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Quando o problema não está apenas na pessoa

  • há 21 horas
  • 7 min de leitura

Quando o problema não está apenas na pessoa

 

Uma história sobre manipulação, limites e responsabilidade

 

Esta é uma situação fictícia, construída para fins educativos. Não representa um caso clínico real e não deve ser utilizada para diagnóstico de qualquer pessoa.

 

"Pastor, eu não sei mais o que fazer."

 

Marcos chegou para conversar depois de uma reunião da igreja.  Tinha 43 anos, era casado e conhecia a comunidade havia muitos anos.  Falava pouco. Não parecia alguém procurando uma resposta religiosa. Parecia alguém cansado. Depois de alguns minutos em silêncio, começou a contar sua história.

 

"Meu irmão está destruindo nossa família." Segundo Marcos, seu irmão, Daniel, sempre conseguia transformar as situações a seu favor. Quando precisava de dinheiro, aparecia com uma história convincente. Quando alguém dizia não, ele se irritava. Quando era confrontado, encontrava uma justificativa. Quando prejudicava alguém, dizia que a outra pessoa havia provocado aquilo. E quando percebia que estava perdendo espaço, fazia promessas de mudança.

 

"Ele chora, pede perdão, diz que vai mudar. A gente acredita. Depois acontece tudo novamente." Marcos baixou os olhos. "Eu já emprestei dinheiro várias vezes. Minha mãe também. Meu outro irmão chegou a vender algumas coisas para ajudá-lo." Ele respirou profundamente. "Mas agora eu descobri que algumas das histórias que ele contou eram mentira." O silêncio voltou. Então Marcos fez uma pergunta que parecia estar guardada havia muito tempo: "Se eu colocar limites, estou deixando de ser cristão?"

 

Essa era a verdadeira questão. Não era apenas sobre Daniel. Era sobre culpa. Era sobre perdão. Era sobre responsabilidade. E, principalmente, sobre até onde vai o dever de ajudar alguém.

 

O primeiro erro seria diagnosticar rapidamente

 

Diante de uma história como essa, seria muito fácil dizer: "Seu irmão é antissocial." Ou: "Ele é psicopata." Mas isso seria clinicamente irresponsável. Estamos ouvindo apenas o relato de um familiar. Não conhecemos Daniel. Não fizemos uma avaliação clínica. Não conhecemos suficientemente sua história de desenvolvimento, seus relacionamentos, seu funcionamento emocional ou a presença de outros possíveis transtornos.

 

Portanto, o aconselhamento pastoral não deve transformar relatos comportamentais em diagnósticos. O que podemos fazer é observar os padrões descritos. Mentiras recorrentes. Exploração financeira. Manipulação. Irresponsabilidade. Desrespeito aos limites. Ausência de responsabilização consistente. Promessas repetidas sem mudança correspondente. Esses comportamentos merecem atenção. Mas comportamento observado não é automaticamente diagnóstico.

 

O segundo erro seria simplesmente condená-lo

 

Também seria fácil cair no extremo contrário. "Ele é mau." "Não presta." "É um manipulador." "Afaste-se dele." Embora algumas dessas frases possam parecer protetoras, elas não necessariamente ajudam a compreender a situação. Existe uma diferença entre confrontar um comportamento e reduzir uma pessoa ao seu comportamento.

 

O aconselhamento pastoral precisa ser capaz de dizer: "Isso que você está fazendo é errado." Mas também precisa evitar: "Você é irremediavelmente isso." A pessoa precisa ser confrontada sem ser desumanizada.

 

A perspectiva psicanalítica

 

A Psicanálise nos ajuda a fazer uma pergunta diferente. Não apenas: "O que essa pessoa faz?" Mas também: "Como esse funcionamento se organiza?" Em uma perspectiva psicanalítica, comportamentos repetitivos não devem ser observados apenas isoladamente. É importante investigar os padrões relacionais, os mecanismos defensivos, a maneira como o sujeito lida com frustração, limites, desejo, culpa, responsabilidade e com a presença do outro.

