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Uma história clínica pastoral

  • há 14 horas
  • 10 min de leitura

Uma história clínica pastoral: compreendendo o narcisismo na prática

 

Ao longo desta série sobre Transtornos da Personalidade, falamos sobre diferentes aspectos do Transtorno de Personalidade Narcisista. Procuramos compreender o que caracteriza esse funcionamento, como ele pode aparecer nos relacionamentos, quais são seus efeitos sobre a família, por que estabelecer limites é importante e o que podemos esperar do tratamento. Mas existe uma dificuldade quando falamos apenas de conceitos. É possível compreender uma definição e ainda assim não conseguir reconhecer como determinado funcionamento aparece na vida cotidiana.

 

Por isso, neste último artigo da série sobre o narcisismo, vamos acompanhar uma história. A história de Rafael. Rafael é um personagem fictício. A narrativa não representa uma pessoa específica e não deve ser utilizada para realizar diagnósticos à distância. Seu objetivo é outro: mostrar como determinados padrões narcísicos podem aparecer na prática e como o aconselhamento pastoral pode responder a eles de maneira responsável.

 

Rafael era um homem admirado

 

Rafael tinha pouco mais de quarenta anos. Era casado, tinha dois filhos e ocupava uma posição de liderança em sua igreja. Era inteligente. Comunicativo. Articulado. Conhecia bem a Bíblia. Sabia falar diante das pessoas. Quando ensinava, conseguia prender a atenção da igreja. Muitos o admiravam. Alguns diziam: "Rafael nasceu para liderar."

 

Ele gostava de ouvir aquilo. Na verdade, precisava ouvir. Quando recebia elogios, parecia ganhar energia. Quando era reconhecido, tornava-se mais próximo das pessoas. Quando alguém demonstrava admiração por seu conhecimento, sua liderança ou sua capacidade, Rafael rapidamente estabelecia uma relação de proximidade. Mas havia outra face que nem todos conheciam. Quando alguém discordava dele, sua reação mudava. Uma crítica podia transformar uma conversa simples em um confronto. Uma sugestão podia ser interpretada como desrespeito.

 

Uma decisão questionada podia ser entendida como uma tentativa de diminuir sua autoridade. E, quando alguém apontava um erro, Rafael raramente começava perguntando: "Será que eu errei?" Sua primeira reação geralmente era: "Por que estão fazendo isso comigo?"

 

O problema começou a aparecer nos relacionamentos

 

Sua esposa, Ana, começou a perceber algo que inicialmente não conseguia explicar. Rafael precisava estar certo. Mesmo quando percebia que havia exagerado, encontrava uma maneira de explicar por que, na verdade, a responsabilidade era de outra pessoa. Quando Ana dizia: "Você falou comigo de uma maneira que me machucou." Ele respondia: "Você está exagerando." Se ela insistia: "Eu só reagi porque você me provocou." E, algumas vezes: "Depois de tudo que faço por você, é assim que você me trata?"

 

Ana começou a duvidar das próprias percepções. Não porque fosse incapaz de pensar. Mas porque, depois de tantas discussões, já não sabia mais se estava realmente exagerando.

 

Na igreja, a história se repetia

 

Com o passar do tempo, alguns membros da liderança começaram a perceber um padrão. Rafael gostava de pessoas que o admiravam. Tinha dificuldade com pessoas que discordavam dele. Elogiava publicamente alguns colaboradores. Depois, quando esses mesmos colaboradores questionavam suas decisões, passava a descrevê-los como desleais, ingratos ou espiritualmente imaturos.

 

Um dos líderes, Marcelo, certa vez disse: "Rafael, talvez devêssemos rever essa decisão. Algumas pessoas ficaram desconfortáveis com a maneira como ela foi tomada." Rafael ficou em silêncio. Depois respondeu: "Você está questionando minha liderança?" Marcelo tentou explicar que não. Mas a conversa já havia mudado. A questão deixou de ser a decisão. Agora era sobre a lealdade de Marcelo.

 

Quando a imagem começou a rachar

 

Durante anos, Rafael conseguiu manter sua imagem. Até que uma sequência de conflitos tornou impossível ignorar o problema. Algumas pessoas se afastaram. Um casal deixou de participar do ministério. Dois líderes pediram para sair. Ana procurou aconselhamento pastoral. E Rafael começou a perceber que sua imagem estava sendo ameaçada. Foi então que algo inesperado aconteceu. Ele procurou ajuda. Mas não porque dissesse: "Eu tenho um problema com a maneira como me relaciono com as pessoas." Sua primeira frase foi: "Preciso de ajuda porque estão tentando destruir minha reputação." Esse detalhe era importante.

