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Transtorno de Personalidade Antissocial

  • há 21 horas
  • 7 min de leitura

Transtorno de Personalidade Antissocial: quando o outro deixa de ser reconhecido como limite

 

Existem pessoas que mentem. Existem pessoas que manipulam. Existem pessoas que quebram regras. Existem pessoas impulsivas, irresponsáveis e pouco preocupadas com as consequências de suas escolhas.

Mas, quando esses comportamentos aparecem de maneira persistente, rígida e generalizada, afetando profundamente os relacionamentos e a vida social, podemos estar diante de algo muito mais complexo do que simplesmente uma pessoa "sem caráter".

 

É nesse território que encontramos o Transtorno de Personalidade Antissocial. E talvez seja justamente aqui que precisamos começar com uma advertência. Uma pessoa difícil não é necessariamente uma pessoa antissocial. Uma pessoa que mente não necessariamente possui o transtorno.

 

Alguém que cometeu um crime não necessariamente possui Transtorno de Personalidade Antissocial. Uma pessoa egoísta não necessariamente possui esse diagnóstico. E, da mesma maneira, não podemos chamar alguém de "psicopata" simplesmente porque apresenta comportamentos que consideramos cruéis ou manipuladores. O funcionamento antissocial precisa ser compreendido com muito mais cuidado.

 

O que significa "antissocial"?

Essa palavra costuma gerar confusão. No cotidiano, quando dizemos que alguém é "antissocial", normalmente pensamos em uma pessoa tímida, reservada, que não gosta de conversar ou prefere ficar sozinha. Clinicamente, porém, Transtorno de Personalidade Antissocial significa outra coisa. O termo está relacionado a um padrão persistente de desrespeito e violação dos direitos dos outros e das normas sociais.

 

A pessoa pode apresentar comportamentos como:

  • mentira repetida;

  • manipulação;

  • impulsividade;

  • irresponsabilidade;

  • agressividade;

  • desrespeito por regras;

  • exploração de outras pessoas;

  • dificuldade em assumir responsabilidades;

  • pouca consideração pelas consequências de seus atos.

 

Portanto, existe uma diferença enorme entre: "não gosto de socializar" e "não reconheço adequadamente os limites e direitos das outras pessoas". É justamente por isso que o nome pode ser enganoso para quem não conhece o conceito clínico.

 

Não estamos falando simplesmente de "maldade"

 

Esse é um dos pontos mais difíceis desta discussão. Quando alguém mente repetidamente, explora pessoas, agride, manipula ou desrespeita regras, nossa reação moral é compreensível. Mas a compreensão clínica precisa ir além da condenação. Isso não significa abandonar a dimensão moral. Significa reconhecer que comportamento e funcionamento psicológico não são exatamente a mesma coisa.

 

Uma pessoa pode fazer algo errado sem possuir um transtorno. E uma pessoa pode apresentar um transtorno sem que possamos reduzir toda a sua existência ao diagnóstico. O diagnóstico descreve um padrão de funcionamento. Não define o valor absoluto de uma pessoa.

 

Mas existe responsabilidade

 

Compreender não significa retirar responsabilidade. Esse princípio já apareceu em nossa série sobre o narcisismo e continuará sendo fundamental aqui. Uma explicação psicológica não transforma automaticamente um comportamento destrutivo em comportamento aceitável. Se alguém manipula, prejudica, explora ou agride outra pessoa, existem consequências.

 

A existência de um transtorno não significa que as pessoas ao redor devam abandonar seus limites. Pelo contrário. Em alguns casos, limites claros são indispensáveis para proteger aqueles que estão sendo prejudicados. É possível compreender uma pessoa e, ao mesmo tempo, dizer: "Esse comportamento não será aceito." Isso não é falta de compaixão. É responsabilidade.

 

O problema não está em um único comportamento

 

Imagine alguém que mente uma vez. Isso não permite concluir que exista um transtorno de personalidade. Imagine alguém que tenha sido irresponsável em determinado momento. Também não é suficiente. Imagine alguém que tenha cometido um crime. Ainda assim, o diagnóstico não pode ser deduzido automaticamente.

 

O que precisamos observar é o padrão de funcionamento. Como essa pessoa estabelece relacionamentos? Como lida com regras? Como responde às consequências? Assume responsabilidade? Demonstra remorso? Consegue reconhecer o sofrimento que provocou? Age de maneira impulsiva? Utiliza as pessoas para alcançar seus objetivos? Repete os mesmos comportamentos apesar das consequências? Essas perguntas ajudam a construir uma compreensão muito mais responsável.

 

E a psicopatia?