 

No caso fictício de Daniel, poderíamos perguntar: Por que ele precisa constantemente transformar o outro em instrumento para satisfazer suas necessidades? Por que um limite parece ser experimentado como uma afronta? Por que assumir responsabilidade parece tão difícil? Como ele constrói seus vínculos? O que acontece quando alguém deixa de atender às suas demandas? Essas perguntas não servem para justificar o comportamento. Servem para compreender sua organização. E existe uma diferença fundamental entre compreender um funcionamento e absolver alguém de responsabilidade.

 

O ciclo da família

 

Existe ainda outra questão importante. Às vezes, o comportamento problemático de uma pessoa começa a organizar toda a família ao redor dela. Daniel pede. A família concede. Daniel ultrapassa um limite. A família reclama. Daniel promete mudar. A família perdoa. Daniel volta a repetir o comportamento. A família novamente tenta resolver. E o ciclo continua.

 

Sem perceber, todos passam a viver em função do problema. A família começa a acreditar que precisa impedir que Daniel fracasse. Precisa pagar suas dívidas. Precisa explicar seus comportamentos. Precisa protegê-lo das consequências. Precisa acreditar em cada nova promessa. É nesse momento que uma pergunta precisa ser feita: Estamos ajudando essa pessoa ou estamos impedindo que ela enfrente as consequências das próprias escolhas? Essa pergunta pode ser dolorosa. Mas é necessária.

 

O limite que Marcos precisava aprender

 

Marcos acreditava que colocar limites significava abandonar o irmão.

Mas talvez o limite fosse justamente aquilo que faltava naquela relação. Ele poderia dizer: "Eu amo você, mas não vou mais emprestar dinheiro." "Posso ajudá-lo a procurar tratamento, mas não vou resolver suas dívidas." "Posso conversar com você, mas não vou aceitar agressões." "Posso perdoar o que aconteceu, mas isso não significa que tudo continuará como antes." Isso não é vingança. É responsabilidade.

 

Perdão não é ausência de limites

 

Dentro da igreja, esse ponto precisa ser tratado com muita seriedade.

Existe uma compreensão equivocada de que perdoar significa restaurar imediatamente a confiança. Não significa. Perdão e confiança não são exatamente a mesma coisa. Posso perdoar alguém e ainda precisar manter distância. Posso abandonar o desejo de vingança e ainda estabelecer consequências.

 

Posso desejar o bem de alguém e não permitir que essa pessoa continue explorando minha família. A Bíblia não nos chama à ingenuidade. Cristo nos chama ao amor. Mas o amor cristão não é sinônimo de permissividade. Amar não significa permitir que o outro destrua aquilo que está sob nossa responsabilidade.

 

E o aconselhamento pastoral?

 

Aqui aparece um limite fundamental. O conselheiro pastoral pode ouvir. Pode acolher. Pode ajudar a pessoa a compreender sua situação. Pode trabalhar questões de culpa, perdão, responsabilidade, relacionamentos e limites. Pode orar. Pode ensinar as Escrituras. Pode confrontar comportamentos incompatíveis com a fé cristã. Pode incentivar a busca por avaliação e tratamento especializado. Mas não deve assumir o lugar do profissional de saúde mental.

 

Também não deve tentar diagnosticar alguém que não está presente. E, principalmente, não deve aconselhar a vítima ou familiar a suportar indefinidamente uma situação destrutiva em nome de uma interpretação equivocada do perdão cristão.

 

O que a Teologia acrescenta?

 

A perspectiva cristã nos lembra de algo que nenhuma classificação diagnóstica consegue oferecer sozinha. A pessoa humana não pode ser reduzida ao seu funcionamento psicológico. Ela possui dignidade porque é criatura de Deus. Mas a mesma teologia também nos lembra que o pecado é uma realidade.

 

Portanto, a fé cristã não precisa escolher entre psicologia e responsabilidade moral. Podemos reconhecer fatores psicológicos. Podemos reconhecer experiências de desenvolvimento. Podemos reconhecer vulnerabilidades. E ainda afirmar: ser humano também envolve responsabilidade. A graça não transforma o erro em acerto.

O perdão não transforma abuso em relacionamento saudável. E a compreensão não elimina a necessidade de mudança.

 

E se Daniel realmente tiver TPAS?

