Transtorno de Personalidade Histriônica
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Transtorno de Personalidade Histriônica: como reconhecer o funcionamento histriônico?
Nem sempre aquilo que chama atenção é apenas uma personalidade expansiva. Às vezes, por trás da necessidade constante de ser percebido, existe um padrão de funcionamento que merece ser compreendido.
No artigo anterior, começamos pela pergunta: o que é o Transtorno de Personalidade Histriônica? Hoje precisamos avançar. Porque conhecer o nome de um transtorno não significa compreendê-lo. É preciso observar como esse funcionamento aparece na vida cotidiana.
E aqui existe uma advertência importante: este artigo não foi escrito para que você diagnostique seu marido, sua esposa, seu filho, seu chefe ou aquela pessoa com quem tem dificuldades.
Diagnóstico não se faz por uma lista encontrada na internet. O que podemos fazer é aprender a reconhecer padrões. E reconhecer padrões pode nos ajudar a compreender melhor o sofrimento, perceber consequências e procurar ajuda quando necessário.
O FUNCIONAMENTO HISTRIÔNICO NÃO APARECE EM UM ÚNICO COMPORTAMENTO
Uma das maiores dificuldades quando falamos sobre transtornos da personalidade é a tendência de transformar características complexas em uma lista simplificada. "Ela gosta de atenção." "Ele é dramático." "Ela se veste para chamar atenção." "Ele muda de opinião." "Ela fala muito sobre seus sentimentos." E então alguém conclui: "É histriônico."
Não. A psicopatologia não funciona dessa maneira. Uma característica isolada pode fazer parte da personalidade de qualquer pessoa sem representar uma doença ou transtorno. O que precisamos observar é um conjunto persistente de padrões, que aparece em diferentes situações e produz dificuldades significativas no funcionamento da pessoa ou em seus relacionamentos. O próprio modelo diagnóstico dos transtornos da personalidade considera aspectos como cognição, afetividade, funcionamento interpessoal e controle dos impulsos, além da persistência, rigidez e impacto desses padrões.
Portanto, a pergunta não é: "Essa pessoa faz isso?" A pergunta é: "Esse comportamento faz parte de um padrão persistente de funcionamento?" Essa diferença parece pequena. Clinicamente, ela é enorme.
1. O DESCONFORTO QUANDO NÃO É O CENTRO DAS ATENÇÕES
Talvez este seja um dos sinais mais conhecidos do funcionamento histriônico. A pessoa pode apresentar intenso desconforto quando deixa de receber atenção. Não estamos falando simplesmente daquela frustração comum quando alguém não é reconhecido. Estamos falando de uma necessidade muito mais persistente de ocupar o foco da interação. Quando outra pessoa passa a receber atenção, pode surgir uma necessidade de recuperar esse lugar.
A pessoa pode aumentar a intensidade da fala. Pode introduzir uma história pessoal. Pode exagerar determinada emoção. Pode procurar uma maneira de tornar-se novamente o centro da conversa. Esse padrão aparece descrito na literatura clínica como uma característica central do transtorno.
Mas existe uma diferença importante entre querer participar e precisar ocupar o centro. Uma pessoa saudável pode gostar de ser reconhecida e, ainda assim, conseguir ficar em segundo plano. No funcionamento histriônico mais acentuado, permanecer fora do foco pode ser experimentado com muito mais dificuldade.
2. A EXPRESSÃO EMOCIONAL PODE SER INTENSA E RAPIDAMENTE MUTÁVEL
Outra característica que merece atenção é a forma de expressar as emoções. A literatura descreve no TPH uma expressão emocional que pode ser intensa, teatral e superficial, com mudanças relativamente rápidas. Isso pode confundir quem observa de fora. Em determinado momento, a pessoa parece extremamente emocionada.
Pouco depois, pode demonstrar outra emoção com a mesma intensidade. Para quem convive com ela, pode surgir a impressão de que "tudo é exagerado". Mas precisamos evitar uma interpretação simplista. Não significa que a pessoa esteja necessariamente fingindo. A emoção pode ser real.
O problema está na maneira como ela é expressa e regulada dentro de um padrão mais amplo de funcionamento. Essa distinção é fundamental. Nem toda emoção intensa é teatralidade. Nem toda mudança de humor significa transtorno de personalidade. O que importa novamente é o conjunto.
3. A NECESSIDADE DE APROVAÇÃO E RECONHECIMENTO
Outro aspecto importante é a dependência do olhar do outro. A pessoa pode buscar frequentemente aprovação, elogios e confirmação. Ela pode querer saber: "Você gostou de mim?" "Você gostou do que eu fiz?" "Eu fui bem?" "Você ainda gosta de mim?" "Você me acha bonita?" "Você percebeu o que eu fiz?"