 

Aqui encontramos uma das maiores confusões populares. Transtorno de Personalidade Antissocial e psicopatia não são simplesmente sinônimos. A psicopatia é um conceito utilizado principalmente em contextos clínicos e forenses, associado a determinadas características afetivas, interpessoais e comportamentais.

 

O termo também possui diferentes instrumentos e tradições de avaliação. Por isso, dizer: "Ele é psicopata porque mente e não demonstra culpa" é uma conclusão precipitada. A avaliação de características psicopáticas exige instrumentos apropriados e profissionais capacitados. Não devemos transformar um conceito complexo em um rótulo utilizado nas redes sociais.

 

A história de desenvolvimento importa

 

Quando estudamos transtornos da personalidade, precisamos resistir à tentação de encontrar uma única causa. Não existe uma explicação simples do tipo: "Ele ficou assim porque os pais não deram amor." Também seria inadequado afirmar: "É tudo genética." O desenvolvimento da personalidade envolve uma interação complexa entre fatores individuais, temperamentais, relacionais, ambientais e experiências ao longo da vida.

 

Algumas pessoas podem ter vivenciado ambientes marcados por violência, negligência, instabilidade, abuso ou ausência de limites. Essas experiências podem participar do desenvolvimento de determinados padrões. Mas isso não significa que toda pessoa que passou por essas experiências desenvolverá um transtorno. E também não significa que a história de alguém determine inevitavelmente seu futuro.

 

O que acontece com a empatia?

 

Essa é uma das questões centrais. O funcionamento antissocial pode envolver dificuldades significativas relacionadas à consideração pelos direitos e sentimentos dos outros. Em alguns casos, a pessoa pode compreender intelectualmente o que o outro sente, mas ainda assim utilizar essa compreensão de maneira instrumental.

 

Essa distinção é importante. Compreender o que alguém sente não significa necessariamente se importar com aquilo que ele sente. Uma pessoa pode perceber que alguém está vulnerável e utilizar essa vulnerabilidade em benefício próprio. É justamente por isso que familiares e profissionais precisam prestar atenção não apenas ao discurso, mas também aos padrões de comportamento.

 

E a culpa?

 

Também precisamos evitar respostas simplistas. Não podemos afirmar que toda pessoa com Transtorno de Personalidade Antissocial seja completamente incapaz de sentir culpa ou remorso. O funcionamento pode variar. O problema é que determinados padrões podem envolver pouca consideração pelas consequências para os outros, racionalização dos próprios comportamentos e dificuldade em assumir responsabilidade.

 

Por isso, uma pergunta importante não é apenas: "Ele diz que está arrependido?" Mas também: "O comportamento mudou?" Palavras podem ser convincentes. Mudanças consistentes de comportamento são mais significativas.

 

A família pode ficar presa em um ciclo

 

Imagine uma pessoa que constantemente: promete mudar; quebra a promessa; pede desculpas; culpa outra pessoa; repete o comportamento; e novamente promete mudar. A família pode entrar em um ciclo de esperança, frustração e culpa.

 

Em determinado momento, começa a pensar: "Talvez eu não tenha amado o suficiente." "Talvez eu precise perdoar mais." "Talvez eu esteja sendo muito duro." Esse tipo de pensamento pode ser especialmente perigoso dentro de comunidades religiosas. Porque o discurso cristão sobre perdão pode ser interpretado como obrigação de aceitar indefinidamente comportamentos destrutivos.

 

Mas isso não é o que significa perdão. Perdoar não significa abolir consequências. Amar não significa abandonar limites. Oferecer graça não significa colaborar com o comportamento destrutivo.

 

E a igreja?

 

A igreja possui uma responsabilidade importante. Mas também precisa reconhecer seus limites. O aconselhamento pastoral pode oferecer: escuta; acolhimento; confronto responsável; orientação espiritual; discipulado; oração; acompanhamento.

 

Mas o aconselhamento pastoral não deve tentar substituir uma avaliação clínica quando existe indicação para isso. Também não deve transformar um transtorno de personalidade em um problema exclusivamente espiritual. Nem todo comportamento destrutivo pode ser explicado apenas pela falta de fé.

 

E nem todo sofrimento psicológico pode ser resolvido simplesmente dizendo: "Ore mais." A espiritualidade cristã pode fazer parte do cuidado. Mas não precisa competir com o cuidado psicológico.

 

O que fazer quando existe manipulação?

 

Essa talvez seja uma das perguntas mais práticas. Se você convive com alguém que apresenta comportamentos manipuladores persistentes, a primeira coisa é abandonar a fantasia de que encontrará a frase perfeita capaz de mudar a pessoa.