 

Rafael chegou ao aconselhamento apresentando-se como vítima de uma conspiração. Segundo ele, todos estavam interpretando suas atitudes de maneira equivocada. A princípio, seria fácil acreditar em sua narrativa. Ele falava com convicção. Apresentava argumentos. Conhecia as Escrituras. Tinha uma explicação para tudo. Mas o aconselhamento pastoral responsável não poderia começar escolhendo um culpado. Precisava começar escutando.

 

O conselheiro não começou chamando Rafael de narcisista

 

Esse ponto é fundamental. O conselheiro pastoral não deveria olhar para alguns comportamentos e concluir: "Rafael é narcisista." Um diagnóstico de Transtorno de Personalidade Narcisista não pode ser feito dessa maneira. A função do aconselhamento pastoral também não é substituir uma avaliação clínica. O primeiro passo foi observar o padrão. Como Rafael reagia quando era criticado? Como lidava com a frustração? Como interpretava a discordância? Como tratava aqueles que não o admiravam? Como reconhecia seus próprios erros? Como compreendia as necessidades da esposa?

Como utilizava sua posição de liderança? Essas perguntas começaram a revelar algo mais profundo. Não havia apenas conflitos isolados. Existia um padrão recorrente.

 

Por trás da superioridade havia fragilidade

 

Com o tempo, Rafael começou a falar sobre sua história. Seu pai havia sido extremamente crítico. Nada parecia suficiente. Quando Rafael tirava uma boa nota, ouvia: "Você poderia ter feito melhor." Quando conseguia alguma conquista: "Isso não é grande coisa." Quando demonstrava fragilidade, era ridicularizado. Rafael aprendeu cedo uma coisa: ser vulnerável era perigoso.

 

Então construiu outra estratégia. Ser o melhor. Ser admirado. Ser respeitado. Ser aquele que sabe. Ser aquele que ninguém consegue questionar. A grandiosidade passou a funcionar como uma espécie de proteção. Isso ajudava a compreender seu funcionamento. Mas compreender sua história não significava absolver suas atitudes. Essa distinção é essencial.

 

Compreender não significa justificar

 

O conselheiro poderia dizer: "Rafael, sua história ajuda a compreender por que a crítica pode ser tão dolorosa para você." Mas isso não significa: "Por isso você pode humilhar sua esposa quando ela discorda." A primeira afirmação produz compreensão. A segunda eliminaria responsabilidade. No aconselhamento responsável, precisamos sustentar as duas coisas: a pessoa possui uma história que precisa ser compreendida; e a pessoa continua responsável pela maneira como trata os outros. Essa é uma das grandes dificuldades quando trabalhamos com sofrimento psicológico. Explicar não é justificar. Compreender não é absolver. Conhecer as causas possíveis de um comportamento não elimina a necessidade de responsabilização.

 

O momento do confronto

 

Depois de algumas conversas, Rafael contou um episódio. Marcelo havia discordado publicamente de uma decisão sua. Rafael ficou furioso. Disse que Marcelo era desleal. Depois descobriu que outros líderes concordavam com Marcelo. Rafael então passou a questionar o caráter espiritual deles. O conselheiro perguntou: "Rafael, existe alguma possibilidade de que você tenha interpretado a discordância como uma rejeição pessoal?" Rafael ficou em silêncio. Era uma pergunta simples. Mas não era confortável. Ele respondeu: "Talvez."

 

Foi uma pequena palavra. Mas representava uma mudança importante. Pela primeira vez, Rafael não estava imediatamente defendendo sua imagem. Estava começando a observar a si mesmo.

 

O início da mentalização

 

Na linguagem contemporânea da psicoterapia, podemos falar sobre o desenvolvimento da capacidade de mentalizar. Em termos simples, significa conseguir observar os próprios estados mentais e considerar que o outro também possui pensamentos, sentimentos, intenções e perspectivas diferentes das nossas. Rafael precisava aprender a fazer perguntas que anteriormente não conseguia formular: "O que eu senti quando fui contrariado?" "Por que interpretei aquela crítica como ataque?" "Será que Marcelo estava tentando me destruir ou simplesmente discordando de uma decisão?" "O que minha esposa estava tentando comunicar quando disse que estava machucada?"