Perguntas assim são humanas. Todos nós precisamos, em algum momento, de reconhecimento. A questão clínica aparece quando a aprovação externa ocupa um espaço desproporcional na organização da autoestima e dos relacionamentos. O elogio pode produzir alívio. A atenção pode produzir segurança. A ausência de reconhecimento pode produzir grande desconforto.
E então a pessoa volta a procurar alguma forma de obter a confirmação de que precisa. É nesse movimento repetitivo que começamos a enxergar um padrão.
4. A APARÊNCIA PODE SER UTILIZADA PARA CHAMAR ATENÇÃO
Outro aspecto descrito nos critérios tradicionais do transtorno é o uso da aparência física para atrair atenção. Mas precisamos tratar esse ponto com enorme cuidado. Cuidar da aparência não é sinal de transtorno. Usar uma roupa bonita não é transtorno. Gostar de maquiagem não é transtorno. Ser vaidoso não é transtorno. Sentir prazer em estar bem vestido também não é.
O problema está quando a aparência passa a ocupar uma função central e recorrente na tentativa de obter atenção e validação dentro de um padrão mais amplo. É justamente por isso que nenhum item deve ser interpretado isoladamente.
5. UMA FORMA DE FALAR QUE PODE SER MUITO IMPRESSIONISTA
Outro padrão descrito no TPH é um estilo de comunicação excessivamente impressionista, com pouca atenção aos detalhes concretos. A pessoa pode falar de maneira intensa e convincente. Pode utilizar muitas expressões emocionais. Pode transmitir a impressão de que algo foi extraordinariamente importante.
Mas, quando perguntamos: "Mas exatamente o que aconteceu?" podemos encontrar poucos detalhes objetivos. A narrativa pode transmitir mais a impressão emocional do acontecimento do que informações precisas sobre aquilo que ocorreu. Novamente, isso não significa mentira. Não significa manipulação.
E muito menos significa que toda pessoa que fala de maneira emocional tenha um transtorno. Estamos falando de uma característica que, quando aparece junto de outros padrões persistentes, pode contribuir para a compreensão clínica do funcionamento histriônico.
6. A DRAMATIZAÇÃO E A TEATRALIDADE
Talvez nenhuma característica esteja tão associada ao imaginário popular sobre o TPH quanto a teatralidade. A pessoa pode apresentar acontecimentos comuns de maneira muito intensa. Uma pequena frustração pode ganhar proporções enormes. Uma situação cotidiana pode ser narrada como uma experiência extraordinária.
Uma dificuldade pode ser acompanhada de grande demonstração emocional. Pesquisas brasileiras também descrevem o funcionamento histriônico associado à teatralidade, dramaticidade, superficialidade e mudanças repentinas na expressão emocional. Mas existe uma pergunta que precisamos fazer: "O comportamento está sendo exagerado porque a pessoa quer manipular ou porque essa é a forma como ela aprendeu a expressar e organizar suas emoções?"
Não podemos responder isso simplesmente olhando para um comportamento. É necessária uma avaliação clínica. E essa é uma das razões pelas quais precisamos abandonar os diagnósticos improvisados.
7. RELACIONAMENTOS PODEM SER PERCEBIDOS COMO MAIS ÍNTIMOS DO QUE SÃO
Esse é um aspecto menos conhecido, mas muito importante. Uma pessoa com funcionamento histriônico pode interpretar determinadas relações como mais próximas ou íntimas do que realmente são. Essa característica aparece descrita tanto na literatura clínica quanto em estudos sobre traços histriônicos.
Imagine alguém que conversa algumas vezes com uma pessoa e rapidamente conclui: "Somos muito amigos." Ou interpreta uma demonstração de cordialidade como uma demonstração de intimidade. Ou entende um relacionamento profissional como uma relação de amizade profunda. Isso pode gerar expectativas que o outro nunca assumiu.
E quando essas expectativas não são correspondidas, surgem frustração, sofrimento e conflitos. Aqui aparece uma questão central: não basta perguntar o que aconteceu entre duas pessoas. É preciso compreender como cada uma percebeu o relacionamento.
8. A NECESSIDADE DE SER VISTO PODE ORGANIZAR O COMPORTAMENTO
Quando colocamos todas essas características lado a lado, começamos a enxergar algo maior. Não se trata apenas de uma pessoa que: fala muito, se emociona, gosta de elogios, cuida da aparência ou gosta de atenção. O que merece atenção clínica é quando esses elementos fazem parte de um padrão persistente e abrangente.
A necessidade de ser visto pode atravessar diferentes áreas da vida. Família. Amizades. Relacionamentos amorosos. Ambiente profissional. Redes sociais. E talvez seja justamente essa repetição que nos permita compreender que não estamos diante de um comportamento ocasional. Estamos diante de uma forma relativamente estável de se relacionar com o mundo.
O QUE PODE PARECER HISTRIÔNICO, MAS NÃO É?
