser reduzido a uma caricatura.
Estamos falando de uma forma persistente de funcionamento da personalidade que pode produzir sofrimento real para a própria pessoa e dificuldades significativas em seus relacionamentos. Estudos brasileiros também têm procurado compreender os traços histriônicos de maneira dimensional, desenvolvendo instrumentos para avaliá-los e diferenciá-los de outros aspectos da personalidade.
Isso é importante porque a personalidade não funciona apenas em categorias rígidas de "tem" ou "não tem". Essa perspectiva nos ajuda a compreender algo importante: existem traços histriônicos que não necessariamente constituem um transtorno. A diferença está na intensidade, na rigidez, na persistência e no impacto desses padrões sobre a vida.
QUANDO A ATENÇÃO SE TORNA NECESSIDADE
Podemos pensar em uma pergunta simples: "O que acontece quando essa pessoa não recebe atenção?" Para algumas pessoas, a resposta é: "Nada. Fico um pouco frustrado e sigo minha vida." Para alguém com um funcionamento histriônico mais acentuado, a ausência de atenção pode ser muito mais difícil de suportar. A pessoa pode sentir necessidade de recuperar rapidamente o interesse dos outros.
Pode intensificar a expressão emocional. Pode buscar aprovação. Pode utilizar a própria aparência para chamar atenção. Pode dramatizar situações. Pode falar de maneira muito impressionista, apresentando sentimentos ou opiniões com grande intensidade, mesmo quando faltam detalhes concretos.
Pode também interpretar uma relação como muito mais próxima ou íntima do que ela realmente é. Não devemos interpretar cada um desses comportamentos isoladamente. O que importa é o padrão. E esse padrão precisa ser compreendido dentro da história daquela pessoa.
UMA PERSONALIDADE ORGANIZADA AO REDOR DO OLHAR DO OUTRO
Aqui começamos a entrar em uma questão que será aprofundada nos próximos dias. Uma pergunta particularmente importante para compreender o TPH é: "Quem sou eu quando não estou sendo reconhecido pelo outro?"
Essa pergunta não significa que toda pessoa histriônica tenha baixa autoestima ou que exista uma única explicação psicológica para o transtorno. Não existe uma causa simples que explique todos os casos. A personalidade se desenvolve a partir de uma combinação complexa de fatores, e diferentes pessoas podem apresentar trajetórias diferentes.
Mas podemos observar algo clinicamente relevante: quando a percepção de valor pessoal depende excessivamente da resposta dos outros, os relacionamentos podem se transformar em uma fonte constante de confirmação. O olhar do outro passa a ter um peso enorme. O elogio produz alívio.
A atenção produz segurança. A ausência de atenção produz desconforto. E a pessoa pode entrar repetidamente em busca de novas formas de recuperar aquilo que perdeu. É justamente esse funcionamento que precisamos compreender antes de julgá-lo.
E OS RELACIONAMENTOS?
Quando a necessidade de atenção passa a ocupar um lugar central, os relacionamentos podem sofrer. A pessoa pode desejar proximidade rapidamente. Pode interpretar determinadas relações como mais íntimas do que realmente são. Pode esperar demonstrações frequentes de interesse. Pode sentir desconforto quando outra pessoa recebe mais atenção. Pode apresentar emoções intensas e rapidamente mutáveis.
E aqueles que convivem com ela podem começar a experimentar uma sensação de exaustão. Não necessariamente porque a pessoa queira conscientemente prejudicá-los. Mas porque uma relação saudável exige reciprocidade. É preciso existir espaço para que o outro também seja visto. Esse será um dos pontos fundamentais da nossa série: quando a necessidade de ser visto impede a capacidade de enxergar o outro, o relacionamento começa a perder reciprocidade.
HISTRIÔNICO NÃO É SINÔNIMO DE HISTÉRICO
Também precisamos fazer uma distinção histórica. O termo "histriônico" possui relação histórica com o conceito de "histeria", mas não devemos simplesmente tratar os dois como sinônimos. A antiga categoria de histeria percorreu uma longa história na medicina e na psiquiatria e assumiu significados diferentes ao longo do tempo. O termo acabou sendo abandonado como categoria diagnóstica específica e substituído por diferentes conceitos e diagnósticos. O atual transtorno de personalidade histriônica surgiu nesse processo histórico de reformulação da classificação psiquiátrica.