 

Você não controla o funcionamento psicológico do outro. O que você pode controlar são seus próprios limites. Isso significa aprender a dizer: "Não vou participar disso." "Essa decisão terá esta consequência." "Não aceito ser tratado dessa maneira." "Se houver ameaça, vou me afastar." "Se você quiser ajuda profissional, posso apoiar essa decisão." Limites precisam ser claros. E, principalmente, precisam ser sustentados. Um limite que nunca produz consequência acaba se tornando apenas uma ameaça vazia.

 

Existe tratamento?

 

Existe possibilidade de tratamento. Mas precisamos ser responsáveis com as expectativas. O tratamento do Transtorno de Personalidade Antissocial pode ser difícil, especialmente quando existe pouca motivação para mudança ou quando a pessoa não reconhece que seu comportamento é problemático. A psicoterapia pode ter papel importante.

 

Dependendo do caso, também pode ser necessário tratar problemas associados, como abuso de substâncias, depressão, ansiedade ou outros transtornos. Não existe uma "cura rápida". Também não existe uma técnica simples que transforme uma personalidade complexa em poucos encontros. A mudança, quando ocorre, pode ser gradual. E precisa envolver responsabilidade.

 

O perigo de transformar o antissocial em um monstro

 

Talvez essa seja a maior preocupação pastoral desta série. É fácil olhar para comportamentos antissociais e concluir: "Essa pessoa não tem alma." "Essa pessoa não sente nada." "Essa pessoa é irrecuperável." Mas esse tipo de linguagem desumaniza. E desumanizar uma pessoa não nos torna mais cristãos.

 

Ao mesmo tempo, também seria irresponsável romantizar o comportamento. Precisamos sustentar duas verdades simultaneamente: A pessoa não deve ser reduzida ao seu transtorno.  Mas seus comportamentos podem causar danos reais e precisam ser confrontados. Essa tensão é difícil. Mas é justamente nela que encontramos um aconselhamento mais maduro.

 

O olhar cristão sobre responsabilidade

 

A fé cristã não elimina responsabilidade pessoal. Pelo contrário. A Escritura apresenta repetidamente a necessidade de reconhecer nossos atos, abandonar práticas destrutivas e assumir responsabilidade diante de Deus e das pessoas.

 

Mas também nos ensina que a dignidade humana não desaparece quando encontramos alguém profundamente desorganizado em seu funcionamento.

 

A pessoa continua sendo pessoa. Isso significa que podemos confrontar sem odiar. Estabelecer limites sem desumanizar. Recusar manipulação sem abandonar a compaixão. E procurar justiça sem transformar vingança em virtude.

 

Uma última distinção

 

Existe uma diferença entre dizer: "Essa pessoa fez algo terrível." e dizer: "Essa pessoa é essencialmente terrível e não pode mudar." A primeira afirmação reconhece responsabilidade. A segunda transforma uma pessoa inteira em um rótulo. Nosso trabalho, tanto clínico quanto pastoral, precisa ser mais cuidadoso. Não devemos negar o mal. Mas também não devemos negar a complexidade humana.

 

Para terminar

 

O Transtorno de Personalidade Antissocial é um tema difícil porque nos coloca diante de uma das perguntas mais desconfortáveis do cuidado humano: Como cuidar de alguém que pode causar sofrimento aos outros? A resposta não está na ingenuidade. Também não está no ódio. Está em uma combinação difícil de sustentar: compreensão, limites, responsabilidade, proteção e esperança realista.

 

Se você convive com alguém que apresenta comportamentos antissociais, não transforme este artigo em um diagnóstico. Observe os padrões. Procure ajuda adequada. Proteja-se. Estabeleça limites. E não carregue sozinho uma responsabilidade que não é sua. Se você trabalha com aconselhamento pastoral, lembre-se: seu papel não é salvar alguém pela força.

 

Seu papel é caminhar com verdade, graça e responsabilidade, reconhecendo também quando é necessário encaminhar para cuidado especializado. E, acima de tudo, não confunda compaixão com permissividade. Compreender não significa permitir. Perdoar não significa abandonar limites. Cuidar também significa proteger.

 

Essa será nossa jornada nesta nova etapa da série Transtornos da Personalidade. E, nos próximos dias, vamos aprofundar ainda mais essa discussão.

 

Seguindo Seus Passos

Teologia • Psicanálise • Neurociências • Aconselhamento Pastoral

 

Por: Carlos Henrique Müller Filho – Teólogo especialista em aconselhamento pastoral, psicanalista, especialista em neurociências na pratica clínica e neuropsicanálise.

 

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