Essa pergunta é tão importante quanto aprender a reconhecer os sinais. Extroversão não é TPH. Uma pessoa extrovertida pode gostar de conversar e de estar entre pessoas. Mas consegue respeitar o espaço dos outros e permanecer fora do centro quando necessário. Vaidade não é TPH. Uma pessoa pode cuidar muito da própria aparência sem depender da atenção alheia para manter sua autoestima. Emoção intensa não é TPH. Uma pessoa pode chorar facilmente, demonstrar entusiasmo ou reagir intensamente a acontecimentos sem apresentar um transtorno da personalidade.
Comunicação expansiva não é TPH. Há pessoas naturalmente expressivas, comunicativas e até teatrais que não apresentam prejuízo significativo decorrente disso. Desejo de reconhecimento não é TPH. Todos precisamos de reconhecimento em algum nível. O problema aparece quando esse desejo se torna rígido, persistente e central para o funcionamento.
UM ALERTA CONTRA O DIAGNÓSTICO PELAS REDES SOCIAIS
Vivemos uma época em que os nomes dos transtornos de personalidade passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano. Isso tem um lado positivo. As pessoas estão falando mais sobre saúde mental. Mas também existe um lado perigoso. Termos clínicos podem transformar-se em insultos. "Narcisista." "Borderline." "Histriônico." "Antissocial."
Essas palavras começam a ser usadas para descrever qualquer pessoa difícil. Isso é um problema. Porque um diagnóstico não é um adjetivo.
É uma avaliação clínica. Além disso, pessoas reais não cabem perfeitamente em pequenas listas. Traços podem aparecer em diferentes graus. Podem existir combinações entre diferentes características.
Podem existir outros transtornos ou condições que expliquem determinados comportamentos. A própria pesquisa brasileira tem explorado uma compreensão dimensional dos traços histriônicos, inclusive por meio do desenvolvimento e estudo de instrumentos específicos para sua avaliação. Isso reforça uma ideia importante: personalidade não deve ser compreendida apenas em preto e branco.
ENTÃO, O QUE DEVEMOS OBSERVAR?
Se não devemos diagnosticar, o que podemos fazer? Podemos observar quatro perguntas.
1. É persistente? Acontece repetidamente ou foi apenas uma situação específica?
2. É abrangente? Aparece apenas em um relacionamento ou em diferentes áreas da vida?
3. É rígido? A pessoa consegue adaptar seu comportamento às circunstâncias ou repete o mesmo padrão mesmo quando ele produz consequências negativas?
4. Produz prejuízo? Esse funcionamento está prejudicando relacionamentos, trabalho, vida social ou causando sofrimento significativo?
Essas perguntas não substituem uma avaliação profissional. Mas ajudam a diferenciar uma característica de personalidade de um padrão que merece investigação clínica.
RECONHECER NÃO SIGNIFICA CONDENAR
Existe uma razão pastoral e humana para insistirmos nisso. Quando identificamos um comportamento difícil em alguém, nossa primeira reação pode ser o julgamento: "Ela é manipuladora." "Ele é dramático." "Ela quer aparecer." "Ele só pensa nele." Talvez exista realmente um comportamento prejudicial. E ele precisa ser reconhecido.
Mas existe uma diferença entre reconhecer um comportamento e reduzir uma pessoa inteira a esse comportamento. A clínica nos ensina a olhar para padrões. O aconselhamento pastoral nos lembra que estamos diante de uma pessoa. E a fé cristã nos impede de transformar alguém em um diagnóstico. Isso não elimina a responsabilidade. Mas muda a maneira como exercemos essa responsabilidade.
COMPREENDER PARA CUIDAR
Reconhecer o funcionamento histriônico pode ser importante porque permite perceber aquilo que, muitas vezes, permanece escondido atrás de comportamentos que incomodam. A teatralidade pode esconder sofrimento. A busca por atenção pode esconder uma necessidade intensa de validação. A necessidade de aprovação pode revelar uma autoestima excessivamente dependente do outro.
A percepção distorcida da intimidade pode produzir relações marcadas por expectativas que não foram compartilhadas. Mas precisamos continuar cautelosos. Não devemos transformar hipóteses em certezas. O objetivo não é encontrar uma explicação rápida. É compreender melhor.
No próximo artigo, vamos dar um passo ainda mais profundo. Se hoje perguntamos: "Como reconhecer o funcionamento histriônico?" amanhã perguntaremos: "O QUE EXISTE POR TRÁS DA NECESSIDADE DE ATENÇÃO?"
Porque observar o comportamento é apenas o começo. A pergunta mais difícil é compreender por que esse padrão se tornou tão importante na vida daquela pessoa. E essa pergunta nos levará para uma conversa mais profunda entre personalidade, desenvolvimento, relações, Psicanálise e Neurociências.
Seguindo Seus Passos
Teologia • Psicanálise • Neurociências • Aconselhamento Pastoral
Por: Carlos Henrique Müller Filho – Teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista, especialista em neurociências na pratica clínica e neuropsicanálise.


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