Isso é importante porque ainda encontramos, no senso comum, uma utilização pejorativa da palavra "histérica". Não é esse o sentido clínico que estamos utilizando. Histriônico é uma categoria diagnóstica específica. E precisa ser tratada com seriedade.
NÃO DEVEMOS DIAGNOSTICAR PESSOAS PELAS REDES SOCIAIS
Esse ponto será repetido durante toda a nossa série. Se alguém conhece uma pessoa que: "faz drama", "quer aparecer", "gosta de elogios", "muda de humor", "se veste para chamar atenção", isso não permite concluir: "Ela tem transtorno de personalidade histriônica." Diagnóstico clínico não funciona dessa maneira.
Os transtornos da personalidade envolvem padrões persistentes e generalizados de funcionamento, que afetam aspectos como cognição, afetividade, funcionamento interpessoal e controle de impulsos, produzindo sofrimento ou prejuízo significativo. Também é necessário considerar outras possíveis explicações para os sintomas.
Por isso, nosso objetivo nesta série não será ensinar ninguém a diagnosticar familiares, cônjuges, amigos ou colegas de trabalho. Será ensinar a compreender padrões. E compreender padrões pode ajudar uma pessoa a procurar ajuda.
E ONDE ENTRA O ACONSELHAMENTO PASTORAL?
Aqui precisamos caminhar com muito cuidado. Uma pessoa com dificuldades relacionadas à atenção, aprovação, autoestima e relacionamentos não precisa ser recebida pela igreja com rótulos. Precisa ser recebida como pessoa. Isso não significa negar a realidade clínica. Também não significa transformar sofrimento psicológico em uma questão exclusivamente espiritual.
O aconselhamento pastoral pode oferecer escuta, acolhimento, reflexão sobre a vida, acompanhamento espiritual e encaminhamento responsável quando houver necessidade de avaliação psicológica ou psiquiátrica. A fé cristã não precisa competir com a clínica. Pelo contrário. Podemos reconhecer que o ser humano possui dimensões que precisam ser cuidadas de maneira integrada. Corpo, mente, relacionamentos e vida espiritual não precisam ser colocados em guerra.
UMA PRIMEIRA REFLEXÃO
Talvez o maior desafio para compreender o transtorno de personalidade histriônica seja olhar além do comportamento aparente. É fácil enxergar alguém que fala demais. Que deseja atenção. Que dramatiza. Que procura reconhecimento. Mais difícil é perguntar: O que essa pessoa está tentando encontrar através do olhar dos outros? Essa pergunta não serve para justificar comportamentos prejudiciais.
Serve para compreendê-los. Porque compreender não significa aprovar. Significa abandonar o julgamento superficial para procurar aquilo que está acontecendo por baixo da superfície. E talvez seja justamente aí que começa um cuidado mais responsável.
O QUE VAMOS APRENDER NOS PRÓXIMOS DIAS?
Nesta série, vamos avançar em seis etapas. Primeiro, compreenderemos o que é o transtorno. Depois, veremos como seus padrões podem aparecer no cotidiano. Em seguida, investigaremos com cautela o que pode estar por trás dessa necessidade intensa de atenção e validação.
Depois analisaremos as consequências nos relacionamentos, na família e na vida profissional. Também vamos diferenciar o transtorno histriônico de características que podem aparecer no narcisismo e no borderline. Finalmente, falaremos sobre tratamento, limites, cuidado familiar e aconselhamento pastoral.
Não queremos produzir rótulos. Queremos produzir discernimento. Porque existe uma diferença enorme entre dizer: "Essa pessoa é problemática." e perguntar: "Que padrão de funcionamento está acontecendo aqui, e como podemos cuidar disso de maneira responsável?" Essa diferença pode mudar completamente a maneira como enxergamos o sofrimento humano.
Seguindo Seus Passos
Teologia • Psicanálise • Neurociências • Aconselhamento Pastoral
Por: Carlos Henrique Müller Filho – Teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista, especialista em neurociências na pratica clínica e neuropsicanálise.


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