 

Essas perguntas não resolviam tudo. Mas abriam espaço para algo novo: reflexão. E reflexão é diferente de justificativa.

 

O papel da fé

 

Em determinado momento, Rafael disse: "Eu sei que preciso ser humilde." O conselheiro perguntou: "O que significa humildade para você?" Rafael respondeu: "Aceitar quando estou errado." O conselheiro continuou: "E quando alguém mostra que você está errado?" Rafael ficou em silêncio. A questão havia chegado ao ponto central. Porque é relativamente fácil dizer que somos humildes. Muito mais difícil é descobrir como reagimos quando nossa imagem é ameaçada. A fé cristã não é uma ferramenta para proteger nossa autoimagem.

 

O evangelho não nos chama a construir uma aparência espiritual impecável. Ele nos chama à verdade. A Escritura não apresenta humildade como uma técnica para conquistar admiração. Ela apresenta a humildade como uma disposição que nos permite considerar o outro e reconhecer que não somos o centro de todas as coisas. Paulo escreve: "Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo." Filipenses 2:3

 

Esse texto não é uma técnica psicológica. É uma convocação espiritual. E, ao mesmo tempo, ele confronta diretamente uma das tendências mais destrutivas do funcionamento narcísico: a necessidade de colocar o próprio valor acima do outro.

 

Mas a igreja não deveria simplesmente "orar por ele"?

 

A oração é importante. Mas oração não deve ser utilizada como substituta da responsabilidade. Rafael precisava orar. Mas também precisava ouvir. Precisava refletir. Precisava reconhecer comportamentos. Precisava reparar danos. Precisava respeitar limites. E, se houvesse indicação clínica, precisava de acompanhamento especializado. A igreja poderia caminhar ao lado dele. Mas não poderia fazer o processo por ele. Essa é uma distinção pastoral fundamental. A igreja pode acompanhar a transformação. Ela não pode produzir transformação pela força.

 

E Ana?

 

Essa talvez seja uma das partes mais importantes da história. Durante algum tempo, Ana acreditou que sua responsabilidade cristã era suportar tudo. Ela confundia perdão com tolerância ilimitada. Confundia submissão com ausência de limites. E confundia amor com obrigação de permanecer emocionalmente disponível diante de qualquer comportamento. O aconselhamento pastoral precisou ajudá-la a compreender outra coisa: ela também precisava ser cuidada. Estabelecer limites não significava abandonar Rafael. Significava reconhecer que o comportamento dele tinha consequências. Ana poderia dizer: "Eu quero continuar caminhando com você, mas não vou continuar participando de conversas nas quais sou humilhada." Isso não era falta de amor. Era um limite.

 

O que aconteceu com Rafael?

 

A história não termina com uma transformação instantânea. E isso é proposital. Rafael não acordou no dia seguinte como uma pessoa completamente diferente. Ainda ficou irritado. Ainda sentiu necessidade de se defender. Ainda teve dificuldade diante de algumas críticas. Mas algo havia começado a mudar. Ele começou a perceber seus próprios padrões. Em algumas situações, conseguiu parar antes de reagir. Em outras, conseguiu reconhecer que havia exagerado. Pediu desculpas. Nem sempre de maneira perfeita. Nem sempre imediatamente. Mas começou. E talvez essa seja uma representação mais realista da mudança. Não uma transformação cinematográfica. Mas pequenas rupturas em padrões antigos.

 

O que essa história nos ensina?

 

A história de Rafael permite perceber pelo menos seis princípios importantes.


1. O diagnóstico não deve preceder a compreensão

Não devemos transformar pessoas difíceis em diagnósticos. É necessário avaliar padrões persistentes de funcionamento e, quando necessário, encaminhar para avaliação clínica.


2. A história da pessoa importa

Experiências precoces podem ajudar a compreender como determinados mecanismos psicológicos se desenvolveram. Mas história não é destino.


3. Compreensão não elimina responsabilidade

Saber por que alguém reage de determinada maneira não significa que precisamos aceitar o comportamento.


4. Mudança começa quando a pessoa consegue olhar para si mesma

Enquanto toda responsabilidade estiver sempre no outro, dificilmente haverá espaço para transformação. A reflexão começa quando surge a pergunta: "Qual é a minha participação nisso?"


5. A família precisa de limites

Cuidar de alguém não significa permitir que essa pessoa destrua os demais.