 

Mesmo que uma avaliação profissional confirmasse um Transtorno de Personalidade Antissocial, isso não mudaria um princípio fundamental: O diagnóstico explicaria parte do funcionamento, mas não autorizaria o comportamento destrutivo. Daniel continuaria precisando ser tratado com dignidade. Mas Marcos também continuaria precisando ser protegido.

 

A família continuaria tendo direito a estabelecer limites. E comportamentos prejudiciais continuariam precisando ser confrontados. Essa talvez seja uma das ideias mais importantes de toda esta série: O diagnóstico não transforma ninguém em vilão.

Mas também não transforma ninguém em vítima de suas próprias escolhas.

 

E se não houver mudança?

 

Essa é provavelmente a parte mais difícil. E se Daniel continuar mentindo? E se continuar manipulando? E se continuar explorando financeiramente a família? E se todas as oportunidades forem utilizadas apenas para reiniciar o mesmo ciclo? Nesse caso, a família precisa reconhecer uma verdade difícil: Você pode oferecer uma porta. Não pode obrigar alguém a atravessá-la.

 

Você pode aconselhar. Pode orar. Pode encaminhar. Pode perdoar. Pode amar. Pode estabelecer limites. Mas não pode produzir dentro do outro aquilo que ele próprio precisa assumir.

 

A história de Marcos termina com uma decisão

 

Algumas semanas depois, Marcos voltou. Não disse: "Meu irmão mudou." Disse outra coisa. "Eu mudei a maneira como estou lidando com ele." Ele havia parado de emprestar dinheiro. Não estava mais encobrindo as consequências das decisões do irmão. Também havia procurado ajuda profissional para compreender melhor o que estava acontecendo dentro de sua própria família. E havia descoberto algo importante.

 

Ele não precisava escolher entre amar o irmão e estabelecer limites. Poderia fazer os dois. Marcos ainda esperava que Daniel mudasse. Mas agora sua esperança não estava mais baseada em cada promessa. Estava baseada em uma compreensão mais madura da realidade. Ele continuava orando. Continuava amando. Mas havia parado de tentar controlar aquilo que não estava sob seu controle.

 

Uma última reflexão

 

O Transtorno de Personalidade Antissocial nos coloca diante de uma questão que vai muito além da psicopatologia. Ele nos obriga a pensar sobre responsabilidade, liberdade, relações, limites, perdão e cuidado. A Psicanálise nos ajuda a investigar o funcionamento. A Neurociência pode contribuir para compreendermos aspectos do comportamento e da regulação emocional. O aconselhamento pastoral pode oferecer escuta, acompanhamento, confrontação e cuidado espiritual. E a Teologia nos lembra que nenhum ser humano deve ser reduzido ao seu diagnóstico.

 

Mas nenhuma dessas perspectivas deve ser usada para apagar a realidade do sofrimento produzido. Precisamos cuidar de quem apresenta o transtorno. Mas também precisamos cuidar de quem convive com ele. Precisamos compreender sem romantizar. Precisamos confrontar sem humilhar. Precisamos perdoar sem permitir. Precisamos amar sem abandonar limites. E precisamos reconhecer quando a nossa tentativa de ajudar deixou de ser cuidado e passou a ser manutenção do problema.

 

O que fica desta série?

 

Depois de percorrermos os principais conceitos relacionados ao Transtorno de Personalidade Antissocial, talvez a pergunta mais importante não seja: "Como identificar um antissocial?" Mas: "Como cuidar de pessoas reais quando comportamentos destrutivos entram nos relacionamentos?" Essa pergunta muda tudo. Porque o nosso objetivo não deve ser descobrir quem merece um rótulo.

 

Deve ser aprender a cuidar melhor. E cuidar melhor exige conhecimento. Exige discernimento. Exige limites. Exige responsabilidade. E, para nós cristãos, exige também graça. Compreender não é justificar. Perdoar não é permitir. Amar não é perder os limites. Cuidar também é proteger.

 

Seguindo Seus Passos

Teologia • Psicanálise • Neurociências • Aconselhamento Pastoral

 

Por: Carlos Henrique Müller Filho – Teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista, especialista em neurociências na pratica clínica e neuropsicanálise.

 

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