6. A igreja precisa unir verdade e graça

Nem condenação. Nem permissividade. Nem diagnóstico precipitado. Nem espiritualização de problemas clínicos. O caminho pastoral mais responsável é aquele que consegue acolher a pessoa e, ao mesmo tempo, confrontar aquilo que precisa ser confrontado.

 

O narcisismo não é apenas uma questão de comportamento

 

Talvez essa seja a principal conclusão desta série. Quando olhamos apenas para os comportamentos, podemos enxergar arrogância. Mas, por trás dela, pode existir vergonha. Por trás da necessidade de admiração, pode existir fragilidade. Por trás da necessidade de controle, pode existir medo. Por trás da dificuldade de reconhecer erros, pode existir uma autoestima profundamente dependente da imagem.

 

Isso não significa que devemos desculpar comportamentos destrutivos. Significa que precisamos compreender melhor aquilo que estamos enfrentando. A psicanálise nos lembra que nem sempre o sujeito conhece plenamente as forças que organizam seu próprio comportamento. A psicologia contemporânea nos ajuda a compreender padrões de personalidade e suas manifestações. A neurociência amplia nossa compreensão sobre processos relacionados à regulação emocional, cognição social e comportamento. E a teologia nos lembra que compreender o funcionamento humano não esgota aquilo que significa ser pessoa.

 

O ser humano não é apenas cérebro. Não é apenas comportamento. Não é apenas história. Não é apenas diagnóstico. É alguém que precisa ser compreendido em sua complexidade.

 

Uma palavra para quem convive com alguém assim

 

Talvez você tenha acompanhado esta série pensando em alguém. Talvez tenha reconhecido seu marido. Sua esposa. Seu pai. Sua mãe. Um amigo. Um líder. Ou talvez tenha reconhecido algumas características em você mesmo. Se isso aconteceu, não transforme este artigo em uma sentença. Não utilize o conteúdo para diagnosticar alguém. Não procure confirmar que determinada pessoa é "narcisista". Use-o para fazer perguntas melhores.


O que está acontecendo nessa relação?

Quais padrões estão se repetindo?

Quais limites precisam ser estabelecidos?

Existe sofrimento que precisa ser cuidado?

Existe responsabilidade que precisa ser assumida?

Existe ajuda profissional que precisa ser procurada?

Essas perguntas são muito mais importantes do que um rótulo.

 

Encerrando esta série

 

Durante estes últimos dias, falamos sobre o Transtorno de Personalidade Narcisista tentando escapar de duas armadilhas. A primeira é transformar o narcisista em um monstro. A segunda é transformar o narcisista em uma vítima sem responsabilidade. Nenhuma das duas perspectivas é suficiente. Precisamos aprender a enxergar a pessoa inteira. Com sua história. Suas fragilidades. Suas defesas. Seus relacionamentos. Suas responsabilidades. Seus sofrimentos. E suas possibilidades de mudança. Para quem sofre por conviver com alguém com funcionamento narcísico, existe uma mensagem igualmente importante: você não precisa destruir a si mesmo tentando salvar o outro.

 

É possível amar e estabelecer limites. É possível perdoar e manter distância de comportamentos destrutivos. É possível oferecer ajuda sem assumir a responsabilidade pela mudança do outro. E, quando houver abertura, é possível caminhar em direção ao tratamento.

 

Uma última reflexão

 

Talvez a maturidade emocional e espiritual comece justamente quando deixamos de perguntar: "Quem está errado?" e começamos a perguntar: "O que está acontecendo aqui?" Essa pergunta não elimina a responsabilidade. Ela amplia a compreensão. E quando compreensão e verdade caminham juntas, o cuidado deixa de ser ingenuidade. Torna-se maturidade. Porque compreender uma pessoa não significa concordar com tudo que ela faz. Significa enxergar melhor. E enxergar melhor nos permite amar sem ingenuidade, confrontar sem crueldade e estabelecer limites sem culpa.

 

Compreender. Discernir. Cuidar. Restaurar.

 

Esse foi o propósito desta série sobre os Transtornos da Personalidade. E talvez essa seja também uma boa síntese para o aconselhamento pastoral responsável: acolher a pessoa sem abandonar a verdade, confrontar o comportamento sem destruir a dignidade, e oferecer esperança sem criar falsas promessas.

 

Seguindo Seus Passos

Teologia • Psicanálise • Neurociências • Aconselhamento Pastoral

 

Por: Carlos Henrique Müller Filho – Teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista, especialista em neurociências na pratica clínica e neuropsicanálise.

 

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